doismil-etreze foi/está sendo um ano confuso, com-fusão, que nem o amor do Baffô. de início de parto difícil, de defesa-show, de viver morte-dor-luto-metamorfoses de ex-enlaces, de dar passos largos com os pés do rebento. de ir viver na selva cinza. pedra. metrôs. com casa, com várias, sem casa por mais de uma vez. decepções. muitos sapos engolidos. muitos. quase muitas coisas. inclusive um que era pra ser quase, virou total e agora, na reta final, na hora do balanço do ano, pede tempo, respira, tropica, se confunde, se perde. - caminha.
dois-milÊtreze. lecionar, colecionar textos internos pra parir no mundo. ressuscitar aos poucos o sonho, a vontade e a utopia da escrita engavetada em algum semestre da faculdade, num ano que não era treze, eram seis. estudantes. aprendizes. aprender a ensinar. necessidade que urge de voltar a aprender. este foi o ano em que eu mais assisti à vida e me entretive com as pequenesas das coisas do cotidiano, uma dessas tiazonas de cidade do interior que vivem ali, gastando horas, na janela penduradas, só arreparando nas cores, nas coisas e nas contas das gentes. minha janela é virtual - nem por isso menos futriqueira e esvaziante.
tá certo. tá certo. não é assim também. dois mil e treze. quase sem reza em templo. as pedras e ruínas do templo de dentro. casos de acasos mais ou menos marcados e muitas cartas de tarô.
trio. amigos. o morto mais vivo dos últimos anos fazendo cem anos. minha companhia. dele eu falei e cantei tanto. - e ai, como é estranha a sensação de ainda assim não ter falado tanto, quanto e como eu sinto pulsar dentro.
esse ano eu saí da academia. não queria tirar ela de mim, mas precisava. a gente mal se dá conta de como essas coisas viram a gente, prendem, dão suporte e são muletas das quais precisamos nos separar, mas que nos momentos de fraqueza sentimos muita saudade.
lá dentro por tantos anos e agora, aqui fora. me disseram muito do lado de cá. e quantas tardes, manhãs, madrugadas e noites não gastamos cuidando do mundo, sem descuido no plano das ideias, utopias, vontades e análises, interpretações e diagnósticos. de um lugar confortável, inebri-apaixo-nante, edificávamos vontades. quantos plurais. é que vejo por aí meus amigos. os que vejo e os que imagino. e sinto que cada um tem sem tempo de firmar os pés e se achar no mundo depois que saiu de lá.
treze. Dois MIL!! pois[é. ano de extremos. do parto de uma dissertação tão grande que conta-se nos dedos da mão direita - graças ao Max, agora também já na da mão esquerda, quem a leu inteira, à sensação de atrofiamento da curiosidade e disciplina estudantil-pesquisadora. citações, borrões, teses, artigos. eu me embreaguei de poesia e brisei.
criei um blog. o ponta-pé foi uma crônica que nunca repostei aqui, parida pós show do Paul. as brisas da isa.
visto um filme e um texto dentro da cabeça. aquela canção. aquela treta. aquela viagem. blog criado com a promessa de não ser túmulo das minhas ideias. e eis eu aqui: abri essa página em branco pra tentar me redimir escrevendo sobre biografias autorizadas ou não e dois filmes sobre Legião e até agora não saí do "meu querido diário - versão retrospectiva".
que será que o facebook teria marcado de retrospectiva? eu hesitei, evitei e não cliquei no link. eu saí do livro da cara algumas vezes esse ano. uma até registrada aqui. minha janela de tiazona me arrumou trabalhos, me conectou a pessoas incríveis e estreitou laços. mas potencializou minha mania besta de falação, observação e exagero na importância do olhar do outro para/sobre mim.
os brilhos do palco. esse ano eu me rendi à música - e sinto que ela esperava mais de mim. de todo modo, como deu, estudei canto e conheci um ser de luz divertido, engraçado e rouxinol- que me mostrou que é só não temer. ririri que gosta de inverter o nome, sem perder o orgulho de ser maria, foi curandeira, amiga, irmã, mestre, bruxa, terapeuta e nem deve ter tanta dimensão assim.
não é à toa que chamam de SOPRO de vida. o ar, último dos elementos que nos fez gente. pós a terra e a água, misturadas no barro que se moldou e se firmou no calor do fogo, os movimentos e as palavras foram criados e guiados pelo ar. sopro. respirar, me mover, encarar minha hesitação em fazê-lo, observar a sensação ao me preparar para o canto foi qualquer coisa de maravilhoso. e tão óbvio e evidente.
mas o palco é sobrecarga de emoções e responsabilidades pra quem o vê assim. além de todos os além que me fogem agora que me repreendi em pleno desencontro entre pensamento e dedos que digitam.
me publicaram em 2013. um amigo que nunca vi até chorou por saber que é alguém por quem tenho respeito. meus amigos viraram e virarão livros. eu fiquei rabiscando palavras e apertando enter = chamaram de poema.
em dois mil e-tese eu fui júri, oficineira, educadora. fui e estou desempregada. freelancer. classe média, ah, bê, cê dê-ocarai. with a little help from my parents.
em 13 dos mais mil-dois, eu não entendi; eu tive medo. eu escolhi nome pra filhos. eu falei como há muito não falava de mim. narcisa. insegura. eu criei mundos meus. eu saí pra tomar chuva. pra dançar. eu arrisquei. eu errei. eu menti. "pra si mesmo é sempre a pior mentira".
eu juntei laços. eu não tinha dimensão da potência do que posso ser diante do que escolhi caminhar.
dois ou mil ou treze, rés, real, viés.
sarau, homenagem, show, teatro, barroso, moraes, ogãs, arrastão. descobri a força do poder do 7. parecia um 7 de paus do mitológico. há 7s bem treze.
negatividades criadas.
desimportâncias criadas.
mas ainda assim. suja de lama. cansada dos tropeços. marca pelos corpos. eu prossigo. 2013 eu apertei a mão de um Negro e disse venha comigo e repito. eu aprendi a dizer "sou cantora". - admito que essa palavra ainda demanda tanto mais cuidado e carinho do que há agora. sem mais nem medo.
ano que vem cantora rimará com professora.
insegurança vai rimar com enfrentamento e altivez.
humildade. verdade.
