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terça-feira, 26 de agosto de 2014

duas rodas para a liberdade.

"nos dias de hoje
o príncipe encantado
chega de bicicleta"


Ele ficou todo ofendido porque eu disse que parecia que tinha 15 ou 16 anos. O mocinho, quase meu vizinho, que veio trazer a pé, do outro lado da rua, o galão d'água estufou o peito e disse que tinha quase dezoito!!! Antes dessa prosa a gente conversou um cado, enquanto ele me ajudava com o galão imenso. E qual não foi o assunto que não a ciclovia nova aqui do bairro? Ele é entregador, uai. E anda de bicicleta o dia todo. Era segunda e ele tava me contando como passou o domingo agoniado porque "como lá fica fechado no domingo, eu não faço nada...". 
E mais uma vez, como a ciclovia adiantou o rolê: "já vi muito entregador ser atropelado".

Sim, pessoas. É isso. Os escritórios chiquetosos de Higienópolis, ou mesmo os cults e arrumadinhos de Santa Cecília, ou mesmo nóis simprão, que dependemos de meninos como esse, pra entrega "rápida e ágil" daquilo que não podemos fazer porque o nosso tecido de vida está cada vez mais escasso... pois é! Essa demanda vem de Bike, meus caros.

Para quem até agora só viu o rolê da ciclovia como mais uma molecagem do Haddad ou coisa de classe média cult-eco-chata pare pra pensar nas pessoas que TRABALHAM de bicicleta. 

E aí me vem à mente imediatamente a cena que vejo cotidianamente do alto da janela do Brás: trabalhadores bolivianos e todas as etnias que a gente finge que não vê, que não sabe que existe, mas veste o que eles, praticamente feito escravos, produzem... esses mesmo! andando de bicicleta aos montes. Os trabalhadores do Brás. Ou, pra ser internacionalista, rs, lembro das imagens do clipe de Us and Them, nós e eles. Gente que zanza de um lado pro outro, em bando, atomizados em multidão. Seja passos, seja as rodas da bicicletas.



Ontem ia ter uma manifestação com uma monte de bicicleta solta por aí. Aliás, Minhocão, esse monstro bonito que a gente teve que aprender a amar, em domingos de sol com gente andando e invadindo a cidade noutro ritmo que não o dos motores... uma pena que as pessoas o queiram abaixo pra ver se quando você cair, você não cai em cima da gente que dorme debaixo de você e já leva isso tudo embora...

devaneios a parte, fico aqui com a lembrança gostosa do menino, de camiseta amarela, pequeno pequeno, se divertindo de Skate na ciclovia aqui do ladim de casa, bem na hora do rush, com aquele mundaréu de gente sozinha enfileirada dentro de carros.

Pra rua, molecada!



"Criança na ciclovia, indo para a/vindo da escola sozinha em pleno Viaduto do Chá. 
Não, vc não está delirando... "
Retirada foto e legenda da página do Facebook 
Movimento Ciclofaixa na Santa Cecília
Foto de ALINE OS


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

e além de tudo me deixou mudo um violão - (ou música serve pra isso)




Pensa então numa boa combinação de Beatles, Chico Buarque, Riachão, Os Mulheres Negras, São Paulo, um olhar adolescente, ruas, problemas familiares, força e delicadeza? Conseguiu vislumbrar o que poderia amalgamar tudo isso? Sim. Um violão. Escondido, esquecido e empoeirado. 








"E além de tudo me deixou mudo um violão (While My Guitar Gently Weeps) é um telefilme, lançado ano passado pela TV Cultura, na quarta edição do projeto da emissora que teve como tema "A Música na Cidade". Dirigido por Anna Muylaert (de "É Proibido Fumar"), o filme nos conta a história de Erica, filha d'A Rita. A adolescente mora com a mãe, numa relação difícil, em que uma fala inglês a outra responde em português. Situação explicitada já no começo do filme: a bolha da mãe na casa de amigos, bebendo e contando piadas sobre a rainha, na língua anglo-saxã. Para chamar a atenção da mãe, Erica se solta numa piscina. Assim será por todo o filme, a mãe se atenta para Erica, pralém do abismo de seu alcoolismo, quando percebe a filha se divertindo com a música alta, ou, pior ainda, quando ouve saindo do seu quarto o barulho de um violão.

