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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Passo Torto vai à escola.

"Gostei da música, mas aquela letra é do inferno.
É que eles só cantam São Paulo
e São Paulo é o inferno."

Eu faltei quarta passada. É. Eu me mudei na segunda, cheguei de viagem domingo, brotou uma gig na terça, sem repertório e arranjei dessas febres no corpo que deixam a gente de cama. E eu dou várias aulas na quarta. Quarta [e sexta] é dia de ir pra ETEC e vejo por exemplo os 3 primeiros anos. Mas sou professora em tempos de Facebook e matutando sobre que fazer pra compensar a ausência, numa instituição escolar que não tem estrutura de professor substituto, eu acabei tendo a incrível ideia de passar uma atividade pra aula seguinte, pra não se desconectarem tanto da gente e ouvir um som. É. A ideia era ouvir SAMUEL, do Passo Torto e brisar. Escrever algumas linhas, com começo meio e fim, sobre o que entendeu da Canção, sensações, impressões, opiniões e relacionar - na medida do possível e da lembrança, com os assuntos da aula passada, quais sejam: estratificação, desigualdade e mobilidade social. 

depois de aulas bem densas com segundos e terceiros - e o "pior" ainda estava por vir - entrei no Primeiro Ano A e eles cantavam quase em coro "Diiiiiiz Samuel?"

Fiquei feliz. Dei o corre de buscar o amplicador e eles se assustaram de me ver entrando com aquela coisa enorme dentro da sala de aula: "Já que é pra ouvir música vamo ouvir direito!" - porque as caixinhas de abelha do computador, ninguém aguenta.

Botei o play em Samuel enquanto recolhia os trabalhos. "Professora... eles são amadores?" "Nãa..." " Quer dizer, eles não são muito famosos...?"




Dificilmente eles vão aparecer no Faustão ou a música deles vá tocar na próxima novela das 9, mas eles são uma referência importante pra música que é feita aqui em São Paulo hoje e tem uma certa visibilidade num circuito que frequentam. - eu disse.

E apresentei didaticamente: na lousa: e dizendo: Passo Torto é: Kiko Dinucci - setinha Metá Metá - setinha Juçara Marçal e Thiago França (inclusive tem uma versão de Samuel deles).
Rodrigo Campos (São Mateus e Bahia), Romulo Fróes (que tá lançando disco novo esse mês. é? esse mês. ontem saiu a primeira canção <3) "Nossa, professora, você conhece eles?" [sim, a professora boba sorria.]
Marcelo Cabral - que dentre outros muitos trabalhos é produtor do disco do Criolo, aquele último, foda e desse disco que ele tá fazendo agora - ele era do Skate, gatinho - olhos se arregalam! Criolo. Essa gente, parte dela, cresceu pertinho do Kléber: dou aula na zona Sul, fiii.
e eles ganharam duas vezes o prêmio TIM de música brasileira... (porque argumento de autoridade em alguma medida, sempre, ou não, funciona)

Tem poucas críticas sobre eles...: "é claro. fiz de propósito, que se não vocês iam copiar". Eles ouviram. Passo Torto. e foi uma experiência incrível ver aquela molecada de 14, 15 anos me contando como foi aquela sensação de fruição estética inédita:
o violão!  - como o violão chama atenção. os arranjos. "um jogo dos instrumentos" a tentativa de encaixar em algum gênero conhecido que explique, o que era "aquele samba.... mas uma MPB"... "dá mais destaque pra letra", salientava outro. 
a cozinha fez falta pro outro primeiro ano. 

E aí passamos pros depoimentos deles sobre a sensação de pensar e escrever sobre aquela letra. Conheci vários Samuéis: o menino rico deslocado, vários meninos da Fundação Casa, meninos da Zona Leste, Migrantes nordestinos, adultos, crianças, jovens de aventura pelo Centro. 

E eles? quantas vezes o muro não foram eles mesmo que sentiram?