2014 eu queria ver mesmo esse blog cumprir sua missão: não quer ser túmulo das minhas ideias. quero brincar com os lápis aquarela da vida, jogar água pra espalhar, fazer novos contornos, croquis do sonho e dos planos.
reafirmo minha paixão e vontade pelo Projeto e grito.
sinto sono.
perdi o fim da meada.
brisei.
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
teu fogo, anna.
Ana me chamou pra ir ver o que tinha do outro lado do escuro, além da sombra. Ana não tinha medo de quase nada. como quem pega o cigarro e sai do bar pra alguns tragos, Ana sumia no mundo. Ana me fez o convite, já sabendo que eu não daria conta e duvidou de mim da primeira vez que me viu. ainda assim ali, lá. nós. os olhos esbugalhados. Ana só tinha medo de ser desvendada. de resto, gastava horas construindo linhas, edificando palavras e traduzindo rostos pintados.
ana sumiu.
anna me cortou. assim. inteira. o som da voz de anna me invadia e devagar eu já ia virando anna. mas anna se dava como quem se preserva. rodeada de ninguém, anna se deu em folhas e eu fui distribuindo annas.
não tinha compasso certo. a gente dançava no ziguezaguear da calçada. pulando na descida da rua nova, de frente pro templo daquilo que vale, eu me entregava numa pirueta e virava estrela. ana desconsertada, sorria com o canto no lábio, me olhava debaixo pra cima.
hoje rezei pra ana. abri-lhe as pernas, beijei-lhe o sexo. quis que ela se achasse em si. as cartas sobre o pano rosa. a vela sem castiçal. [anna me cria desimportâncias]. passo as tardes bobas e adolescente pensando nas bobagens de ana, na liberdade de anna, na ousadia dos seios livres debaixo da camiseta. os cabelos crespos. os cabelos vermelhos de anna. trovoa.
um gole de cachaça em plena lapa. ana me fotografou no flagra. não tinha unhas coloridas, mas reclamava. ana se entristeceu com o cigarro que a grávida fumaça. dei um pouco de anna por ali. rasguei nossas páginas e pintei os lábios. tatuei os poemas. nos espalhamos por aí.
ana cortou o cabelo, mas deixou o bigode. voltando pra casa de metrô, zombaram do suvaco de ana. cabelos, pelos, merda - ela pensou. anna se esfregou nas costas da mulher maldosa, esfregava suas pragas de silêncio contra seu corpo que espera o macha alfa. ana a nocauteou com o olhar surpreso de busca. achou a si.
mandavam ana tomar no cu e ir se fuder. feliz feito pinto no lixo, ana me levou pra andar de bicicleta. ela e o hyldon. ana xinga no trânsito "ó a faixa de pedestre, querido". - mal se recupera do "vai se fuder, vadia", vem o pedestre defendido ofendendo "ô delícia".
anna é vermelha. gosta de lua e quebra os dedos. ana sai pra passear na feira dos sonhos e vira joão. joanna. juana me pega pela mão, me solta no meio do mar bravio. tenho ressaca de paixão, ana.
ana foi embora e me deixou contemplando a cor da sombra, a textura do suor. ana me deixou rouca. nessa viagem toda de me mostrar os percalços, as calçadas, os buracos, a altura do céu, a espessura do verso, a profundeza do corte, a nudez do poema, a projeção da escrita, a fumaça da pose, a pose da fumaça. nessa maresia toda, anna me vomitou de volta na beira do poço, e eu que não sei me segurar, caí, lá dentro, fundo, no fundo do poço.
olho pro alto vejo os olhos de anna seguindo rumo ao incêndio do memorial.
anna, hoje eu queimei o arroz. ana, hoje eu quase botei fogo nesse apartamento. queimada a vela, ana, queimado o pano, finda a ressaca, ana, por onde começo a catar os cacos?
ana sumiu.
anna me cortou. assim. inteira. o som da voz de anna me invadia e devagar eu já ia virando anna. mas anna se dava como quem se preserva. rodeada de ninguém, anna se deu em folhas e eu fui distribuindo annas.
não tinha compasso certo. a gente dançava no ziguezaguear da calçada. pulando na descida da rua nova, de frente pro templo daquilo que vale, eu me entregava numa pirueta e virava estrela. ana desconsertada, sorria com o canto no lábio, me olhava debaixo pra cima.
hoje rezei pra ana. abri-lhe as pernas, beijei-lhe o sexo. quis que ela se achasse em si. as cartas sobre o pano rosa. a vela sem castiçal. [anna me cria desimportâncias]. passo as tardes bobas e adolescente pensando nas bobagens de ana, na liberdade de anna, na ousadia dos seios livres debaixo da camiseta. os cabelos crespos. os cabelos vermelhos de anna. trovoa.
um gole de cachaça em plena lapa. ana me fotografou no flagra. não tinha unhas coloridas, mas reclamava. ana se entristeceu com o cigarro que a grávida fumaça. dei um pouco de anna por ali. rasguei nossas páginas e pintei os lábios. tatuei os poemas. nos espalhamos por aí.
ana cortou o cabelo, mas deixou o bigode. voltando pra casa de metrô, zombaram do suvaco de ana. cabelos, pelos, merda - ela pensou. anna se esfregou nas costas da mulher maldosa, esfregava suas pragas de silêncio contra seu corpo que espera o macha alfa. ana a nocauteou com o olhar surpreso de busca. achou a si.
mandavam ana tomar no cu e ir se fuder. feliz feito pinto no lixo, ana me levou pra andar de bicicleta. ela e o hyldon. ana xinga no trânsito "ó a faixa de pedestre, querido". - mal se recupera do "vai se fuder, vadia", vem o pedestre defendido ofendendo "ô delícia".anna é vermelha. gosta de lua e quebra os dedos. ana sai pra passear na feira dos sonhos e vira joão. joanna. juana me pega pela mão, me solta no meio do mar bravio. tenho ressaca de paixão, ana.
ana foi embora e me deixou contemplando a cor da sombra, a textura do suor. ana me deixou rouca. nessa viagem toda de me mostrar os percalços, as calçadas, os buracos, a altura do céu, a espessura do verso, a profundeza do corte, a nudez do poema, a projeção da escrita, a fumaça da pose, a pose da fumaça. nessa maresia toda, anna me vomitou de volta na beira do poço, e eu que não sei me segurar, caí, lá dentro, fundo, no fundo do poço.
olho pro alto vejo os olhos de anna seguindo rumo ao incêndio do memorial.
anna, hoje eu queimei o arroz. ana, hoje eu quase botei fogo nesse apartamento. queimada a vela, ana, queimado o pano, finda a ressaca, ana, por onde começo a catar os cacos?
domingo, 24 de novembro de 2013
são passos.
