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terça-feira, 22 de setembro de 2015

cê acha que eu sou um rato?!

e é sempre assim. o lugar onde as fichas me caem (algumas delas) é o bar. "toca um cazuza, então" - me pediram, ao pé do ouvido, com segundas intenções travestidas de olhar pra dignidade. toquei simples e fácil na ponta do dedo: "disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso. minha metralhadora cheia de mágoas. eu sou um cara".

ao refrão, foi inevitável não lembrar da cena, mais que da cena, da pergunta:


"Cê acha que eu sou um rato?"


talvez "Que horas ela volta?" já valha simplesmente por essa pergunta. que o filme se repete, se dá e se entrega didaticamente, quase como "O som ao redor" as vezes faz - vide a ~SENSACIONAL~ cena do plástico da revista-veja- durante a reunião de condomínio, tudo bem, é verdade. mas pensando agora, só de ter construído sentido para essa pergunta o blues já valeu a pena - pra citar o velho Chico.

eles estão com os pés na piscina, a filha da empregada e o filho da patroa. ele pagando de legal oferecendo o baseado. ela, cansada, exausta de testemunhar e, mais que isso, viver na pele a contradição da vida da mãe nas relações mais simples como "a mesa do café" "o chão que eu limpo" "o tempo que eu gasto com o filho dos outros mais do que gastei com a minha própria filha a vida toda...", bem, a filha da empregada, exausta, fuma o baseado e demonstra toda a sua vivência [que está mais no que não diz do que no seu esteriótipo de "coitada... ela vai prestar FAU"] no olhar que lança à pergunta: "você é virgem?"

só ali, ao menos pra mim, ficou claro que a vida da filha da empregada é a própria repetição da mãe:
  "ainda somos
os mesmos
e vivemos"

jéssica tinha um filho. a foto 3x4 que a mãe vira no livro. jéssica também o deixara pra trás, tal como a mãe o fez.
o menino-patrão excitado sobre virgindade como quem se preocupa com outras levezas da vida, mal sabe, que ela ali, além de já conhecer o sexo, já conhecia também o parto. ~dos que gera, e dos que deixa.
porque sim, lembremos todos, que mais do que o quartinho de empregada que o moço dO Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho, demonstra até literalmente, desenhando no curta "Recife Frio", ou no esmiuçar do "Eletrodoméstica", uma das heranças da escravidão na relação de ainda hoje empregada doméstica, passa pelo crivo do corpo.


o corpo e o aninhar-se do sinhôzinho nas tetas grande da Regina Casé, ops, da Val.
ou, pra ser mais explícita, o patriarca que pelo encantamento, vindo do tédio da vida que leva, vazia, mentirosa e mesquinha, com piscina, quadros e status, bota a filha da empregada pra dentro de casa, mostra pra ela o mundo, dá quadros e a pede em casamento. a tensão sexual no ar.
 - bem, é ele quem olha da janela desgostoso, lá da varanda do quarto, os dois jovens fumando um com os pés na piscina esvaziada.

esvaziada?
cheia de ratos.
tuas ideias não correspondem aos fatos...

bom, o caso é que a piscina é bem de luxo. dormir no quarto de hóspedes, ainda vai. comer escondida na cozinha, vá-lá "sua mãe é parte da família". mas na piscina... assim, de roupa, às gargalhadas e sem constrangimento, de igual pra igual, em prazer corporal com o meu filho?
aí não.

se eu não gozo, ninguém goza.

e aí, eu compartilho minha sensação de esteriótipos novela-das-6-da-rede-globo.
um grande amigo meu esses dias reclamou via Facebook que a galera não fica fazendo dramalhões nas ruínas de Auschwitz, mas que no Brasil a gente adora fazer novela em fazendas escravocratas...

e filmamos os porões. e damos "dignidades" às escravas de casa. às donas chicas, as pretas cozinheras... àquele pretinho que vai falar com o português errado, meio rápido, olhando pra baixo, sempre à disposição do sinhozinho.
se não, ele é safado, folgado, tá tirando por cima dos irmão e dos patrão, filho da puta que se morrer no final da narrativa, é até um alívio.

 - ai, ai. se soubessem como as coisas eram pralém do dramalhão.. ai ai... a delicadeza do ofício, a sutileza da estratégia, o traçado nobre dos serviços sutis, desde o ferro que forja à política que liberta, passando pelo tabuleiro "inocente" que passa recados e articula toda uma teia de micro-poder que gera a liberdade. - é que não é assim que contam na escola...

pois bem.
veja só a cena. o dono da fazenda, um senhor mais velho sente ciúmes do filho que se encantou com a escrava da casa, a filha, nova e cheia de encanto e curiosidade.
e a brecha, aceita por todos nós -  Ó COITADO DOS HOMENS! - é porque a esposa é uma mocreia, só pensa em futilidades, o dinheiro, a distância. é uma mulher carrancuda, mal humorada. sempre ela, a louca.
veja a cena, então, da sexualidade dos debaixo explícita junto ao prazer, ao baixo, ao animalesco, enquanto à senhorinha da casa é recheada de virtuoses romanescas, empecilhos amorosos, desencontros, provas do verdadeiro amor.

"Mino, escravo de Albino Rocha
Dançou com sua cabrocha
Na beira do Ribeirão.
Ela, escrava mais geniosa,
Dançou com menino prosa
Na beira do Ribeirão.

Mino, escravo de Albino Rocha
Dançou com sua cabrocha
Na beira do Ribeirão.
Ela, escrava mais geniosa,
Dançou com menino prosa
Na beira da imensidão.