"Sabe o que é, terceiro ano, eu estou com - desculpem a expressão - tesão por São Paulo" 
Poder conversar com esses meninos sobre essa cidade, sobre toda a imensidão que ela é, depois de estar aqui e vivê-la, fazer isso através da canção do Passo Torto, foi qualquer coisa. 

"ó, e eles estão pertinho de vocês. Estão fazendo essa semana e na outra uma vivência no Sesc Santo Amaro com a Ná Ozzetti. tá lindo. queria eu ir..." - pertinho? é. considerando que eu estou em Santa Cecília, pra vocês é pertinho. 

E, que ironia do destino, não é que hoje eu fui buscar minha máquina fotográfica na Vila Guilherme? E vê bem se eu não andei da Luz até lá, lendo os meus meninos brisarem no Passo Torto, no "Vila-Sabrina-onze-cinco-seis"?

Mas foi sentada na Vila dos Ingleses, já com a máquina resgatada, à espera de um sorriso largo que me saísse pela porta, que eu li essa análise que reproduzo aqui procês, meninos que estão fazendo lição de casa em público e hoje, foram comigo pra escola:

"PASSO TORTO - SAMUEL
Impressões

Antes de começar a contar minhas impressões sobra a música "Samuel" já vou avisar que estou fazendo isso às 19horas e meio que eu acordei com o pé esquerdo e parece que o dia meio que tirou pra me sacanear, então minhas impressões podem ser meio distorcidas, errôneas e depressivas. Vamos começar.
A canção Samuel feita pelo grupo Passo Torto, (que na qual eu não conhecia, obrigado Isabela, agora conheço uma outra banda com um som legal) tem um ritmo meio samba com MPB, algo que eu acho fantástico e de ótimo bom gosto.
Quando a música começou eu tava de cara fechada e quando começou o violão eu arregalei os olhos e pensei: "cara, que daora" e quando o vocalista começou a cantar eu achei interessante. Vou explicar o porquê.
A letra é simples, quando a música termina você consegue entender seu propósito. Ela fala de um cara chamado Samuel que nunca tinha ido a um lugar, talvez o centro, se bem que ele cita a Augusta e a única que eu conheço é uma rua com uns bares e clubes, então eles foram à um clube! Certo? Por enquanto fica assim. Provavelmente, eles nunca foram lá, pois são pobres e a música dá a entender isso, ou eles são uns playboys, mas acho pouco provável. 

A música cita alguns amigos do cantor como o Deto, que é um cara doido pra... que pelo visto gosta de zoar e causar, tipo tirar sarro dos guardinhas e roubar coxinhas, pera, esse é o Nikimba.
Até aí, Samuel ainda não deu sua opinião sobre o local, e nem se quer vai dar. Nesse ponto eu já tava curtindo muito a música e somos apresentados ao Nikimba, o cara do apartamento 23, que é cabuloso que monta atrás de busões e ele sim rouba coxinhas, o Deto rouba moedas de homens de lata.
Depois disso a música fala "Por que cê nunca veio aqui/Quem te prendeu, quem te impediu/ qual foi o muro que subiu/ Por que não atravessou [...]" Nessa parte dá a entender que Samuel nunca tinha ido ao local não porque ele não quis, e sim porquê ele não podia, talvez por ser pobre.
Nessa a música acaba e eu fiquei surpreso, pensei que eu ia ouvir, fazer esse trabalho e esquecê-la, mas não, eu gostei muito. Agora se esse meu texto ficou bom ou não, eu ainda não sei, provavelmente eu não entendi o que a música queria passar, mas  beleza, a música é boa e agora eu acabei de ouvi-la pela 5ªvez seguida, sério, tava ouvindo agora.

Ps.: De qualquer forma, perdoe minha linguagem informal, eu só consigo fazer textos não tão ruins assim."