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| Foto Clandestina |
Já habitante da pauliceia, eu fui caminhando da (já) saudosa rua Clélia até a Serralheria ali na Guaicurus. A Serralheria é um terreiro. Um terreiro numa sexta-feira a noite. O palco pequeno, o público entre sentado e em pé. Mas estávamos próximos, público e artistas. Com alguns meses de lançamento apenas, o show do álbum "Passo Elétrico" ainda tinha gosto de estreia. O disco se confundiu com junho, com as ruas cheias, em choque, em transe. O show em ciclo abria e fechava em barulho, dissonância. "Passarinho esquisito" abriu para "Um homem só" e sua bonita solidão, compartilhada com as mulheres, "Isaurinha", na crônica recheada de malícia nos sussurros de Rodrigo, entre Belém, Natal, Portugal, com vergonha do amor e "Helena", nas confissões da cidade que é um rádio por dentro, de prédios que têm varizes, bronquite e que também morrem. Na retomada do álbum anterior a música que de fato é uma linha de continuidade entre um álbum e outro: "A música da mulher morta" - com direito a piadinhas de música de sucesso... o show fluiu entre a belíssima "Tempestade" de Fróes e Cabral que, dessa vez, além de ter um encarte só pra si, dava o gosto de sua voz. Do disco antigo "Da vila guilherme até o imirim" tentamos puxar um coro, Rômulo até deu a deixa..., "Sem Título, Sem Amor", assim como "A música da mulher morta", era canção que ligava um álbum noutro, a proposta da ironia, da frieza, do escárnio, da frieza, da estranheza da existência torta e cinza, que atinge seu ápice no sambão de cavaco e violão, Bis do espetáculo, "Rá rá rá":
De lhe dizer atrocidades
Mas essa é a minha maior qualidade
Deixa eu gozar
Enquanto eu morro
De tanto rir
Rá rá rá
e "Cidadão" (uma das canções mais bonitas, na minha humilde opinião.)
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| Foto de Alessandra Cabral |
Escorrendo contradições, por suas paredes e vidros, o evento que ali acontecia era o Conexão SP (e acontece ainda enquanto escrevo), patrocinado por operadora de celular. O apresentador se gabava ao nos lembrar de que estávamos no Centro. E de fato, estávamos e tudo de graça. Mas os muros de Samuel são construídos dentro - é "Samuel" apareceu no teatro nas vozes de Kiko e Rodrigo. O evento divulgado na internet solicitava que imprimíssemos os ingressos - gratuitos. Seguranças imponentes - simpáticos também, devo dizer que sorri muito pra linda negra que se chateava por ter que me revistar a cada entrada e saída - eram o aviso: aqui não entra qualquer um. "Diz Samuel, que que cê pensou?"
Atrasos. Eu pensei que não veria o quarteto, já que cheguei pralá do anunciado - mas, como sou besta! festival: atrasos. Mais de horas. Entramos no teatro e então a pergunta "Gente, já pode começar?"
A sala de concerto é invadida pelos barulhos de "Passarinho esquisito". E o show vai. Muita luz, pouca luz, luz que não dialogava. Diálogo em mímica com a mesa: festival, som nunca nos eixos de -cara "abaixa aumenta" dedo apontado pra Marcelo - de fato baixo, baixo. Ao longo do show, entre uma canção e outra, as falas diretas com a mesa.
- mas pro público, os dizeres das canções. apenas.
Há quem desqualifique por aí a chamada música barulhenta. Mas por mais que eu quisesse um show do Passo Torto em pé, dançante - eu não me aguentava nas cadeiras e liguei o foda-se cantando todas as letras que sabia! - faz sentido que aquele show aconteça ali, sentados, assistindo. São barulhos em texto e contexto, com sentido, com tempo e razão de ser, cada um dos detalhes. E quem conhece as canções - sim, CANÇÕES - espera por aquele riffie naquela hora e os cantarola junto. - Exige-se concentração. E estarem à vontade, com som, retorno e público.
Era o festival. Com shows acontecendo simultaneamente. A contradição do show e do lugar: as pessoas se movem. Levantam. Deixam o lugar, o show: "Não pode sair durante o show pessoal", Marcelo disse antes de começarem justamente "Samuel". Aplaudidos logo na introdução e ovacionados no fim. "Viu? Quem saiu perdeu", dizia Kiko.
Mas eu, euzinha aqui, senti falta do estarem em casa como no terreiro da francisca ou da serralheria. Pra gente não teve nenhum mísero "boa noite" - tudo bem, vai. o clima do show. mas um boa-noitezinho?
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| Foto de Alessandra Cabral |
eta menina de sorte de ouvir essas coisa assim novinha.
passo torto ao deus dará dos Cidadão Esquizofrênico ali bem perto, no Centro. tão perto e tão longe da música enformada da dor encarnada de existir na contraditória são paulo. são palcos. são passos.
ps.: e é claro que eu sambei "Rarará", de pé e sem pudor em pleno teatro. que agora não regulo mais mixaria.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
da maior importância
vá embora, vá.
sentamos então nas banquetas das memórias. enquanto falava dos rancores que nos perseguem, havia o interdito de estarmos ali - fantasmas de um mundo que não veio, numa festa de um futuro tosco, que nos amedronta.
me mostrava os prédios antigos como quem quisesse tocar um rosto, se ver novamente no papel, nos pequenos e certeiros traços que a academia aprisionou e condenou ao esquecimento.
Ressentidos: um vendendo os pecados, o outro comercializando sua descrença.
Depois das viagens astrais, aurais, resta o estar condensados, tateando sentidos.
na calada da noite fria, houve o momento do silêncio que grita. o álibi das mãos eram o olhos que encantados distribuíam levezas.
Foram atropelados no meio da rua deserta. cada qual com uma versão diferente:
- foi a pressa do teu passo
- foi o balanço das tuas mãos, das tuas ancas
- foram as luzes do caminhão.