Ribeirão sangrou
Ribeirão vazou
Ribeirão morreu de dor de amor.
Ribeirão sangrou
Ribeirão vazou
Ribeirão morreu de dor de amor." [Ribeirão  - Rodrigo Campos - Bahia Fantástica]

***
antes dessa empregada, o que fez fervilhar minha timeline tempos pra trás foi a narrativa do clipe "Boa Esperança" do Emicida. Para o bem e para o mal. Eu mesma levei umas 3 ou 4 vezes assistindo o vídeo pra fichar cair e embasbacamento clarear. e o debate rendeu, dias, semanas... prós e contras, da narrativa utópica, da revanche, da gota dágua, da forma-conteúdo, do que se diz como e quando e porque e pra quem. - louvado seja já por isso! debate: com furor e respeito - mas nem sempre, porque discordar ainda é visto NO PAÍS DA CORDIALIDADE - e assim como parece que se leu nas coxa Gilberto Freyre às vezes parece que leram mais mal ainda Sérgio Buarque e as Raízes do Brasil, na beleza que uma leitura weberiana criativa pode ter sobre o Brasil - discordar aqui ainda é falta de educação.

[dai uma das causas do ódio toxicante do Facebook e o maniqueísmo na visão e suposta resolução de problemas...]

bom, o clipe do Emicida traz uma rebelião de doméstica e a gota dágua de uma situação DE SÉCULOS de opressão. entre tipos de gente, tipos e variações de respeito e dignidade humana. - que ali também passa pela dignidade do trabalho, mas tem a ver com algo ainda mais elementar e básico.
tanto que o áudio da descrição da rebelião que finaliza o clipe, no "gênero do discurso" âncora-de-jornal-nacional revela que uma das reivindicações da imensa onda de rebeliões que assola o país de norte a sul é MAIS RESPEITO.
bem, não é de hoje, nem de ontem que estamos falando da relação daquelas que passaram a ter direito a FGTS... não mesmo.

e nesse sentido, só pra sair do círculo vídeos, filme,
a tirinha de Kiko Dinucci da série Classe Idade Média é igualmente didática:




mas, voltemos à piscina.


Anna Muylaert gosta delas.
a primeira personagem que nos é apresentada nesse filme é ela. a piscina, mas naquilo que dizem por aí, possam chamar de uma relação de fronteiras borradas: a piscina é o objeto-tanque-d'água, mas um sujeito de uma relação social que instaura ao estar associada a um locus, ou pra aumentar o palavrão: a um cronotopo. relação de tempo e espaço. como isso se dá.
ali o menino, criança, se diverte sozinho com a babá e interroga pela mãe. e com a mesma naturalidade que quer saber da mãe, quer tentar entender porque cargas d'água a empregada, tão querida, de corpo, ninho e afeto e PRESENÇA não pode entrar na piscina.

"mas ó, se ele te chamar pra nadar tu diz que não tem roupa de banho" - assim como fizera a vida toda, a mãe ensina pra filha - desabusada que já toma café com a patroa e dorme na casa-grande -
qual desculpa dar.
mas daí se junta a fome com a vontade de comer. o filho da patroa cheio de hormônios e vida. o sol escaldante. ela e a vontade de nadar. pronto. tá feito. ali de roupa e tudo na piscina do patrão. opa. da patroa.
que vê aquilo e surta.
e em menos de cinco minutos liga "pro cara da piscina" e diz que teve um problema. é. precisa trocar a água. "eu vi um rato."

e ali se desmorona com sutileza toda a fachada da cordialidade da patroa que é grata à mulher que criou seu filho.

durante o baseado ela pergunta então, faceira, desbocada, relaxada, cansada, exausta e irônica, ligando todos os pontos que passam por ela e por tantos outros lugares: "cê acha que eu sou um rato?"


Anna Muylaert gosta de piscinas porque também é numa delas que começa outro longa seu:
"e além de tudo me deixou mudo um violão".


a história de uma menina que lida com o alcoolismo e a frustração da mãe inglesa no país dos trópicos diante da separação e de uma vida que não leva mais. a menina que aprende a mentir no mercado, a roubar o vinho que sustenta a o vício da mãe. que frita seu próprio ovo. e que de tanto lavar sua própria roupa já que a mãe é incapaz "e também não contrataria uma empregada visto que isso é coisa do Brasil. Na Europa nãos e faz isso", bem, de tanto ir à lavanderia acha o violão que desencadeia as paixões do resto da narrativa.
filme lindamente costurado em sãopaulo e a trilha dOs Mulheres Negras, seja em ato - um professor de música e um vendedor de instrumentos dA Teodoro, sejam cantando o passeio "Imbarueri".

Anna pode ser sutil. O serviço doméstico ali feito pela menina que estuda em escola bilíngue é quase um sacrilégio diante da irresponsabilidade da mãe. Mas e se nossa menina fosse preta, é, mais melanina, e POBRE? normal carregar o irmão no colo, enquanto faz comida, não?
e aqui não há juízo nenhum sobre o serviço em si, mas sobre a relação social na qual está instaurada.


explico.

fiz uma grande amigo lavando louça.
é.
noite de sábado em casa, no ninho, com os amigos, vinho, comida, violão... casa coletiva, melhor ajeitar as coisas, ele se levanta também vai pra cozinha e diz que quer lavar a louça. eu disse: "é memo?" - porque assim, eu não curto quando eu tô muito na pegada de lavar e alguém me diz pra não fazer isso, como se fosse uma ofensa, como se minha mão fosse cair, etc etc...
nos entendemos ali. que lavar a louça é um cuidado.
consigo. com o outro. uma forma de amar. ele, bunitinho, capricórnio com ascendente em câncer: AMA CUIDAR DOS OUTROS. mesmo.
e ali rolou uma sinceridade e essa percepção, confirmada, de que o problema não é coisa em si. lavar louça não é um serviço menor AO CONTRÁRIO.  e que é da-ora poder oferecer isso para o seu próprio lar ou para o canto dos amigos.