***

AH! Em tempo, Rodrigo, Kiko, Cabral e Romulinho: a Katarina (ou foi a Duda?) veio toda convicta dizer que ia tentar ir vê-los no Sesc Santo Amaro. Eu postei no nosso grupo no face... Se por acaso, aparecer uns pedacinhos de luz, que me fazem ter vontade de viver ainda mais, por lá, sorriam pra eles.


Um beijo grande, 

Isabela.

Ah! a epígrafe é de uma aluna, pra cuja sala não consegui dar aula hoje. Ela disse aquilo ali, na lata, na rua. no acerto de um passo torto. 

"Hj ganhei de presente uma letra genial do Rodrigo Campos para uma música nova minha, ja pré levantada em nossa Residência Passo Torto Sesc Sto.Amaro !!" postou hoje Marcelo Cabral feliz da vida. 




domingo, 24 de novembro de 2013

são passos.



Foto Clandestina
A primeira vez que assisti ao show do Passo Torto foi lá na Casa de Francisca. Eu ainda morava em Araraquara e vim, única e exclusivamente, para assistir ao show. Há algum tempo encantada com os barulhos paridos pelos quatro moços de múltiplos projetos nessa cidade cinza, eu aproveitei a deixa de novos amigos e vim. É de fato uma casa. Pequena. Aconchegante. Mas que presa pelo espetáculo. Não se serve nada quando começa a apresentação. Fotos proibidas (eu vi uma moça fotografando e fiz duas clandestinas! rá). Silêncio total e absurdo. Mas o quarteto ali está literalmente em casa. Entre uma música e outra, alguma história. As piadas com a ausência dos discos pra venda e a divulgação do site Umquetenha para baixá-los e a alfinetada certeira nos "grandes da mpb" por Kiko "O Chico não disponibiliza lá...". Mas eis que eu ouço uma reclamação de que ninguém cantava junto as letras das canções... Poxa!! Eu até queria. Com todas as letras de cor, fiquei sussurrando ali... mas me senti totalmente constrangida pelo local e não saiu um risquinho de voz.

Já habitante da pauliceia, eu fui caminhando da (já) saudosa rua Clélia até a Serralheria ali na Guaicurus.  A Serralheria é um terreiro. Um terreiro numa sexta-feira a noite. O palco pequeno, o público entre sentado e em pé. Mas estávamos próximos, público e artistas. Com alguns meses de lançamento apenas, o show do álbum "Passo Elétrico" ainda tinha gosto de estreia. O disco se confundiu com junho, com as ruas cheias, em choque, em transe. O show em ciclo abria e fechava em barulho, dissonância. "Passarinho esquisito" abriu para "Um homem só" e sua bonita solidão, compartilhada com as mulheres, "Isaurinha", na crônica recheada de malícia nos sussurros de Rodrigo, entre Belém, Natal, Portugal, com vergonha do amor e "Helena", nas confissões da cidade que é um rádio por dentro, de prédios que têm varizes, bronquite e que também morrem. Na retomada do álbum anterior a música que de fato é uma linha de continuidade entre um álbum e outro: "A música da mulher morta" - com direito a piadinhas de música de sucesso... o show fluiu entre a belíssima "Tempestade" de Fróes e Cabral que, dessa vez, além de ter um encarte só pra si, dava o gosto de sua voz. Do disco antigo "Da vila guilherme até o imirim" tentamos puxar um coro, Rômulo até deu a deixa..., "Sem Título, Sem Amor", assim como "A música da mulher morta", era canção que ligava um álbum noutro, a proposta da ironia, da frieza, do escárnio, da frieza, da estranheza da existência torta e cinza, que atinge seu ápice no sambão de cavaco e violão, Bis do espetáculo, "Rá rá rá":
Desculpe a dignidade
De lhe dizer atrocidades
Mas essa é a minha maior qualidade
Deixa eu gozar
Enquanto eu morro
De tanto rir

Rá rá rá

e "Cidadão" (uma das canções mais bonitas, na minha humilde opinião.)