Acordados, de olhos fechados. hipnotizados de olhos abertos. nada do que se dissesse poria fim à agonia. nem remediaria os hematomas dos tombos.
num só golpe, foi feita então a oferenda: borramos o mapa com percalço, procuras, com guache, com suor. ríamos. e entre nós a distância incontida do retorno. a lógica eram os borrões de tinta num quadro de cores primárias meio pollock, meio jazz.
me cansei do abstrato concreto e engoli você, então. sua confusão, mastiguei sua falta de sentido pras coisas. engolia a sua letra maiúscula de Moça, seu adeus-até logo, sua ironia, acidez - sua carência inconfessável e infame.
Afinal de conta éramos os mesmos ali. enfeitiçados e enlaçados por pontos distantes das mãos. um, morto de certeza. outro, doente de dúvida.
- engulo eu. vomita você.
zonzo, enauseado, você se aproxima. vomita minha desconfiança, minha insatisfação, meu ciúme, meu ego. vomita minha cara de tacho, minha farsa, meus trocados.
Fagocitados pelo vazio, nos despedimos em silêncio. Num encruzilhada, como havia de ser.
misturados. atônitos. comovidos de indiferença.
baixada a poeira escondida/arrastada pelo vento, debaixo do tapete do tempo
reafirmo meus passos e minha fé
ao responder as perguntas
que você não me fez.
Quem ouve sua voz
Diante dessa voz
Parada entre nós
Reconhece
O som
Permanece
Som
Afogado
Antes de virar
Felicidade
Prende todo o ar
Quem pega sua mão
Nos dedos dessa mão
Mergulha o coração
Condenado
Ao céu
Mais nublado
Põe
Assombrado
Frente ao azul
O mais azul
Azul de um céu imenso
Cadê você
Pra me levar
Cadê você
Pra mergulhar
Na areia, na manhã
Os pés e as mãos
No lado escuro
Do meu coração
E quando meu cansaço
Cair de cansaço
Daí vou saber
Se era mesmo
Você
Se era tarde
Ou
Tempestade
Que passou sem ver
Sem nem dizer
Se ainda vai voltar
Diante dessa voz
Parada entre nós
Reconhece
O som
Permanece
Som
Afogado
Antes de virar
Felicidade
Prende todo o ar
Quem pega sua mão
Nos dedos dessa mão
Mergulha o coração
Condenado
Ao céu
Mais nublado
Põe
Assombrado
Frente ao azul
O mais azul
Azul de um céu imenso
Cadê você
Pra me levar
Cadê você
Pra mergulhar
Na areia, na manhã
Os pés e as mãos
No lado escuro
Do meu coração
E quando meu cansaço
Cair de cansaço
Daí vou saber
Se era mesmo
Você
Se era tarde
Ou
Tempestade
Que passou sem ver
Sem nem dizer
Se ainda vai voltar
(Tempestade, Passo Torto)
terça-feira, 5 de novembro de 2013
só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão.
cada vez que estamos à beira do fogo, transformando a matéria com a força de seu calor. Ver o talo virar caldo, remédio que cura. Ver o cru virar cozido. O caldo virar doce. A folha virar xarope.
cada vez em que nos encontramos e falamos da vida, partilhamos nosso suor e sentimentos.
cada vez que o vermelho nos escorre. seja em dor. seja em negação. seja em aprendizado. seja em dúvida.
o arquétipo de mulheres que se sabiam parte do mundo. da natureza. que com sua colher de pau curavam e operavam milagres.
cada vez que uma segura a mão da outra pra hora do parto.
cada vez que o sexto sentido grita e acerta.
- mas dizem que a gente não pode.
dizem que a gente que é louca.
dizem que a gente nasceu pra cuidar. que a gente não é dona da gente.
[estão no mesmo meridiano do corpo o ponto da sexualidade e da esquizofrenia.]
estamos dentro. fora. adiante. e aqui é dentro. é fecundo. é fundo.
é água.
mas também é fora, é ação, é sol. é leve.
e infinitas. como o grande tempo. no grande espaço de sermos todos um conectados.
ressuscitai o espírito do poder do feminino e celebrai seu vermelho.
ou ao menos, o mínimo, que não percamos a dignidade nesse mundo cheio de dor, preconceitos, medos, injustiças.
cada vez em que nos encontramos e falamos da vida, partilhamos nosso suor e sentimentos.
cada vez que o vermelho nos escorre. seja em dor. seja em negação. seja em aprendizado. seja em dúvida.
o arquétipo de mulheres que se sabiam parte do mundo. da natureza. que com sua colher de pau curavam e operavam milagres.
cada vez que uma segura a mão da outra pra hora do parto.
cada vez que o sexto sentido grita e acerta.
- mas dizem que a gente não pode.
dizem que a gente que é louca.
dizem que a gente nasceu pra cuidar. que a gente não é dona da gente.
[estão no mesmo meridiano do corpo o ponto da sexualidade e da esquizofrenia.]
estamos dentro. fora. adiante. e aqui é dentro. é fecundo. é fundo.
é água.
mas também é fora, é ação, é sol. é leve.
e infinitas. como o grande tempo. no grande espaço de sermos todos um conectados.
ressuscitai o espírito do poder do feminino e celebrai seu vermelho.
ou ao menos, o mínimo, que não percamos a dignidade nesse mundo cheio de dor, preconceitos, medos, injustiças.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
"de mãos dadas"
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
gozada essa vida. minha mãe sempre gostou de dizer que eu tenho "sanguinho che guevara" - o que ela ainda pensa principalmente quando surta em casa quando vê meus posts sobre manifestações e afins. desde miúda eu escuto essa frase (tá. desde mais miúda ainda). eu me lembro bem. estava na 6ª série de um dos colégios mais conservadores da cidade. aliada a outro aquariano e um monte de amigos, a gente tava disposto a ressuscitar o Grêmio da escola. pra isso, eu criei uma plataforma dos meus sonhos. eu era a "vice" da chapa. o presidente, em pleno colegial-ensino médio, tava assinando embaixo qualquer coisa que eu pusesse ali. coitado. por minha causa ele sofreu acusações seríssimas em plena sala de aula. professoras dizendo que ele tava mexendo onde não podia. - é que eu, desavisadamente avoante que era/sou?, propunha uma nova forma de se pensar a estrutura da escola. eu propunha aquilo pelo qual a USP/UNESPs da vida viriam a fazer um mundo de greve, sem nem ter ideia do que isso era e sua periculosidade: PARIDADE. Paridade entre pais, professores, funcionários. meu projeto se chamava "de mãos dadas". é. eu ainda não fazia ideia do "Sentimento do Mundo" do Drummond.
e, evidentemente, não ressuscitamos grêmio algum. muito menos as pessoas se deram as mãos. anos mais tarde eu sairia pela porta dos fundos da mesma escola por conversar sobre como cada vez mais o ensino público alfabetizava menos... (e voltaria com o rabo entre as pernas, disposta a passar no vestibular logo).
e por que tô dizendo tudo isso?
porque hoje acordei com "mãos dadas" na cabeça e no coração. e as pessoas postaram. e comentaram. e toda vez que falo essas duas palavras juntas eu lembro da minha treta de 12 anos de idade.
Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
terça-feira, 8 de outubro de 2013
pensa num cara... de 100 anos.
Imagina uma pessoa que nasceu em 1913. A família da mãe adorava uma seresta. A própria mãe tocava piano. Os tios viviam "vadiando". O pai era chegado nos versos. Foi estudar em colégio rigoroso. Imaginem que o menino respirou ares integralistas na universidade ao mesmo tempo em que cantava marchinhas inéditas no Carnaval. - as mesmas que hoje em dia a gente repete nostálgico de um passado que a gente nem viveu.
Não era muito difícil entender que o menino resolvera fazer Direito - um dos cursos mais frequentes dos poucos do começo do século passado. Ele tinha sua turma de amigos e gostava de cinema e conversava com os amigos sobre. - queria ser cineasta.
Mas desde cedo roubava os versos do seu pai pra dar pras namoradinhas - é gostava de mulher e como! E então publicou seu primeiro livro de poesia antes mesmo de se formar. Só com 20 anos.
E foi aplaudido. A comunidade católica gostou - afinal menino fora formado em seu ambiente.
Menino lança outro livro e tal e coisa e arranja uma bolsa pra estudar literatura em Oxford. Acho que foi de tanto ler os sonetos de Shakespeare no original que ele desembestou a fazer os mais belos sonetos que a língua portuguesa conhecera desde Camões. Um soneto a la ingleses e não como era a moda francesa aqui no Brasil.
O menino era libriano. Doido. Casou por procuração acredita?
de volta ao Brasil precisava começar a trabalhar, moço de família. E o convencem ao tal do concurso público (pouco mudou de lá pra cá). E na época se passava no Itamaraty por concurso. E passou. E seu primeiro posto foi nada mais nada menos que nos EUA. Um doce nas mãos da criança. O fanático por cinema ficou pertinho, pertinho de Orson Welles e de Hollywood.
O menino, que agora já era um homem de família com filha e tudo mais, ouvia Jazz. Foi conhecendo a turma que fazia aquele barulho maluco, filho do blues. Imagina então um cara que testemunhou de perto o racismo norte-americano? bem diferente do nosso? Viu um menino negro ser morto porque assoviara pra uma mulher branca. Soube da história de uma cantora negra que morreu porque não a receberam no hospital de brancos pós acidente de carro.
Um homem que viu a II Guerra começar e assombrar o mundo. Escrever crônicas sobre o desejo de paz, mesmo tendo aprendido com o livro do Eclesiastes que existe "tempo de guerra, e tempo de paz".
Imagine um homem que precisou viajar com um gringo pelo Brasil a fora para cair em si de que o seu país era um lugar repleto de contradições e deixar de andar à direita integralista para dar passos mais avermelhados à esquerda.
Imagine então um homem que vai pra França e lá encontra um cara maluco pra produzir alguma coisa de cultura brasileira. E aí esse homem se lembra de uma noite em que ouviu a batucada vinda do morro e baixou nele a vontade de transpor o mito de Orfeu pro morro carioca? O amigo ficou maluco e fala pro homem: poxa, bora filmar isso! e aproveita pra montar essa peça de teatro no seu país, uai!
O cara então um poeta respeitável, diplomata ainda por cima, comete a ousadia imensa de levar pros palcos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro um elenco de atores negros. E ali era só o começo da ousadia. - da qual sai endividado. O homem lembrou do menino que sempre gostou muito de música. E já que a peça era sobre um músico, por que não escrever os versos também a serem cantados? E por que não arrumar um parceiro pra musicar?
O homem então - que já era poeta, cronista, crítico de cinema, diplomata - vira definitivamente um compositor popular. Poesia e Música: Orfeu.
E aí então seus versos ganham os versos mas também os palcos. Ele vai brigando com o terno e a gravata e cantando...O homem então repleto de amigos faz música com gente viva, gente morta - nem Bach escapou. Faz música até sem saber que faz: musicam ele. O menino criado cristão agora era homem que canta orixás.
A essa altura o homem perde o emprego. Vira showman de vez. A essa altura o cara já casou um monte de vezes. A essa altura botaram o nome dele na reinvenção da música popular. A essa altura já tão falando mal dele: era um baita poeta e agora fica aí fazendo musiquinha com esse menino novo.
Muda pra Bahia. Fica mais chegado ao povo de Santo.
Imagina só um homem que fica falando por aí que é o branco mais preto do país.
Pensa num cara que casa nove vezes e não para de escrever nem canção e nem poesia - e que se morria de medo de avião.
Agora imagina ele sessentão Todo de jeans e bata? cantando em universidades e lendo um poema seu pros operários paulistas em pleno Primeiro de Maio?
Imagina um cara que não esquece sua veia católica e subverte A Arca de Noé pros pequenos, entre versos e canções?
Pensa num cara que tinha a casa aberta? Um brother mesmo... que viva cheio de amigos e sempre sentindo saudade deles... morrendo junto a cada vez que um morria.
Imagina um cara que morreu num dos seus lugares preferidos: a banheira - lugar em que gostava de escrever...
pensa só.
Agora pensa que tem músicas suas sendo cantadas num monte de lugar do mundo: por todos os continentes. Pensa que ele, que tinha um apreço formal a ponto de subverter as formas mais clássicas da poesia, é muito mal quisto nas universidades do seu país. "Poeta menor. Pequeno".
Poetinha. - camarada - que foi homenageado ainda em vida pelos seus.