"cozinho porque gosto de comer", sempre diz o mestre quando comentam do seu gosto e habilidade com a comida.

mas esse mesmo mestre da frase acima também foi o mesmo que me jogou na cara meus habitosinhos-pequeno-burgueses-de-gente-que-sempre-teve-empregada-em-casa-e-nunca-precisou-lavar-uma-cueca-e-nem-arrumar-a-cama.

e é. tá marcada no corpo da gente. é fato.

e desconstruir um hábito é fazê-lo descer degrau por degrau.

minha relação com o serviço doméstico de ser SERVIDA SEMPRE só se alterou quando eu fui embora de casa - privilégio classe média estudar fora, na pública e morar em república - mas sem esbanjar grana a la playboy e ter que aprender a esfregar roupa, desentupir pia, entender que o lixo dela não vai embora sozinho - nem ele e nem o de canto algum da casa - a deixar banheiro limpo - ou seja limpar a merda do outro - e todo o resto da porra do toda.

e isso transformou minha relação com a Rô quando voltava pra casa aos fins de semana. e também com meus pais "deixa essa louçaí, a rô lava amanhã". "aii... que bunitinho... ela cozinha"...
quando ia pra cozinha e pegava a mesma faca velha, quase sem corte e dizia "minha mãe precisa trocar isso [e porque não eu né?]" "já falei, mas..." "é porque não é ela que usa..."
ou ainda sobre a máquina de lavar, o tanquinho "maria, precisa trocar" - mas sempre tem outras coisas com as quais fazer milagre com a grana... "é porque não é ela que lava a roupa."
e aquilo pra mim claro. e óbvio e doído.

eu vivi a ausência da mãe que trabalha fora um tempo. até uma aluna do primeiro ano do ensino médio responder numa prova de sociologia o absurdo que a nossa sociedade que obriga a mãe a trabalhar fora e não poder cuidar do seu filho... eu nunca tinha visto a coisa por esse ângulo.
por que a Val não pôde cuidar da própria filha? por que a patroa não cuida do próprio filho?
que horas elas voltam?
porque aí, passa por outro lugar, que não apenas o da emancipação da mulher que "pode-trabalhar-fora-e-ter-uma-carreira" e a pessoa que me fez enxergar a resposta da minha aluna dessa forma, foi justamente a minha cunhada - mulher super bem resolvida consigo, com o ofício que escolheu e que não via sentido algum na vida voltar pro trabalho apenas 4 meses depois de ter dado a luz...
essa mesma sociedade que nos faz ter que achar meu irmão um super herói simplesmente por ser pai e dividir a funça com a esposa, de cuidado, de tomar conta, banho, fralda e o escambau porque os horários dele são mais flexíveis...
agradecemos pelo mínimo - e isso também é resquício da cordialidade daquele que mira subir pelo apadrinhamento do opressor. - passo que o leva praticamente irremediavelmente a se tornar um assim que tiver alguma brecha...

que horas?

mas outras relações são possíveis nesse tempo-espaço do serviço "doméstico"

foi esses dias mesmo, uma amiga - dessas recentes, de pouco suor, mas que parece que de uma (ou várias) vida inteira, ela, que tem um espaço. é. um... bar. não. restaurante. ah! não sei. ela cozinha atrás do balcão com a mesma dignidade desses homens que trampam nessas padoca-faz-tudo-24h-de-sãopaulo. ainda que ali se venda cerveja cara, artesanal. o prato tenha o requinte e cuidado. onde se pode escolher o que se oferece para que se faça sempre com cuidado e amor - outro tempo, não o da máquina. - enfim,um canto prova de amor pelo ofício e pela cidade.
ali Ná Conceição. é. a gente sabe como é banheiro coletivo. de balada. aquele do meio do rolê. ou o banheiro de rep que muita gente usa e vira aquela narquia...
pois bem. o banheiro entupiu.
a reação na balada é o nojinho, a ponta dos pés e o pular pra outro lugar minimamente, quando há.
ali, estávamos em casa. mesmo que não fosse. mas com familiaridade e carinho e cuidado o suficiente para aceitar uma das frases mais belas: "se você vê uma tarefa, ela é sua".

bom, quando eu saí do banheiro pensando que pegaria a sacolinha que sabia onde tava pra trocar o lixo, chegava alguém que tava no corre do desentupidor. um amigo vê a movimentação e ao fim do rolê, quando a gente já tinha arranjado até o pano pra deixar o chão minimamente, ele chega, bonitinho com um saco de lixo, que ficou ali na pia e horas depois foi de fato bem útil.

 o freezer alagou já no fim da balada, é. transbordou gelo derretido por todo o chão escorregadio. eu já meio alta vi a movimentação de longe e ouvi alguém dizendo que pegaria o rodo. "cadê? achou?" "não tem. tá quebrado". eu, vizinha-da-balada vim em casa e peguei os dois rodos e levei, atravessando a noite do centro e cheguei convicta. arribei a barra do vestido, descalcei as sandálias e deslizei no alívio refrescante da água gelada nos pés do calor de sãopaulo. e fiquei ali...teeeeempos até a mão inchar puxando água. e as vezes eu ouvia a possível voz do outro na minha cabeça, antecipando, imaginando "não. não faz isso" ou ainda possíveis admirações "noosssa... a la..."
mas não. tava todo mundo de boa. de boa MESMO.
tanto a galera bebendo uma, que tava satisfeita em pisar no chão alagado e em alguns papelões - solução provisória, tanto eu que agora tava relaxada, curtindo o calor e a vida enquanto ouvia "Down by the Seaside" cantando Led na maior altura. ali. diante de taaaaanta gente que eu admiro e que é só gente. que faz aniversário. que canta. conta causo. faz piada. se impressiona com a beleza das coisa...
todo mundo de boa, como quando meu amigo lavou a louça do jantar de casa.


é hora de perder a paciência. matar o velho mundo dentro de nós  - e ó que apesar do causo bonito do final, eu tô bem longe de ser coerente com tudo que disse e minha relação com as pessoas...
mas sobretudo, é hora de ter fé no afeto, na possibilidade utópica e papável de se construirem outros lugares, outras relações... o novo, enfim. feito que mesmo a sujeira que fomos. e seremos até parir o dia que virá.