Foto de Alessandra Cabral
Ontem foi a terceira. E nada de casa, terreiro. Era palco. desses com cortina vermelha, paredes brancas com detalhes dourados. Mas com vontade de ser descolado, com as cadeiras de plástico brancas e uma luminária de led, em pleno contraste com a pompa do lugar. E no Centro. Um prédio construído dentro da ideologia - reacionária - do "Revitalizar o Centro de São Paulo". Prédio modernoso, pensado por diversos arquitetos e zás e zás e para ser um anexo ao Theatro Municipal  - para "fazer companhia" ao solitário centro de cultura do centro da cidade.
Escorrendo contradições, por suas paredes e vidros, o evento que ali acontecia era o Conexão SP (e acontece ainda enquanto escrevo), patrocinado por operadora de celular. O apresentador se gabava ao nos lembrar de que estávamos no Centro. E de fato, estávamos e tudo de graça. Mas os muros de Samuel são construídos dentro - é "Samuel" apareceu no teatro nas vozes de Kiko e Rodrigo. O evento divulgado na internet solicitava que imprimíssemos os ingressos - gratuitos. Seguranças imponentes  - simpáticos também, devo dizer que sorri muito pra linda negra que se chateava por ter que me revistar a cada entrada e saída - eram o aviso: aqui não entra qualquer um. "Diz Samuel, que que cê pensou?"

Atrasos. Eu pensei que não veria o quarteto, já que cheguei pralá do anunciado - mas, como sou besta! festival: atrasos. Mais de horas. Entramos no teatro e então a pergunta "Gente, já pode começar?"
A sala de concerto é invadida pelos barulhos de "Passarinho esquisito". E o show vai. Muita luz, pouca luz, luz que não dialogava. Diálogo em mímica com a mesa: festival, som nunca nos eixos de -cara "abaixa aumenta" dedo apontado pra Marcelo - de fato baixo, baixo. Ao longo do show, entre uma canção e outra, as falas diretas com a mesa.
- mas pro público, os dizeres das canções. apenas.

Há quem desqualifique por aí a chamada música barulhenta. Mas por mais que eu quisesse um show do Passo Torto em pé, dançante - eu não me aguentava nas cadeiras e liguei o foda-se cantando todas as letras que sabia! - faz sentido que aquele show aconteça ali, sentados, assistindo. São barulhos em texto e contexto, com sentido, com tempo e razão de ser, cada um dos detalhes. E quem conhece as canções - sim, CANÇÕES - espera por aquele riffie naquela hora e os cantarola junto. - Exige-se concentração. E estarem à vontade, com som, retorno e público.

Era o festival. Com shows acontecendo simultaneamente. A contradição do show e do lugar: as pessoas se movem. Levantam. Deixam o lugar, o show: "Não pode sair durante o show pessoal", Marcelo disse antes de começarem justamente "Samuel". Aplaudidos logo na introdução e ovacionados no fim. "Viu? Quem saiu perdeu", dizia Kiko.

Mas eu, euzinha aqui, senti falta do estarem em casa como no terreiro da francisca ou da serralheria. Pra gente não teve nenhum mísero "boa noite" - tudo bem, vai. o clima do show. mas um boa-noitezinho?

Foto de Alessandra Cabral
Foi longe de ser o melhor show deles e eles sabem disso: a falta do cavaquinho no retorno e a letra que se erra, o menino que não entra na estrofe certa pra fazer o dueto. Mas ainda assim, um arrebatamento, imenso. Gente que nunca os tinha visto ao vivo, saiu dali embasbacado. Feliz eu fiquei por ver uma menina de sei lá eu, 3 anos, sendo chacoalhada pelos pais enquanto a guitarra do Kiko abraçava em microfonia o retorno.

eta menina de sorte de ouvir essas coisa assim novinha.

passo torto ao deus dará dos Cidadão Esquizofrênico ali bem perto, no Centro. tão perto e tão longe da música enformada da dor encarnada de existir na contraditória são paulo. são palcos. são passos.