De que vale seus sonetos serem recitados a torto e a direito e suas canções? Pensa numa dificuldade tremenda de achar bons textos por aí que falem dele? Pensa que no ano de seu centenário há vários programas de rádio contando sua história...
penso que no ano em que ele faz cem anos, se pá faz tanto frio em São Paulo quanto fazia na fria madrugada em que ele nasceu.
Não era muito difícil entender que o menino resolvera fazer Direito - um dos cursos mais frequentes dos poucos do começo do século passado. Ele tinha sua turma de amigos e gostava de cinema e conversava com os amigos sobre. - queria ser cineasta.
Mas desde cedo roubava os versos do seu pai pra dar pras namoradinhas - é gostava de mulher e como! E então publicou seu primeiro livro de poesia antes mesmo de se formar. Só com 20 anos.
E foi aplaudido. A comunidade católica gostou - afinal menino fora formado em seu ambiente.
Menino lança outro livro e tal e coisa e arranja uma bolsa pra estudar literatura em Oxford. Acho que foi de tanto ler os sonetos de Shakespeare no original que ele desembestou a fazer os mais belos sonetos que a língua portuguesa conhecera desde Camões. Um soneto a la ingleses e não como era a moda francesa aqui no Brasil.
O menino era libriano. Doido. Casou por procuração acredita?
de volta ao Brasil precisava começar a trabalhar, moço de família. E o convencem ao tal do concurso público (pouco mudou de lá pra cá). E na época se passava no Itamaraty por concurso. E passou. E seu primeiro posto foi nada mais nada menos que nos EUA. Um doce nas mãos da criança. O fanático por cinema ficou pertinho, pertinho de Orson Welles e de Hollywood.
O menino, que agora já era um homem de família com filha e tudo mais, ouvia Jazz. Foi conhecendo a turma que fazia aquele barulho maluco, filho do blues. Imagina então um cara que testemunhou de perto o racismo norte-americano? bem diferente do nosso? Viu um menino negro ser morto porque assoviara pra uma mulher branca. Soube da história de uma cantora negra que morreu porque não a receberam no hospital de brancos pós acidente de carro.
Um homem que viu a II Guerra começar e assombrar o mundo. Escrever crônicas sobre o desejo de paz, mesmo tendo aprendido com o livro do Eclesiastes que existe "tempo de guerra, e tempo de paz".
Imagine um homem que precisou viajar com um gringo pelo Brasil a fora para cair em si de que o seu país era um lugar repleto de contradições e deixar de andar à direita integralista para dar passos mais avermelhados à esquerda.
Imagine então um homem que vai pra França e lá encontra um cara maluco pra produzir alguma coisa de cultura brasileira. E aí esse homem se lembra de uma noite em que ouviu a batucada vinda do morro e baixou nele a vontade de transpor o mito de Orfeu pro morro carioca? O amigo ficou maluco e fala pro homem: poxa, bora filmar isso! e aproveita pra montar essa peça de teatro no seu país, uai!
O cara então um poeta respeitável, diplomata ainda por cima, comete a ousadia imensa de levar pros palcos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro um elenco de atores negros. E ali era só o começo da ousadia. - da qual sai endividado. O homem lembrou do menino que sempre gostou muito de música. E já que a peça era sobre um músico, por que não escrever os versos também a serem cantados? E por que não arrumar um parceiro pra musicar?
O homem então - que já era poeta, cronista, crítico de cinema, diplomata - vira definitivamente um compositor popular. Poesia e Música: Orfeu.
E aí então seus versos ganham os versos mas também os palcos. Ele vai brigando com o terno e a gravata e cantando...O homem então repleto de amigos faz música com gente viva, gente morta - nem Bach escapou. Faz música até sem saber que faz: musicam ele. O menino criado cristão agora era homem que canta orixás.
A essa altura o homem perde o emprego. Vira showman de vez. A essa altura o cara já casou um monte de vezes. A essa altura botaram o nome dele na reinvenção da música popular. A essa altura já tão falando mal dele: era um baita poeta e agora fica aí fazendo musiquinha com esse menino novo.
Muda pra Bahia. Fica mais chegado ao povo de Santo.
Imagina só um homem que fica falando por aí que é o branco mais preto do país.
Pensa num cara que casa nove vezes e não para de escrever nem canção e nem poesia - e que se morria de medo de avião.
Agora imagina ele sessentão Todo de jeans e bata? cantando em universidades e lendo um poema seu pros operários paulistas em pleno Primeiro de Maio?
Imagina um cara que não esquece sua veia católica e subverte A Arca de Noé pros pequenos, entre versos e canções?
Pensa num cara que tinha a casa aberta? Um brother mesmo... que viva cheio de amigos e sempre sentindo saudade deles... morrendo junto a cada vez que um morria.
Imagina um cara que morreu num dos seus lugares preferidos: a banheira - lugar em que gostava de escrever...
pensa só.
Agora pensa que tem músicas suas sendo cantadas num monte de lugar do mundo: por todos os continentes. Pensa que ele, que tinha um apreço formal a ponto de subverter as formas mais clássicas da poesia, é muito mal quisto nas universidades do seu país. "Poeta menor. Pequeno".
Poetinha. - camarada - que foi homenageado ainda em vida pelos seus.
De que vale seus sonetos serem recitados a torto e a direito e suas canções? Pensa numa dificuldade tremenda de achar bons textos por aí que falem dele? Pensa que no ano de seu centenário há vários programas de rádio contando sua história...
penso que no ano em que ele faz cem anos, se pá faz tanto frio em São Paulo quanto fazia na fria madrugada em que ele nasceu.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
it's her fault
acordou fedida. há duas madrugadas ela ronda pela cidade entre bares, sambas, cartas, amigos, meia-luz-inteira. fede gato. bafo. descabelos. babas. acordou com o peso das fumaças. olhava pra dentro e via o caos. do lado de fora o devir. andar.
a roupa apertada de quem precisava de agilidade nos movimentos. suja de molho. embassssssssssar.
pé-ante-pé ela deixa mais um quartinho provisório, um dos tantos da vida de andarilha.
se olha no espelho. água na cara. caça a chave. anda.
anda.
anda.
anda.
à espera do farol abrir ouve o caminhão ao lado
"noooossaaa" e depois de captar o tom de cantada barata mal consegue distinguir os fonemas-sílabas-desaforos.
o sinal não abre. o caminhão passa a seu lado. o infeliz completa o ato: bota a cabeça pra fora e vai contorcendo o pescoço. vê então uma cara amarrada. emburrada.
anda.
anda.
anda.
sobe escada.
desce escada.
passa.
para. compra.