Chico Buarque e Beatles estão nas entrelinhas, se costurando nas mais possíveis combinações entre um e outro. Erica encontra na lavanderia - sim, com o alcoolismo da mãe ela tem de cuidar de si, passando pelas compras de casa e feitura do almoço - empoeirado um violão com a inscrição "LovelyRita". E na cabeça de cada telespectador passa um filme próprio: imaginar o músico brasileiro, que toca violão, que gosta de Beatles e conhece uma garota de nome Rita. E inglesa. E adorável. Nome de música. Sabe? sabe sim... gente bota música em tudo - canção pra tudo - ainda mais no Brasil... e... sabe aquele sensação gostosa estar vivendo um trecho da canção que gosta? Vida-arte e vice versa? 
Quando a gente fica besta de ver passar num lugar cantado numa canção - digo por mim que toda vez que vejo a placa "Vila Ipojuca" meu coração dispara e minha cabeça Trovoa, graças ao Maurício Pereira.

Pouco comentado nas boas quando não protocolares críticas do filme é o fato da trilha sonora ser feita pel'Os Mulheres Negras: a terceira menor big band do mundo, formada por dois homens brancos, que fez música nos meados da década de 80 misturando equipamentos eletrônicos, guitarra, saxofone, letras irreverentes, diversos estilos músicas, bossa-nova-beatles, humor, piada, versões, escrachos e a percepção de que de tudo se faz música e de que não tem regra do que é, do que pode ou não. -
  "Profissão de fé d'Os Mulheres Negras: tudo é música boa e tudo é influência. E ponto final". - nas palavras de Maurício Pereira. 
Pra não ser perder no leque de conexões, "Lovely Rita" tá no álbum Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, revolucionário e inovador nas técnicas de gravação, experimentação - : 

"Em treze canções levam ao limite o conceito do rock, agregando orquestrações, instrumentos hindus, gravações tocadas ao revés e sons de animais. Rockmusic hallbaladasjazze até música oriental se mesclam em Sgt. Pepper."  - e viva a wikipedia.
parece que na gravação de Lovely Rita usaram até pente e papel pra produção de efeitos sonoros
Experimentações e misturas: Beatles
Experimentações e misturas: Os Mulheres Negras.


Música serve pra isso - nome de álbum d'Os Mulheres, de música e de filme. "E além de tudo me deixou mudo um violão" parece que é o par ficcional da canção que conta:


"Que o mundo é tão variado / Tanta exclamação que às vezes / Não se nota que é constante / Que uma banalidade / Gere uma canção gigante"

Voltando dos devaneios pra narrativa do filme, Erica se diverte com os amigos em Barueri ao som de Imbarueri, com Maurício Pereira dizendo:


  "Onde a felicidade amarra o sapato. 
Imbarueri é do lado do lugar comum."



Após o encontro com o violão- velho, quebrado, empoeirado "Lovely Rita", o pai de Erica a incentiva a tocar e é o Maurício Pereira quem interpreta o delicioso vendedor de instrumentos musicais de um loja da Teodoro. V O tema é música na cidade, lembra? A cidade é São Paulo. A rua não podia ser outra. A Teodoro. Com seus vendedores que são músicos, trabalhadores. Gente que sabe o que tá vendendo, pra quem, pra que. Gente que em muitos dos casos queria mesmo era ser consumidor das peças sofisticadas e caras. Músico. Maurício. Na memória afetiva de quem ouviu "Um dia útil", as fronteiras entre personagem e ator se mesclam. Não. Não sei  - e acho que não - se o Pereirão já foi vendedor em loja de música, mas músico, de ofício, de trabalho, de cuidado, isso sim - não tem dúvida não. 