ps.: e é claro que eu sambei "Rarará", de pé e sem pudor em pleno teatro. que agora não regulo mais mixaria.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

da maior importância

vá embora, vá.

sentamos então nas banquetas das memórias. enquanto falava dos rancores que nos perseguem, havia o interdito de estarmos ali - fantasmas de um mundo que não veio, numa festa de um futuro tosco, que nos amedronta.
me mostrava os prédios antigos como quem quisesse tocar um rosto, se ver novamente no papel, nos pequenos e certeiros traços que a academia aprisionou e condenou ao esquecimento.
Ressentidos: um vendendo os pecados, o outro comercializando sua descrença.
Depois das viagens astrais, aurais, resta o estar condensados, tateando sentidos.

na calada da noite fria, houve o momento do silêncio que grita. o álibi das mãos eram o olhos que encantados distribuíam levezas.


Foram atropelados no meio da rua deserta. cada qual com uma versão diferente:
 - foi a pressa do teu passo
 - foi o balanço das tuas mãos, das tuas ancas
 - foram as luzes do caminhão.

Acordados, de olhos fechados. hipnotizados de olhos abertos. nada do que se dissesse poria fim à agonia. nem remediaria os hematomas dos tombos.

num só golpe, foi feita então a oferenda: borramos o mapa com percalço, procuras, com guache, com suor. ríamos. e entre nós a distância incontida do retorno. a lógica eram os borrões de tinta num quadro de cores primárias meio pollock, meio jazz.

me cansei do abstrato concreto e engoli você, então. sua confusão, mastiguei sua falta de sentido pras coisas. engolia a sua letra maiúscula de Moça, seu adeus-até logo, sua ironia, acidez - sua carência inconfessável e infame.

Afinal de conta éramos os mesmos ali. enfeitiçados e enlaçados por pontos distantes das mãos. um, morto de certeza. outro, doente de dúvida.

- engulo eu. vomita você.
zonzo, enauseado, você se aproxima. vomita minha desconfiança, minha insatisfação, meu ciúme, meu ego. vomita minha cara de tacho, minha farsa, meus trocados.

Fagocitados pelo vazio, nos despedimos em silêncio. Num encruzilhada, como havia de ser. 
misturados. atônitos. comovidos de indiferença.

baixada a poeira escondida/arrastada pelo vento, debaixo do tapete do tempo
reafirmo meus passos e minha fé
ao responder as perguntas
que você não me fez.


Quem ouve sua voz
Diante dessa voz
Parada entre nós
Reconhece
O som
Permanece
Som
Afogado
Antes de virar
Felicidade
Prende todo o ar
Quem pega sua mão
Nos dedos dessa mão
Mergulha o coração
Condenado
Ao céu
Mais nublado
Põe
Assombrado
Frente ao azul
O mais azul
Azul de um céu imenso
Cadê você
Pra me levar
Cadê você
Pra mergulhar
Na areia, na manhã
Os pés e as mãos
No lado escuro
Do meu coração
E quando meu cansaço
Cair de cansaço
Daí vou saber
Se era mesmo
Você
Se era tarde
Ou
Tempestade
Que passou sem ver
Sem nem dizer
Se ainda vai voltar
(Tempestade, Passo Torto)

sábado, 29 de junho de 2013

não sei se foi número certo...

riffies era pouco. queria mais. na noite passada, era um piano de cauda/calda todo seu. notas infinitas teciam. o desconfortável era que junto delas vinha todo um passado inesperado. de repente, a vida eram lances de escadas e andares de shopping center qualquer e a saída dali não custava menos do que ouvir as lamúrias de um amor do passado. se não pode aparecer em carne osso, ok. que se desfaçam as lamúrias ali no reino de morpheu.
do meu lado uma deusa negra, bruxa, intensa. ela que sabe dos cavaleiros que a cerca. eu só ouço, vigio. mal sei de mim.
ainda vivo no descompasso do sonho. justo eu, que queria tanto acordar.
acordar pra quê? arrumar a casa, tirar as coisas do lugar, botá-las em plásticos, endereçar.