"hmmm. nossa que gostosa!"
ele diz depois de cruzar com ela
que dessa vez grita:
"que merda, hein?!!!"
salta. escada. anda.
respira.
calcula.
reza. medita.
esquece.
assombra.
enraivece.
bafo. cecê.
suvaco cabeludo.
"hmmmm que delícia hein?"
"PUTA QUE PARIU!!!!!!!!"
anda. espuma. raiveja.
fiu fiu. - CHEGA de fiu fiu
merda.
existir.
a roupa apertada de quem precisava de agilidade nos movimentos. suja de molho. embassssssssssar.
pé-ante-pé ela deixa mais um quartinho provisório, um dos tantos da vida de andarilha.
se olha no espelho. água na cara. caça a chave. anda.
anda.
anda.
anda.
à espera do farol abrir ouve o caminhão ao lado
"noooossaaa" e depois de captar o tom de cantada barata mal consegue distinguir os fonemas-sílabas-desaforos.
o sinal não abre. o caminhão passa a seu lado. o infeliz completa o ato: bota a cabeça pra fora e vai contorcendo o pescoço. vê então uma cara amarrada. emburrada.
anda.
anda.
anda.
sobe escada.
desce escada.
passa.
para. compra.
"hmmm. nossa que gostosa!"
ele diz depois de cruzar com ela
que dessa vez grita:
"que merda, hein?!!!"
salta. escada. anda.
respira.
calcula.
reza. medita.
esquece.
assombra.
enraivece.
bafo. cecê.
suvaco cabeludo.
"hmmmm que delícia hein?"
"PUTA QUE PARIU!!!!!!!!"
anda. espuma. raiveja.
fiu fiu. - CHEGA de fiu fiu
merda.
existir.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
sobre gatos (e uma declaração de amor)
Hoje conheci Haku. Minto. Eu já vira antes. É branco como Gandalf ao fim. Sensível como aquela elfa branca... hm... que fez o Bob Dylan no filme do Scorsese. O Nego é canceriano. tá junto.
"Pronto nega. Era o que faltava pra você virar bruxa."
Um gato.
Leon mija nas minhas coisas. Todas. E eu viajo. Muito. E ele não gosta disso.
Entre amanhecer rumo a Marília terça-feira e chegar em SP no fim de tarde da quarta e encontrar - mesmo tendo se certificado de fechar a porta - a cama toda mijada pelo Leon é qualquer coisa de muito amor. Uma das coisas que vim buscar em SP foi a escaleta. Ao colocá-la na na mochila, sinto o rastro de Leon. - mijara nela também.
(preciso castrá-lo e ele me ama: combinação fatal.)
Há pouco disse que "minha primeira gata foi à distância", mas menti. É que na bem da verdade, foi bem de perto. Afinal de contas a Passarinho pariu nas minhas roupas, ora. Eu não estava em Araraquara quando aconteceu. Eu e ela não tínhamos lá a melhor relação do mundo, mas uma fêmea parir nas roupas de outra fêmea deve dizer qualquer coisa sobre a afinidade entre elas...
Passarinho enlouqueceu sozinha e muitos filhos na Moradia.
O Patas... uma de suas crias... sempre me lembro dele bebendo água do filtro da Dona Adriana - gato sortudo! (Aliás, bons felinos reunidos naquele belo lar)
Mas é uma menina de olhos azuis. arregalados. A primeira me escolheu antes.
Quando comecei a falar bastante com o Beto ao telefone, a Lara ia pra perto dele. Era ouvir minha voz que ela se aproximava, mais e mais. Vez ou outra bastava uma mera conversa comigo via computador que ela já se aninhava nele.
Quando (finalmente) eu estive em Londrina, a afinidade se confirmou. A registrei numa das poucas fotografias que fiz daquele fim de semana. Segunda-feira, antes de pegar o ônibus que - como hoje, fora prorrogado da noite pra manhã - estava eu ajeitando a mala, quando peguei a máquina fotográfica. Olhei da porta do quarto de hóspedes (onde ele tivera a audácia de deixar as minhas coisas quando cheguei) e via os dois me vendo partir: Beto e Lara.
Beto não sabia que eu fotografava. Me olhava como quem vê alguém que não se sabe sendo observado e, por isso, mirar os olhos dele através do visor da máquina era olhá-lo, fundo, entregue, como a quem não se sabe sendo visto.
Lara ao contrário encarava a máquina. Observava e se sabia observada pela coisa.
Eis a foto: os dois me vendo partir. Cúmplices. Londrina é o nosso lugar. Totem E Tabu. - tenho vontade de voltar pra lá para vê-la.
Mas antes do Leon ainda houvera outro. Gato que nem existia(?). - Le chat du Rabbin - lêcháderubã. [Filme que nos apareceu quase que como acidente, numa das nossas tarde mais belas. Um gato apaixonado por sua dona, que aprende a falar e trilha com seu dono caminhos de diversão, riso, numa atmosfera ecumênica. Diferentes que sabem coexistir e os que não sabem. O quadrinho virou filme. e eu indico para quem gosta de gatos, pra quem gosta de religião, pra quem gosta de amor, pra quem gosta de animação.]
(Ah! Se a sala 3 falasse... - contaria nossos segredos e juras de amor trocadas enquanto subia o letreiro - futuros amantes. futuro cineasta. sonhos)
Eu e Beto fomos gostando dessa coisa de ir se descobrindo e descobrir o outro, descobrindo o mundo.
Por exemplo, esse filho de São Francisco de Assis veio - também - foi pra me ajudar a amar os bicho.
Quem me viu com a Passarinho desacreditar ao me ver gamada no Leon, de dar banho e tudo mais.
Beto é meu Chico de Pé Grande.
Imenso.
E sim. Gatos.
Um acaba de se aninhar no edredon que me cobre...
( - meu amor dorme longe...)
"Pronto nega. Era o que faltava pra você virar bruxa."
Um gato.
Leon mija nas minhas coisas. Todas. E eu viajo. Muito. E ele não gosta disso.