***

em tempo:
já que o estalo se dá com o Cazuza no boteco, continua pelo chão do Conceição Discos, nada como terminar com canção empregada-cozinha-sala de estar-apartamento.

a bossa nova cumpre seu papel de contradição no filme de Anna. uma das poucas canções de todo o filme é justamente "Águas de Março" tocada justamente na festa de aniversário da patroa. - bossa status nova. - cena em que se explicita a ingratidão e a vergonha que a patroa sente de Val.
pois bem, a dita primeira bossa-nova da história nasceu do assobio de uma empregada:

"No livro Chega de Saudade, de Ruy Castro, há uma passagem falando que Tom se inspirou num chorinho que sua empregada costumava assobiar quando foi começar a compor Chega de Saudade."


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

e além de tudo me deixou mudo um violão - (ou música serve pra isso)




Pensa então numa boa combinação de Beatles, Chico Buarque, Riachão, Os Mulheres Negras, São Paulo, um olhar adolescente, ruas, problemas familiares, força e delicadeza? Conseguiu vislumbrar o que poderia amalgamar tudo isso? Sim. Um violão. Escondido, esquecido e empoeirado. 








"E além de tudo me deixou mudo um violão (While My Guitar Gently Weeps) é um telefilme, lançado ano passado pela TV Cultura, na quarta edição do projeto da emissora que teve como tema "A Música na Cidade". Dirigido por Anna Muylaert (de "É Proibido Fumar"), o filme nos conta a história de Erica, filha d'A Rita. A adolescente mora com a mãe, numa relação difícil, em que uma fala inglês a outra responde em português. Situação explicitada já no começo do filme: a bolha da mãe na casa de amigos, bebendo e contando piadas sobre a rainha, na língua anglo-saxã. Para chamar a atenção da mãe, Erica se solta numa piscina. Assim será por todo o filme, a mãe se atenta para Erica, pralém do abismo de seu alcoolismo, quando percebe a filha se divertindo com a música alta, ou, pior ainda, quando ouve saindo do seu quarto o barulho de um violão.

Chico Buarque e Beatles estão nas entrelinhas, se costurando nas mais possíveis combinações entre um e outro. Erica encontra na lavanderia - sim, com o alcoolismo da mãe ela tem de cuidar de si, passando pelas compras de casa e feitura do almoço - empoeirado um violão com a inscrição "LovelyRita". E na cabeça de cada telespectador passa um filme próprio: imaginar o músico brasileiro, que toca violão, que gosta de Beatles e conhece uma garota de nome Rita. E inglesa. E adorável. Nome de música. Sabe? sabe sim... gente bota música em tudo - canção pra tudo - ainda mais no Brasil... e... sabe aquele sensação gostosa estar vivendo um trecho da canção que gosta? Vida-arte e vice versa? 
Quando a gente fica besta de ver passar num lugar cantado numa canção - digo por mim que toda vez que vejo a placa "Vila Ipojuca" meu coração dispara e minha cabeça Trovoa, graças ao Maurício Pereira.

Pouco comentado nas boas quando não protocolares críticas do filme é o fato da trilha sonora ser feita pel'Os Mulheres Negras: a terceira menor big band do mundo, formada por dois homens brancos, que fez música nos meados da década de 80 misturando equipamentos eletrônicos, guitarra, saxofone, letras irreverentes, diversos estilos músicas, bossa-nova-beatles, humor, piada, versões, escrachos e a percepção de que de tudo se faz música e de que não tem regra do que é, do que pode ou não. -
  "Profissão de fé d'Os Mulheres Negras: tudo é música boa e tudo é influência. E ponto final". - nas palavras de Maurício Pereira. 
Pra não ser perder no leque de conexões, "Lovely Rita" tá no álbum Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, revolucionário e inovador nas técnicas de gravação, experimentação - : 

"Em treze canções levam ao limite o conceito do rock, agregando orquestrações, instrumentos hindus, gravações tocadas ao revés e sons de animais. Rockmusic hallbaladasjazze até música oriental se mesclam em Sgt. Pepper."  - e viva a wikipedia.
parece que na gravação de Lovely Rita usaram até pente e papel pra produção de efeitos sonoros
Experimentações e misturas: Beatles
Experimentações e misturas: Os Mulheres Negras.


Música serve pra isso - nome de álbum d'Os Mulheres, de música e de filme. "E além de tudo me deixou mudo um violão" parece que é o par ficcional da canção que conta:


"Que o mundo é tão variado / Tanta exclamação que às vezes / Não se nota que é constante / Que uma banalidade / Gere uma canção gigante"

Voltando dos devaneios pra narrativa do filme, Erica se diverte com os amigos em Barueri ao som de Imbarueri, com Maurício Pereira dizendo:


  "Onde a felicidade amarra o sapato. 
Imbarueri é do lado do lugar comum."



Após o encontro com o violão- velho, quebrado, empoeirado "Lovely Rita", o pai de Erica a incentiva a tocar e é o Maurício Pereira quem interpreta o delicioso vendedor de instrumentos musicais de um loja da Teodoro. V O tema é música na cidade, lembra? A cidade é São Paulo. A rua não podia ser outra. A Teodoro. Com seus vendedores que são músicos, trabalhadores. Gente que sabe o que tá vendendo, pra quem, pra que. Gente que em muitos dos casos queria mesmo era ser consumidor das peças sofisticadas e caras. Músico. Maurício. Na memória afetiva de quem ouviu "Um dia útil", as fronteiras entre personagem e ator se mesclam. Não. Não sei  - e acho que não - se o Pereirão já foi vendedor em loja de música, mas músico, de ofício, de trabalho, de cuidado, isso sim - não tem dúvida não. 