"e amanhã é mais um grande dia/ um dia comum de muito trabalho/ um dia grande / que nem um diamante / um longo dia belo / um baita dia duro e lindo / eu ganho pra estar brilhante / num dia útil"



O professor de Erica é um amigo das antigas do pai, "aquele gordo", interpretado pelo outro Mulheres, é claro, André Abujamra. E ele dá aula onde? É ali. Numa travessa da Teodoro - de pequenas portas e anúncios.

E aí é que são elas... com toda essa música sugerida, o que Erica quer tocar?

"Cada Macaco No Seu Galho". A música que ela ouve, na versão de Gil e Caetano, no último volume no seu quarto, seu galho, seu espaço, enquanto dança, se solta, se sente, flutua. Pra temperar a mistura desse roteiro, a canção é de um sambista de 92 anos, vivinho da Silva, Riachão, mesmo compositor de "Vá Morar com o Diabo" - imortalizada na voz de Cássia Eller.

As cordas do violão azul de Erica ressoam as dores da mãe. A fúria d'A Rita deixa mudo seu violão. É a Gota D'Água. Ah... Lovely Rita. Dor. Choro. Berro. Gente pequena que fica grande. Comprar o vinho. Roubar o vinho, chorar. Aguentar as pontas. Segurar o rochão. Explodir a verdade. Viver.

recomeçar. 

É a voz de Erica quem dá a trilha da deliciosa tomada dela, subindo a Teodoro com violão nas costas, entre as cores dos muros, das pessoas e dos ônibus, bem são-paulo.

"eu queria aprender pra tocar pra minha mãe."

"é. qual que é?"

A versão d'Os Mulheres d'A Rita do Chico é o filme em canção.  O vazio, o estouro, o samba, os Beatles, a sutileza, a singularidade d'Os Mulheres, anjos guardiães dessa história, com música por toda parte, porque assim ela está. Mais que compositores da trilha, Os Mulheres Negras partilham da proposta do roteiro, do tema explicitado, tratando de algo que lhes é tão caro. a presença da música na banalidade, no corriqueiro, como também nos ditos grandes momentos. Os Mulheres Negras contemplando essa presença cantada ou sugerida de canção por toda parte, como parte da vida. Transpira. Na vida e/da cidade.




[em resumo:
assistam ao filme. é delicioso.
e se você não conhece Os Mulheres Negras, não sabe o que tá perdendo.]

segunda-feira, 22 de julho de 2013

resposta ao tempo.

Quando eu era pequena a Xuxa me contava que São Paulo era a terra da garoa. Não sabia o que era garoa, mas eu cantava aquilo com uma verdade... garoa rimava com gente boa "que gosta-de-trabalhar". Eu tenho mania de ficar colando os acontecimentos da vida, numa teia de sentidos nos quais cada passo do hoje é de fato um fruto de algo que o ontem plantou - consciente ou inconscientemente. No segundo caso, essas costuras feitas por tecelãs da roda da fortuna, ou simplesmente, pra os que creem assim, o dedo do acaso,  as escritas tortas de Deus.
A primeira grande piada pronta é que com o passar dos anos o verso "terra-da-garoa" virou a afirmação enfática: "eu nunca vou morar em são paulo!". Afirmação tão enfática quanto "não vou viver de música". Em março de 2013 - já que o mundo não acabou - cá estou em São Paulo pra cantar.
Mas parece que a vida costura e nos prepara sem que a gente saiba. Lembro de quando eu andei pela primeira vez ao lado do muro que cerca os trilhos da estação Barra Funda. Eu triste e cinzenta por dentro como sampã me figurava. Um amigo querido, de distâncias e acasos, me vinha fazer companhia numa chá de cadeira rodoviário. "Vamos nos ver! Preciso ir até a Barra Funda, me encontre lá!". O palmeirense me mostrava sem querer, indo comprar o ingresso para o clássico do domingo, a trilha que eu passaria a fazer cotidianamente anos mais tarde. Não há um só dia em que eu não lembre do sorriso dele/Deni e das nossas caminhadas ali.