o sonho fica latente.
hoje é sexta? às 16:30 sai o ônibus pra ribeirão.... pra onde?
já tem meses que os ônibus levam é pra lapa, santo amaro, socorro. bom retiro.

hoje faltou carona. uma ova.
hoje, foi na medida.
o que vim fazer nessa cidade afinal de contas?

ouvir as canções prediletas. são poucos quarteirões, oras.
engula a comida de anteontem com novos condimentos. hoje a noite é de entornar: e morpheu só reafirmar.

mas imagens dele... há teclas, abraços, o colo e não há fim.

fora dali, há/a poucos quarteirões.
"quem são eles afinal?"


Para além do mundo dos cliques, as ressonâncias nos corpos: familiaridade antiga. sorriso e hospitalidade: viemos.

ao fundo, cantam-se o canto de xangô! salve, oras! hoje foi dia de comer quiabo.
pôsteres, cartazes. jardins suspensos. livros na vitrina ao lado do balcão do goró: um Jaques Danieis: hoje os daniéis foram tantos... Cowboy, por favor. - que gelo faz mal pra garganta. e a água atrapalha o rolê do goró.


ah, helena! isaurinha... tempestade. cabral capa de disco.
rárárá.
grandes sucessos: a música da mulher morta.  - de fato, ela podia ser qualquer maria, maria.


bis. dj não tem bis?
dançamos toda a verdade de existir. e respirar é mais quando se canta e dança... e há verdade em ali estar.
rodando, rodando, rodando, rodando, rodando...

o tocante só toca não dança?
tá bom. o aconchego. morpheu tinha razão.

caranguejos são diagnosticáveis. paciência.

papéis. cartazes. tanto faz.

literalmente, passo torto nas calçadas em direção à clélia. ora pois. - a viagem é daqui a poucas horas.

o sol negro dorme ao meu lado.
mandei um postal relembrando dos passos do samba parceiro - será que chega? senão, paciência.

posso dizer ao fim: "era só whisky, cão engarrafado".


meu gato, leon, não entende patavinas. sou só uma Felícia.

entendi o que vim fazer aqui.

o louco. o zero.
são paulo.


terça-feira, 25 de junho de 2013

cronistas da cidade que entortou o passo - e foi pra rua. (parte I)

     Nos anais da História, São Paulo será lembrada como a cidade que iniciou a onda de manifestações que desencadearam a isso que chamam agora de "Primavera Brasileira", o "OGiganteAcordou". Será lembrada assim dentre muitas outras coisas. O aumento da tarifa, o MPL, os 87 ônibus quebrados, a PM truculenta ferindo jornalistas e o boom do histórico 17 de junho. Os 20 centavos que fizeram os brasileiros criarem um tesão irreprimível de ir às ruas gritar que estavam de saco cheio.
    Mas o que falarão das músicas que se cantava naquela cidade, a maior do país? Há muito o que dizer. Mesmo. Eu faço uma escolha - que não é nada imparcial. Trago aqui a trilha sonora que me traduziu São Paulo quando vir morar aqui estava definitivamente fora de cogitação: "Passo Torto".
    É fato que não cheguei no "Passo Torto" por acaso. Amigos queridos e próximos já tinham e me mostrado dois álbuns também na lista "do que se cantava na São Paulo dos anos da Revolta do Vinagre": "Metá-Metá" e "Um labirinto em cada pé". Ambos mereceriam para si brisas imensas e lindas. Destaco aqui alguns elementos que me ajuda a pensar no "Passo Torto".
     Em "Metá Metá", estão Thiago França, Juçara Marçal e Kiko Dinucci - e este ultimo com algumas declarações interessantes coloca em debate a questão da autoria e parceria dos álbuns: "por que "Galos de Briga" não poderia ter sido assinado por "João Bosco e Aldir Blanc?" Kiko traz essa característica da parceria em toda a sua obra até aqui. Trabalho coletivo assinado coletivamente. Seja com Douglas Germano (Duo Moviola), ou o "Na Boca dos Outros", o Bando Afromacarrônico... sem contar suas parcerias com outros músicos por aí a fora.
    Essa característica está no "Passo Torto": Kiko está ali autoral nos arranjos, composição, interpretação, produção, tanto quanto, ou com mesmo peso "protagonista" que Rômulos Fróes, por exemplo - que assina "Um Labirinto em cada pé". Junto deles estão ainda Rodrigo Campos, parceiro de Kiko noutras viagens, com seu cavaquinho de São Matheus (com ele eu descobri que "São Matheus não é um lugar assim tão longe") e ainda o baixista-produtor Marcelo Cabral - que também tá no balaio de muita gente, como por exemplo, num dos melhores discos não só da pauliceia, mas de todo o "gigante" "NÓ NA ORELHA" do menino rapper Criolo (Doido).