"e amanhã é mais um grande dia/ um dia comum de muito trabalho/ um dia grande / que nem um diamante / um longo dia belo / um baita dia duro e lindo / eu ganho pra estar brilhante / num dia útil"



O professor de Erica é um amigo das antigas do pai, "aquele gordo", interpretado pelo outro Mulheres, é claro, André Abujamra. E ele dá aula onde? É ali. Numa travessa da Teodoro - de pequenas portas e anúncios.

E aí é que são elas... com toda essa música sugerida, o que Erica quer tocar?

"Cada Macaco No Seu Galho". A música que ela ouve, na versão de Gil e Caetano, no último volume no seu quarto, seu galho, seu espaço, enquanto dança, se solta, se sente, flutua. Pra temperar a mistura desse roteiro, a canção é de um sambista de 92 anos, vivinho da Silva, Riachão, mesmo compositor de "Vá Morar com o Diabo" - imortalizada na voz de Cássia Eller.

As cordas do violão azul de Erica ressoam as dores da mãe. A fúria d'A Rita deixa mudo seu violão. É a Gota D'Água. Ah... Lovely Rita. Dor. Choro. Berro. Gente pequena que fica grande. Comprar o vinho. Roubar o vinho, chorar. Aguentar as pontas. Segurar o rochão. Explodir a verdade. Viver.

recomeçar. 

É a voz de Erica quem dá a trilha da deliciosa tomada dela, subindo a Teodoro com violão nas costas, entre as cores dos muros, das pessoas e dos ônibus, bem são-paulo.

"eu queria aprender pra tocar pra minha mãe."

"é. qual que é?"

A versão d'Os Mulheres d'A Rita do Chico é o filme em canção.  O vazio, o estouro, o samba, os Beatles, a sutileza, a singularidade d'Os Mulheres, anjos guardiães dessa história, com música por toda parte, porque assim ela está. Mais que compositores da trilha, Os Mulheres Negras partilham da proposta do roteiro, do tema explicitado, tratando de algo que lhes é tão caro. a presença da música na banalidade, no corriqueiro, como também nos ditos grandes momentos. Os Mulheres Negras contemplando essa presença cantada ou sugerida de canção por toda parte, como parte da vida. Transpira. Na vida e/da cidade.




[em resumo:
assistam ao filme. é delicioso.
e se você não conhece Os Mulheres Negras, não sabe o que tá perdendo.]

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

sobre gatos (e uma declaração de amor)

Hoje conheci Haku. Minto. Eu já vira antes. É branco como Gandalf ao fim. Sensível como aquela elfa branca... hm... que fez o Bob Dylan no filme do Scorsese. O Nego é canceriano. tá junto.



 

"Pronto nega. Era o que faltava pra você virar bruxa."

Um gato.






Leon mija nas minhas coisas. Todas. E eu viajo. Muito. E ele não gosta disso.
Entre amanhecer rumo a Marília terça-feira e chegar em SP no fim de tarde da quarta e encontrar - mesmo tendo se certificado de fechar a porta - a cama toda mijada pelo Leon é qualquer coisa de muito amor. Uma das coisas que vim buscar em SP foi a escaleta. Ao colocá-la na na mochila, sinto o rastro de Leon. - mijara nela também.

(preciso castrá-lo e ele me ama: combinação fatal.)

Há pouco disse que "minha primeira gata foi à distância", mas menti. É que na bem da verdade, foi bem de perto. Afinal de contas a Passarinho pariu nas minhas roupas, ora. Eu não estava em Araraquara quando aconteceu. Eu e ela não tínhamos lá a melhor relação do mundo, mas uma fêmea parir nas roupas de outra fêmea deve dizer qualquer coisa sobre a afinidade entre elas...
Passarinho enlouqueceu sozinha e muitos filhos na Moradia.

O Patas... uma de suas crias... sempre me lembro dele bebendo água do filtro da Dona Adriana - gato sortudo! (Aliás, bons felinos reunidos naquele belo lar)

Mas é uma menina de olhos azuis. arregalados. A primeira me escolheu antes.
Quando comecei a falar bastante com o Beto ao telefone, a Lara ia pra perto dele. Era ouvir minha voz que ela se aproximava, mais e mais. Vez ou outra bastava uma mera conversa comigo via computador que ela já se aninhava nele.


Quando (finalmente) eu estive em Londrina, a afinidade se confirmou. A registrei numa das poucas fotografias que fiz daquele fim de semana. Segunda-feira, antes de pegar o ônibus que - como hoje, fora prorrogado da noite pra manhã - estava eu ajeitando a mala, quando peguei a máquina fotográfica. Olhei da porta do quarto de hóspedes (onde ele tivera a audácia de deixar as minhas coisas quando cheguei) e via os dois me vendo partir: Beto e Lara.

Beto não sabia que eu fotografava. Me olhava como quem vê alguém que não se sabe sendo observado e, por isso, mirar os olhos dele através do visor da máquina era olhá-lo, fundo, entregue, como a quem não se sabe sendo visto.
Lara ao contrário encarava a máquina. Observava e se sabia observada pela coisa.

Eis a foto: os dois me vendo partir. Cúmplices. Londrina é o nosso lugar. Totem E Tabu. - tenho vontade de voltar pra lá para vê-la.

Mas antes do Leon ainda houvera outro. Gato que nem existia(?). - Le chat du Rabbin - lêcháderubã. [Filme que nos apareceu quase que como acidente, numa das nossas tarde mais belas. Um gato apaixonado por sua dona, que aprende a falar e trilha com seu dono caminhos de diversão, riso, numa atmosfera ecumênica. Diferentes que sabem coexistir e os que não sabem. O quadrinho virou filme. e eu indico para quem gosta de gatos, pra quem gosta de religião, pra quem gosta de amor, pra quem gosta de animação.]

(Ah! Se a sala 3 falasse... - contaria nossos segredos e juras de amor trocadas enquanto subia o letreiro - futuros amantes. futuro cineasta. sonhos)

Eu e Beto fomos gostando dessa coisa de ir se descobrindo e descobrir o outro, descobrindo o mundo.
Por exemplo, esse filho de São Francisco de Assis veio - também - foi pra me ajudar a amar os bicho.