Minha história com o metrô Sumaré é mais recente.

Ano passado eu e conheci Danilo Gusmão, finalmente. E no espaço de uma viagem de ônibus já éramos grandes amigos de vidas. Uma das muitas coisas em comum, além do amor da Caroline, era o frisson que a música independente paulistana causava nos nossos ouvidos. Fomos confabulando sobre o bate-papo de Romulo Fróes e Walter Garcia sobre o tal "fim da canção". Em Minas, a gente tocava na mesa de jantar "A música da mulher morta", do Passo Torto - e eu tinha achado outro doido como eu.
Danilo Gusmão é parideiro de canções e as canta com o Castanho Raso. E o Castanho Raso ia tocar finalmente em palco paulistano: "Isa, canta com a gente?". Dan queria que eu cantasse "Conexão" composição dele. A essa altura, convite aceito, eu estava na Pauliceia pra assistir na famosa Casa de Francisca, que invadia meu feed araraquarense de notícias, o show do Passo Torto, sim, em São Paulo, eu estava, de novo. Ganhei um abraço do Rômulo Fróes naquela noite antes do show. De cantadeira oculta de "No chão, no chão", ele me reconhecia de posts e fotos facebuquianas, eu, seguidora de cliques desses personagens do cancioneiro paulistano. Pós Passo Torto, lá estávamos na casa da Ju - casa que me receberia pelo meu primeiro mês paulistano, meses depois. Leo, Dan e eu fazendo o arranjo vocal pra Conexão. Noutra vinda Leo já tinha soltado "você precisa conhecer um trio de amigos meus... acho que é o som que você tá precisando fazer..."


Semana do show. Lá vou eu, de novo, mais uma vez em tão pouco tempo pra São Paulo. Dan marcou ensaio. "É perto do metrô, Isa". A gente desce então na linha verde as 8 da manhã com teclado, amplificador, prato e caixa de bateria e gente. muita gente. Na saída do trem tinha vidro e rosto de gente com letrinhas na cara. Nas escadarias que nos levavam a rua, eu via a cidade ao longe, o viaduto, a avenida movimentada e aquilo era poesia concreta demais pra não ser fotografada. Caminhamos dali pro estúdio.

"Isa, e se você fizesse a capella "Olhos da Cara" do Romulo?" - completava o convite, Danilo.
A voz de Dona Inah ecoava na minha cabeça. Rouca. Imponente. Exata. Emocionada.

Dois dias depois, o tal trio que o Leo havia falado "vocês têm um nome?" - "Ogã". Trio Ogã. "Mas o que que tá acontecendo?" - Paulinho queria saber. Aliás, Paulo, Felipe e Gian. Esses três nomes juntos já tinha dado rock por outras bandas. e bom rock.
Cantei. Me impolguei. Fiquei feliz. Me caguei de medo e pensei: "mas São Paulo é tão grande, é tanto concreto..."

Eu vim.
Meses depois, eu tô aqui. Pra ir ensaiar com o Trio Ogã, eu vou até o metrô Sumaré. de lá, Paraíso. Hoje voltamos do ensaio, eu e Felipinho. anjo da guarda. Essa rede bonita de gente que se conecta nessa costura doida do "acaso".

No meio do caminho ele me convida pro tal chorinho que rola de segunda-feira do lado da sua casa. já tinha ouvido falar já. Descemos então na nossa já conhecida e cheia de suor linha Sumaré. Passo em frente ao bar quase todo dia de ônibus. É vibe boa. Sempre tem gente interessante, pra quem vê da janelinha.