    Comecei falando das parcerias e da assinatura do álbum como um disco dos QUATRO, do "Passo Torto", uma reunião específica de músicos que costumam trabalhar juntos em diversos outros formatos, porque isso não é aspecto pequeno da forma-conteúdo da existência do disco. Ao contrário. É o que o faz ser tão brilhante. Não há ali uma "banda", mas uma reunião de vozes autorais, as personalidades mescladas e lincadas para a construção de um álbum que é de fato algo maior que os quatro.
 
A abertura do álbum são alguns ruídos ao fundo... distorção da guitarra com o ampli? o arco do baixo de Marcelo Cabral se arranhando noutros espaços? Então vem o riff marcado, grave, de violão. Insistente. É um aviso, uma fala, com começo meio e fim. Entrecortando-a vem o cavaquinho salientando alguns pontos. Até que o arco nas cordas do baixo em estacato criam o clima do anúncio do canto, que só vem depois de um minuto de clima: "Passei na frente da sua casa..."

"A música da mulher morta" é uma crônica lacônica. Dinucci anuncia o canto que compartilha com Fróes: "passei na frente da sua casa" A conversa é com a mulher morta. O corpo coberto. A calçada manchada. São fragmentos de frases e descrições, mas está tudo ali.

passei na frente da sua casaaaaaaaaa....

e então a questão: não sei se foi número certo ou na hora errada. Que mulher morta é essa? toda e qualquer uma? O enunciado banal "ah, passei na frente da sua casa", mas não vi ninguém, mas tava tudo fechado, mas... mostra a banalidade da morte. É esse o seja-bem vindo a São Paulo.




Se a gente dá o primeiro passo no escuro, sem saber do número certo ou da hora errada, o tour agora começa especificar seus lugares, afinal de contas "Da Vila Guilherme até o Imirim" é um-dois. No ponto de ônibus, é o ônibus. Rodrigo Campos e Rômulo Fróes dividem o canto tranquilo do eu lírico para "seu amor" no ponto de ônibus. Ao fundo das frases melódicas extensas, com notas alongadas "veeeeeeeeeeeeeeeeem cá", os riffies inquietos. A imagem sonora do amor no ponto de ônibus. na rua. no movimento. no caos. 