Quem me viu com a Passarinho desacreditar ao me ver gamada no Leon, de dar banho e tudo mais.
Beto é meu Chico de Pé Grande.
Imenso.
E sim. Gatos.
Um acaba de se aninhar no edredon que me cobre...

( - meu amor dorme longe...)

sábado, 31 de agosto de 2013

frances ha

não costumava me importar com aquilo que dizem nos jornais sobre os filmes. ou me importava?  - essa atitude blasè de recorrer a si pra dizer que agora é diferente... ai a madrugada. fato é que hoje contemplando os cartazes dos filmes trombei com uma crítica que era simplesmente: "Adorei. Assisti duas vezes..." - é... oi? mas até aí tudo bem. ok. às vezes é só isso. você gosta e até repete.
Após andar tanto, a gente foi parar numa reserva cheia de salas com filmes que não passam no shopping mais próximo. Um acaso objetivo fez com que nós, três perdidos daquilo que transitava nas salas cult, pudéssemos ter uma mínima referência sobre o que assistir nessa noite: Frances Ha.
O cartaz é maravilhoso. aquele mei que roxo mei que lilás mei que rosa, uma mulher se movimentando... dá até dúvida se a gente dá conta de tanta cor. - mesmo que ela seja esse lilás. Mas ali no canto dizia "Absurdamente engraçado" e não sei quantas estrelinhas.
***
ao fim da sessão eu chorava. mais por dentro que por fora, que ir assistir a essas coisas em plena lua em câncer é pedir pra se abalar. Frances é uma dançarina. Vive com a melhor amiga, ou tenta e vive aquele período da transição da faculdade e suas projeções e a dureza do mundo adulto. em nova iorque. talvez o absurdamente engraçado venha dos diálogos do filme, que captam o inusitado, pequenas pílulas do que são nossos encontros casuais, nossas conversas em baladas, em jantares com desconhecidos, desabafos poético. talvez seja absurdamente engraçado o modo deslocado da menina que não faz questão de se arrumar, que não é a dançarina-diva, que fala como uma menina, contando causos de uma memória recente de um tempo que não coincide mais com a dureza da cidade. talvez seja absurdamente engraçado vê-la caminhar pelas ruas, saltitante, ou aproveitar que ninguém chegou ainda e liberar seu corpo no palco. ou ainda seu olhar sedento a cada impossibilidade de ser paralém daquilo que ela gostaria.
***
"o que você faz? - que pergunta besta!"
...complexo. "o que você faz é muito complexo?" 
é que eu não sei se eu faço, diz a menina que passa o filme todo tentando dançar e ser dançarina.
tenta se fixar num local, dá aulas, perde a turnê, e quanto mais a solidão aperta, mais ela afirma a todos, de quem ela se aproxima se afastando, de que está bem e está tudo prestes a dar certo.
Frances agora serve vinho na festa do leilão da sua antiga faculdade. Dá informação a estudantes. Dorme em dormitórios coletivos. Na tentativa de estudar dança, torna-se assistente: assistentes só assistem. 
- a busca por um lugar, uma casa, que costura o filme, com seus endereços e suas vidas em cada lugar. - a cidade é o centro do cerco.
o lar do sonhos com a melhor amiga - o quartinho com os amigos ricos, de apê descolado - a casa emprestada - o dormitório coletivo. "enfim meu nome na caixinha do correio".

absurdamente engraçado que nada. infeliz frase essa. a doçura da menina em preto e branco é de um encantamento melancólico. de quem tenta sobreviver numa grande cidade carregando na mala um sonho abstrato-concreto de ser e estar no mundo.

nesse momento vem à cabeça: isabela, pára. isso já tá ficando autobiográfico demais. tá todo mundo sacando que você tá falando há parágrafos desse filme porque você se viu ali na telona...
me vi sim.
mas vi muitas outras e tantas pessoas.
vi uma multidão de gente ali. Gente tentando um lugar físico no mundo que nada mais é que um lugar pra si, consciência plena de sua existência e uma brecha nesse caos de prédios, luzes, dinheiros, esperas e desencontros pra poder deixar sua assinatura.

a dançarina por fim é uma coreógrafa que leva pro palco seu jeito de ir vivendo a vida em tentativa e erro, guiada pela intuição e pelos contra-sentidos. os corpos dos meninos são sinceros nos olhares e no movimento que parece desengonçado e ao mesmo tempo que certeiro.

Frances Ha é um belo filme. um registro poético, intenso ao mesmo tempo que sutil e emocionante da bonita solidão de um homem só (e andar). essa dança de quem se aperta no existir, desliza, se encanta, sofre, e se descobre dona de si, nos passos tortos que dança ao andar.

***
absurdamente engraçado, o carai.
um retrato preto no branco.






E pra quem chegou até aqui, indico, muito, muito
o texto de Deni Rubbo





sábado, 8 de junho de 2013

a canção de "O Abismo Prateado"

      Quando soube do lançamento do filme-documentário "Vou Rifar Meu Coração" (2011, dir. Ana Rieper) que "trata do imaginário romântico, erótico e afetivo brasileiro a partir da obra dos principais nomes da música popular romântica, também conhecida como brega". Fiquei bastante curiosa (eu e meus queridos colegas do Grupo de Estudos CATAVENTO com essa mania de querer entender - questionar, perguntar, cutucar - esses fenômenos da(s) cultura(s) e seus trânsitos entre essas classificações e denominações, segregações, delimitações de classe, gênero, etnia).



     Levei muito tempo pra assistir mas o fiz instigada pela leitura do livro História Sexual da MPB de Rodrigo Faour, cujos capítulos "passeiam pela vocação de boa parte de nossa música do passado para a tristeza amorosa e a dor-de-cotovelo; pela evolução da mulher, da sensualidade e da homossexualidade em nossa sociedade refletida em canções; duplo sentido e transgressões em geral nestes temas, e uma análise do impacto causado na elite bem pensante do país pela dança do maxixe na virada para o XX e do funk carioca no início do século XXI."