Um pastel. Prosa. Suco de Laranja. Cansaço. Outro pastel. Suco de laranja e uma hora esse choro começa.
O povo chorão começa a chegar e logo o Felipinho solta: "você precisa ver a dona Inah! Ela sempre vem aqui! Nossa! Ali ela! Acabou de chegar!"

Sim. A voz que ecoou e me ensinou a cantar a primeira música que eu fiz aqui nessa cidade, num fim de semana que mudou tudo e me trouxe pra cá entrava em corpo alma e simpatia pelo bar e parava diante da mesa que eu estava: Dona Inah!
"Essa é a Isa. Ela é cantora"
"Ah é? Que bom. Tem que fazer o que gosta. Vai em frente!"
Contei pra ela que cantei "Olhos da Cara" que ela tinha gravado com o Rômulo: "ele é doido!", ela disse.

Me segurei com a tietagem. Custo a aprender que é tudo gente como a gente e que é bem mais da hora olhar os olhos na mesma altura, feito truta e não ninguém de cima pra baixo. Sorri. Perguntei um gole da vida dela. E reparei na pequenininha. Mãos pequenas como as minhas. Eu tenho mãos pequenas como as dela. Reparei nos causos. Nos silêncios. "Leva ela lá na quarta!"

depois de mais alguns choros, a gente veio embora.
eu e o felipinho. ele me conta da primeira vez que fez um som com a dona Inah e que ela canta de quarta no ó do borogodó "vamos semana que vem?"
e caminhamos, fazendo planos das músicas que ainda vamos tocar.
e caminhando pompeia abaixo, eu sentia a tal garoa que a Xuxa cantava.
Garoa.
Caminhando em São Paulo.
Ali. "Cantora"
em casa.
com garoa na cara.
garoa e não a chuvinha de molhar bobo mineira. GA-RÔ-A.
aquele molhadinho no vento
um carinho da água no rosto.

garoa.
e sorria de costurar aquela noite numa meia dúzia de passos desses 25 anos de caminhada.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

terça-feira, 14 de maio de 2013

medianeras

amanheci em três pontas. minha cidade. lá do sul de minas. onde? qual? depende de quem é você. Posso dizer que é a cidade do Milton Nascimento. do Wagner Tiso. do Café. do Padre Vitor. - nosso preto velho católico, que agora é "venerável" porque a igrejacatólica tá fazendo ele virar no papel o santo que ele já é pro povo. em última instância posso dizer: do lado de Varginha... lembra? a cidade do ET.

amanheci lá. minha cidade. três pontas doida. pequena. 
lá eu moro numa casa grande e afastada do centro. antigamente era longe de tudo e tinha o céu mais bonito que já vi na vida. agora o loteamento chegou. tudo bem, com ele chegou o asfalto. mas também chegaram as luzes laranjas. o céu continua lindo. mas o laranja atrapalha um pouco.

a gente aluga a minha casa grande. sempre tem festa lá. antes tinha mais. um dia, quando a grana der, a gente para com isso. lá tem piscina. ela foi um acontecimento. lembro do caminhão pipa chegando, há muitos bons anos atrás... 

mal nado lá em casa. casa. nos últimos 10 meses, eu tive muitas casas distintas. a casa-do-tunico em araraquara. a chacrinha, lá também. Três Pontas. Santos. marília, a casa com o amor. em São Paulo eu tive um lar emprestado que mora em mim ainda. hoje eu moro aqui, na Rua Clélia "é... perto ali do sesc pompeia!"

estou me acostumando a ter UM lugar de novo, depois de tanta andança. Andança esse que serviu de álibi pro corpo parado. parado. parado. angústia de lar novo nessa selva de pedra: comida, comida, comida.

resultado: corpo mole, pesado, cabeça grande demais.