A leveza da poesia do ponto de ônibus, fica pra trás. Os riffies que anunciam a terceira faixa são tensos logo de cara. Agora foi o metrô quem chegou: estação Faria Lima. E chegou tem pouco tempo. Rodrigo Campos está fazendo crônica da recém chegada Linha Amarela perto da sua casa. "Havia o bar do João e hoje tem uma estação". Que a história que rememorar esse disco se lembre de contar que a Linha Amarela não cumpriu com nenhum dos prazos estabelecidos de entrega das obras e ainda registrou graves acidentes de trabalhos. Projeto de longa data que vem engatinhando e até agora não se concluiu. Mas a chegada do metrô dobrou o preço do aluguel:

 "Foi quinhentos até um
Dois mês atrás
Quase o dobro
Tá difícil descolar"
"
 Muitas vezes as próprias vozes se confundem: seria o canto entoado na frase do riff, ou o riff que toca o canto? Nossa correria é reflexo da cidade, ou ela corre porque a gente só faz correr?




a poesia dura, concreta e crua de "É mesmo assim". Curto. Grosso. Os pedaços sintéticos das emoções lacônicas: do dia lindo, dias D, dias de Dia, de solidão, de apelo: "diz que não".

"Dia lindo
Olhos negros
Cordilheira
Solidão
Dicionário
Desemprego
Desespero
Diz que não
Vaca preta
Carabina
Urubus
Cidadão"




Com quantos silêncios e sussurros se faz um Cidadão? Uma das faixas que mais gosto. Me engasga. Me dá vontade de chorar, ao mesmo tempo que me faz flutuar numa leveza entorpecente. O canto que responde essa canção não é a poesia dos versos curtos: é prosa. é narração. Não é "o" cidadão. é "Cidadão", assim sem artigo. Sem definição. Mas com descrição detalhada: esquizofrênico. "Às vezes lúcido, infeliz, conforme a luz, conforme o dia".  Como se veste, o que ouve, o que dança. A colcha de retalhos: rap-samba-rock, Dylan-Chico-JamesDean-BruceLee.


Cidadão ganha artigo indefinido no refrão, menos falado, menos em prosa, a conclusão do processo - aqui, onde eu lírico se posiciona diante da personagem narrada:

Meu bairro nunca foi igual ao bairro de nenhuma estória
E tem seu próprio carnaval, um cidadão nunca vai ser igual

Cidadão nunca vai ser igual. Não é pedido e nem questionamento. É conclusão. É o que temos pra hoje: "um cidadão nunca vai ser igual"







A cidade está cindida. Cidadão nunca vai ser igual a quê? A quem? As linhas do transporte público percorrem toda cidade, mas quem por ela anda? São Paulo é uma cidade acessível a todos? Essa imensidão de cidade, mal explorada por seus habitantes... A organização que puxou o primeiro de sete atos na grande São Paulo em junho de 2013 é o Movimento Passe Livre, que tem como objetivo maior de militância a Tarifa Zero nos transportes públicos, entendendo o direito de ir e vir como um direito social que deve ser garantido pelo Estado. Não. As pessoas que ali estavam não gritavam pela tarifa zero, mas pela pauta pontual de redução da tarifa que aumentara de R$3 para R$3,20. Os tais 20 centavos. 
Com a tarifa reduzida, muitos dos que se somaram à luta durante as manifestações que se alastraram pelo país olham agora para o projeto Tarifa Zero e pensam: "é impossível"... A questão muito bem colocada pelos militantes do movimento é que o transporte coletivo que seja de fato público possibilita com que as pessoas tenham de fato acesso à cidade em que moram, acesso a todos os outros direitos, sem o apartheid urbano, um lugar onde de fato os trabalhadores que constroem essa cidade, possam se movimentarem nela...  

Uma questão de poder e de se sentir pertencente a.

Samuel, por exemplo, nosso personagem da canção homônima que se segue.
Por que Samuel nunca foi ali? A crônica do menino da periferia desbravando pela primeira vez a cidade. 


Diz, Samuel como é que foi?
Por que cê nunca veio aqui?
Quem te prendeu, quem te impediu?
Qual o foi o muro que subiu?
Por que não atravessou
Nunca pro lado de cá
Ó lá o metrô
Já vai fechar... 







aqui é como se a gente virasse o disco. 
eu ao menos viro e volto num outro post para comentar 
a escuta das cinco canções restantes, além de indicar
leituras sobre o passo torto que agora é elétrico.