   Como interpretar esse fenômeno chamado música brega? Essa, como diria Faour, "vocação" para a dor de cotovelo? "Vou rifar meu coração" é um documentário incrível. Transitando pelo universo da música brega, guiado pelas canções e suas histórias, o cantores, compositores e intérpretes de verdadeiras crônicas amorosas o filme assume (e dá conta do recado) "o desafio de falar sobre a intimidade de pessoas reais, em situações reais."  Essas pessoas estão no interior do país. Num Brasil que pouco passa na TV, histórias que não são contadas nas novelas, cenários bem distintos das paisagens urbanas que fazem fundo para os dramalhões burgueses das nossas novelas (nem mesmo quando elas se querem "menos" burguesas e/ou "menos" metropolitanas). Não são mulheres com padrão de beleza de capa de revista "feminina", nem galãs de propaganda de creme de barbear. Gente mesmo, sabe? São butecos, inferninhos, paradas... casas simples. 



    [Poderia, mas não vou me alongar muito sobre o documentário. O link pra assiti-lo completo tá logo ali em cima taggeado, confiram. Já aviso que é muito da hora, por exemplo, ver o testemunho de uma história de verdade cantada por Odair José em "Eu vou tirar você desse lugar" (canção que eu confesso que conheci recentemente na versão que a finda Los Hermanos fez)]



E versão é o centro dessa brisa e não posso deixar de reproduzir aqui uma fala de Agnaldo Timóteo durante o doc:



 "A mim não chamam de brega. A mim não chamam nunca de brega porque quando eu pego o microfone eu sou um monstro. Você não tem ideia, não tem ideia... você nunca foi a um show meu, nunca foi a uma apresentação minha. Você não tem ideia do que é este "crô" no palco. Eu sou de fácil interação. Eu sou de fácil comunicação. Eu sou alegre no palco. Descontraído. E canto muito. Ninguém percebe que eu sou preto-feio-do cabelo duro porque eu canto muito! Mas canto muito! Muito mais do que Roberto... muito mais! Canto muito!! Por isso eu tô aí até hoje entra meu amor, fique a vontade e diz com sinceridade o que desejas de mim.... [cantarola o clássico de Lupcínio Rodrigues] Mas por que que essa música pode ser brega? Por que não foi feita pelo Chico Buarque? Porque quando o Nelson Gonçalves gravou "Negue" era cafona. A Maria Bethânia gravou virou luxo. É o preconceito que é seguido, que é divulgado, que é programado, e multiplicado contra nós cantores românticos de origem modesta. Nós não somos de uma elite política, elite de sobrenome, nós não somos Buarque de Hollanda, nem Vinicius de Moraes... Nós somos... pessoas do interior!"



Instigante a fala de Agnaldo, mas vamos devagar no andor. Concordo com ele plenamente de que HÁ SIM um preconceito grande (aliado a uma baita hipocrisia) em relação a música brega no Brasil. E sim, há uma questão de classe envolvida. 


 - O movimento político sócio-cultural que fermenta e gera a sigla MPB tem sim um corte de classe e isso tem sim as suas consequências. A aura de música "indiscutivelmente boa" que há em volta dos nomes que ali estiveram envolvidos, direta e indiretamente... (Basta lembrar [e problematizar um pouco a noção de "Eu sou FODA" que Caetano andou berrando por aí  - noutro contexto é claro, mas como toda uma aura de "geração de gênios", como se SER FODA fosse privilégio de poucos ou um dom divino - divergindo absolutamente com a noção de cultura que eu (e meus amigos do Catavento) comungo de que todos são foda, aptos para sê-lo e produzir e etc, etc, etc e etc)




Mas voltando a Agnaldo...

quando ele compara as versões de Nelson e Bethânia, não podemos ficar simplesmente nessa distinção de elementos externos à música. Porque, por mais que o "social", aquilo que (em tese) está de fora da música a influencie, não podemos deixar de ouvir a própria canção! Nesse ponto recorro tanto a Bakhtin quanto a Luiz Tatit. O primeiro que afirma categoricamente que um mesmo enunciado dito em diferentes contextos suscita sentidos diferentes e nos lembra como o tom volitivo-emocional expresso no momento do ato enunciativo altera os sentidos ali expressos. O segundo, o idealizador da "semiótica da canção" , por também nos lembrar que diferentes interpretações da mesma música acaba por revelar novos sentidos, leituras, possibilidades que estavam ali em potência no momento de sua composição e que nem sempre são revelados nas suas versões originais. 



Pode parecer um detalhe besta, mas não é. Esse detalhe besta me faz pensar em como foi possível que a canção do "foda", do "cara-do-sobrenome", ganhasse uma história nos contornos que Karim Aïnouz retratou em Abismo Prateado (2011).










Chegou há pouco nos cinemas o longa-metragem do diretor Karim Aïnouz que levou às telas uma história livremente inspirada na canção  "Olhos nos Olhos" de Chico Buarque, lançada em 1976, no álbum "Meus Caros Amigos" e que ficou muito conhecida na interpretação de Maria Bethânia
Não sei como foi para o público em geral, mas eu fiquei com um pé atrás com essa história de filmar os versos 


Olhos nos olhos,

Quero ver o que você faz

Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando,

Me pego cantando, sem mais, nem por quê.

Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

     Ainda que escritos por um homem, esses versos são uma delícia de se cantar, ao se sentir mulher nesse mundo machista em que (ainda!!) é feio ser dona de si e do seu corpo pra poder dizer (e cantar) que tantos homens a amaram... e bem mais e melhor que o fdp que foi embora dizendo "pra ser feliz e passar bem" (que aí vem a coisa do homem escrevendo ne? essa "coisa de homem" (machista!) se importar com a "qualidade" do "seu" sexo).
    Confesso que me surpreendi com o que vi. Houve sim um estranhamento, mas nada que faça eco com essa onda de críticas negativas ao filme. Discordo de que o filme de Karim não tenha conseguido transitar e passar a emoção da canção. Acho que é preciso pensar não apenas a letra da canção, mas a sua interpretação, as cores e seus sentidos... quais deles foram pra tela...