eu vivo cotidianamente o choque de estar em SãoPaulo. Essa loucura que é estar num lugar com muita gente, no qual pra ir e voltar de qualquer lugar minimamente perto, é como fazer o trajeto TrêsPontas-Varginha como se fosse ali. todahora. 
tem tudo acontecendo ao mesmo tempo-agora.
e estar parado aqui é quase um crime. que cometi muitas vezes nesses três primeiros meses.


hoje eu finalmente resolvi botar o maiô novo e ir visitar a piscina do sesc. vou nadar. me mexer. 
sempre tive muita dificuldade em costurar meu cotidiano com o tempo todo ao meu dispor. parece que fui programa pra seguir uma rotina de fora de mim. a autonomia com meu próprio tempo é um exercício trabalhoso para que eu consiga me construir sem me boicotar. 

hoje eu me lembrei de um dos pedaços de um filme que tanto gosto. 

Medianeras tem um subtítulo em português que dialogava bem com o que eu vivia quando o conheci: "Buenos Aires da Era do Amor Virtual". iniciando um romance a distância, eu sabia bem o que era amar através de uma tela. Não à toa, o filme que é bom por si só, também é uma espécie de amuleto desse relacionamento, recheado e costurado, como todos os outros do mundo, por trilhas sonoras, poemas, filmes, cheiros e sabores.

Mas desde que vim pra São Paulo a história de Martin e Mariana me persegue não pelo amor virtual os encontros e desencontros, de quem tem tanto em comum com alguém que ainda nem conhece direito. O que me persegue é a sensação da cidade grande. Não é Buenos Aires, mas é São Paulo. Um universo todo novo.

A cidade e suas estações. Seus prédios. O crescimento desordenado. O caos de fora. O caos dentro.

Um dos lugares do filme que visitei hoje foi a piscina grande, fechada num prédio, aquecida e cheia de gente.

Eu tinha uma piscina pra nadar ao ar livre, cheia de árvores por perto. Silêncio e Sol. 
Hoje eu parecia uma jacu do interior (parecia?) "como eu faço, chego lá e nado?".

O exame dermatológico é uma bobeira. Enfim, importante. Mas fica lá o japa estirado no sofa do ambulatório. Alguém chega e ele salta ofegante "trouxe traje de banho??" Me troco. Ele vem. Pergunta se tenho isso ou aquilo. Olha os pés e as mãos. E a nuca. E lá se foram 18reais.

Antes do salto, precisei de chave e toca.
ops... salto? 

"moça, é muito rasa a piscina! não pode mergulhar..." "nadar, pode?"

 "moça seus olhos não estão ardendo não??" - MUITO! 
"Toma esse óculos aqui e me devolve. Senão à noite não vai conseguir dormir..."

Na raia que eu nadava tinha um senhor. Logo ele se transformou num moço cheio de disposição. Eu saltei convicta sem nem me alongar - e meus músculos doem todos enquanto digito.
Eu entendi logo a dinâmica de dividir uma raia. Tentava manter um ritmo de forma a não trombar no moço cheio de disposição, mas meus músculos estavam dormindo havia muito tempo. A respiração parecia de fumante. 


Imensa a piscina. E na minha cabeça eu via Mariana, do Medianeras e tentava lembrar da dica que ele ganhara dividindo uma raia "é melhor bater mais a perna ou o braço?"  

não sei. não lembro como nada borboleta e nem peito.
reveso costas e crawl.

tanta gente.

"moço, primeiro dia: descobri também que deixei meus óculos no lugar errado: qual é o lugar certo?"

não enxergo. é o cloro e a miopia. é tanta gente. 
no vestiário mulheres de todas as cores, idades e tamanhos. 
uma menina me olha curiosa... eu logo penso "ela deve tá estranhando meu jeito todo perdido."
eu quero me achar, sorrio e digo: "oi!"
ela ri, sem graça.

diz o nome. pega carteirinha.



hoje eu me senti finalmente vivendo numa cidade grande.

é são paulo, cheguei.
cheguei, são paulo.
cheguei.