    A canção "Olhos nos Olhos" aparece transfigurada cantada à capella por dois personagens que cruzam a madrugada de fênix da protagonista Violeta. Ali a música está longe de ser algo de "luxo" como diria Agnaldo Timóteo e bem mais próximo do universo brega. Uma música popular no sentido de popularizada, de estar na boca do povo... 
    Para completar essa leitura, a música é tocada na cena final no rádio de caminhoneiro e não nas versões mais conhecidas de Chico ou Bethânia (ou de qualquer um dos nomes FODA que Caetano possa vir a citar), mas na versão de Bárbara Eugênia feita especialmente para o filme:

     Concordo plenamente com o Blog UM LUGAR no post de Oswaldo Alves  de que no filme a voz de Bárbara consegue um feito: causar uma certa surpresa mesmo sendo uma das canções mais conhecidas de Chico Buarque e mesmo que já saibamos, de partida, que se trata de uma obra inspirada na canção.

Sim. E se é pra analisar a película como uma canção filmada que se leve em conta a versão de Bárbara e não a de Chico Buarque ou de Bethânia ou qualquer outra...

E isso não é mero detalhe. 
Esse estranhamento da versão de Bárbara é o mesmo estranhamento que temos ao perceber a leitura desses versos tantas vezes cantados passionalmente na madrugada de redenção de Violeta pelas ruas de um Rio de Janeiro que não é de cartão postal, o Leblon da novela do Manoel Carlos.

E era aí que eu queria chegar. Não faço ideia se Karim assistiu ao documentário de Ana Rieper, mas saí do cinema com a sensação de ele havia transformado "Olhos nos Olhos" numa música "brega", numa música de povão. (ele leia-se, por favor, o projeto do filme, o roteiro e, é claro, a versão de Bárbara Eugênia). A história de Violeta poderia ter sido narrada no documentário de Ana Riper e a trilha sonora teria o sintetizador e o canto da versão de Bárbara Eugênia.

Mas aí vocês dirão... "mas você não disse que as cenas do documentário eram de um outro Brasil que não o  das metrópoles e cartões postais?" 

     Sim. Eu disse. E uma das maiores sacadas de "Abismo Prateado" é mostrar um Rio de Janeiro de verdade. Com gente indo pro trabalho, com gente nadando, voltando pra casa semi-nu. Rio de Janeiro com trânsito. Sem Cristo, sem Pão de Açúcar. Rio de Janeiro com barulhos. Muitos. Estridentes. Aquele momento em que a agonia da perda, o desacreditar daquilo que ouvira "adeus!", o tentar entender a falta de mundo debaixo dos pés, se mescla com o som estridente, irritante e ensurdecedor de uma construção civil. 







Para um filme inspirado numa canção, o som ao redor de Violeta não foi pensado em vão. Não foi por acaso que na sua saga madrugadeira em busca de alívio pra dor, Violeta dançou eletricamente o hit de Flashdance.



     Assim como também não ouvimos por acaso tocar na rádio do táxi "You make me feel brand new", ou mesmo as inserções de Claudinho & Buchecha entre os adolescentes da película: sim. Em cada canção havia uma memória afetiva e era a ela que se recorria em cada uma dessas inserções. 

     A citação de "Som ao Redor" de Kleber Mendonça Filho também não foi a toa. Vemos o Rio de Janeiro no Abismo tal como vimos o Recife de Kleber, ainda que em história completamente distintas... Aliás, vale a pena conferir o que Daniel Schenker falou a respeito na crítica "O som ao redor de Negrini".  

     A releitura da canção faz reler a cidade, faz reler a própria figura da atriz consagrada. 
     
     O abismo filmado de Violeta, que é cor de melancolia, de intensidade emocional  e espiritual e que ao mesmo tempo é a cor que proporciona a purificação do corpo e da mente, e a libertação de medos e outras inquietações. É a cor da transformação. O abismo prateado das ondas que não se cansam de quebrar na praia, que testemunha dores, paixões, solidões e encontros. Do vermelho do quartinho de hotel que ela aluga para descansar, dormir, pirar, ouvir novamente as palavras de dor... o mesmo vermelho dos inferninhos filmados por Ana Rieper, em "Vou Rifar meu Coração"...  Os olhos nos olhos com cores dos sons de Bárbara. 

    Pensar no "livremente inspirado na canção de Chico Buarque" é nos fazer pensar no caráter autoral de uma interpretação, de uma apropriação do discurso alheio. Me faz pensar no quanto um intérprete se torna tão autor de uma canção quanto o seu compositor. Que Negue com Maria Bethânia, é Negue DE Maria Bethânia. E que talvez nem mesmo a versão de Nelson Gonçalves para Olhos nos Olhos faria uma boa trilha para as cores da dor e renascimento de Violeta num Rio de Janeiro sem cartão postal.


   Não é pouca coisa filmar uma canção num país como o Brasil, que se sente, se canta, se conta, se sabe através dela. O "Abismo Prateado" é um dos quatro filmes que vi até agora lançados em 2013 inspirados em canções: "Somos tão jovens", cujo título é um trecho de "Tempo perdido" da Legião Urbana; "Faroeste Caboclo", inspirado na canção homônima também da Legião e "E além de tudo me deixou mudo o violão" o telefilme que foi ao ar no CanalBrasil e que é inspirado tanto n' "A Rita" do Chico quanto na "Lovely Rita" dos Beatles (filmes esses que merecerão suas respectivas brisas!)

   Canção nesse país é coisa séria. Filme "de canção", também.