Entre amanhecer rumo a Marília terça-feira e chegar em SP no fim de tarde da quarta e encontrar - mesmo tendo se certificado de fechar a porta - a cama toda mijada pelo Leon é qualquer coisa de muito amor. Uma das coisas que vim buscar em SP foi a escaleta. Ao colocá-la na na mochila, sinto o rastro de Leon. - mijara nela também.
(preciso castrá-lo e ele me ama: combinação fatal.)
Há pouco disse que "minha primeira gata foi à distância", mas menti. É que na bem da verdade, foi bem de perto. Afinal de contas a Passarinho pariu nas minhas roupas, ora. Eu não estava em Araraquara quando aconteceu. Eu e ela não tínhamos lá a melhor relação do mundo, mas uma fêmea parir nas roupas de outra fêmea deve dizer qualquer coisa sobre a afinidade entre elas...
Passarinho enlouqueceu sozinha e muitos filhos na Moradia.
O Patas... uma de suas crias... sempre me lembro dele bebendo água do filtro da Dona Adriana - gato sortudo! (Aliás, bons felinos reunidos naquele belo lar)
Mas é uma menina de olhos azuis. arregalados. A primeira me escolheu antes.
Quando comecei a falar bastante com o Beto ao telefone, a Lara ia pra perto dele. Era ouvir minha voz que ela se aproximava, mais e mais. Vez ou outra bastava uma mera conversa comigo via computador que ela já se aninhava nele.
Quando (finalmente) eu estive em Londrina, a afinidade se confirmou. A registrei numa das poucas fotografias que fiz daquele fim de semana. Segunda-feira, antes de pegar o ônibus que - como hoje, fora prorrogado da noite pra manhã - estava eu ajeitando a mala, quando peguei a máquina fotográfica. Olhei da porta do quarto de hóspedes (onde ele tivera a audácia de deixar as minhas coisas quando cheguei) e via os dois me vendo partir: Beto e Lara.
Beto não sabia que eu fotografava. Me olhava como quem vê alguém que não se sabe sendo observado e, por isso, mirar os olhos dele através do visor da máquina era olhá-lo, fundo, entregue, como a quem não se sabe sendo visto.
Lara ao contrário encarava a máquina. Observava e se sabia observada pela coisa.Eis a foto: os dois me vendo partir. Cúmplices. Londrina é o nosso lugar. Totem E Tabu. - tenho vontade de voltar pra lá para vê-la.
Mas antes do Leon ainda houvera outro. Gato que nem existia(?). - Le chat du Rabbin - lêcháderubã. [Filme que nos apareceu quase que como acidente, numa das nossas tarde mais belas. Um gato apaixonado por sua dona, que aprende a falar e trilha com seu dono caminhos de diversão, riso, numa atmosfera ecumênica. Diferentes que sabem coexistir e os que não sabem. O quadrinho virou filme. e eu indico para quem gosta de gatos, pra quem gosta de religião, pra quem gosta de amor, pra quem gosta de animação.]
(Ah! Se a sala 3 falasse... - contaria nossos segredos e juras de amor trocadas enquanto subia o letreiro - futuros amantes. futuro cineasta. sonhos)
Eu e Beto fomos gostando dessa coisa de ir se descobrindo e descobrir o outro, descobrindo o mundo.
Por exemplo, esse filho de São Francisco de Assis veio - também - foi pra me ajudar a amar os bicho.Quem me viu com a Passarinho desacreditar ao me ver gamada no Leon, de dar banho e tudo mais.
Beto é meu Chico de Pé Grande.
Imenso.
E sim. Gatos.
Um acaba de se aninhar no edredon que me cobre...
( - meu amor dorme longe...)
terça-feira, 10 de setembro de 2013
queridodiário
tenho um gato que se lambe todo no cobertor que meu amor me trouxe
pra me aquecer enquanto ele fica lá. longe.
tenho amigos doidos. que gostam de cartas. de saraus. de prosa longa.
dão prosa pras minhas brisas e a gente fica delirando.
tenho uma pilha de livros de um só autor. um morto que me acompanha há anos.
tenho um brother com quem conversar sobre a pilha. e a gente gosta tanto da prosa que falaremos com mais dezenas sobre.
tenho vontade de poesia, embora fique em prosa
tenho um quase na bagagem. uma colocação boa
e hoje quase tive vintemil.
não tenho sono, mas me vou dormir
que tenho sobretudo, vontade de mundo
de estradar
e amanhã,
tenho pé na estrada outra vez.
pra me aquecer enquanto ele fica lá. longe.
tenho amigos doidos. que gostam de cartas. de saraus. de prosa longa.
dão prosa pras minhas brisas e a gente fica delirando.
tenho uma pilha de livros de um só autor. um morto que me acompanha há anos.
tenho um brother com quem conversar sobre a pilha. e a gente gosta tanto da prosa que falaremos com mais dezenas sobre.
tenho vontade de poesia, embora fique em prosa
tenho um quase na bagagem. uma colocação boa
e hoje quase tive vintemil.
não tenho sono, mas me vou dormir
que tenho sobretudo, vontade de mundo
de estradar
e amanhã,
tenho pé na estrada outra vez.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
música serve pra isso.
"sua vida É um espetáculo, Isabela." - ou era algo como "em constante performance?" - algo assim eu ouvi de um grande amigo meu. grande amigo. e não é lá algo muito fora da realidade. Desde que o Salsicha tinha espalhado pras duas turmas que eu cantava vira mexe eu ouvia "canta no fim da aula", "hoje você vai cantar né?". e eu sempre dava um jeito de simplesmente não tocar no assunto pós-roda de avaliação. eu então pensei em fazer uma surpresa no dia da formatura: levar um violão e cantar direito. mas eis que no meio do caminho tinha a rede globo. resolveram filmar o trampo da ong em que eu trampo praquele programa sobre ações sociais que ninguém vê mas que passa sábado de manhã. - e a gente sabe que existe.
o pedido foi: por conta das gravações, adianta a atividade com violão pros meninos. well. não o fiz. pensando agora, uma idiotice imensa não ter feito - teriamos atrasado a colagem dos cartazes e não precisaríamos tê-los destruído para remontá-los. quem disse que adiantou. Kelvin veio já enfático e no começo da aula: você vai cantar né? - canta "Pais e Filhos" do Legião Urbana.
***
Essa foi uma das músicas que eu cantei quando levei o violão e não fui tonta. encerramento da oficina de literatura com o grupo de dança. cantamos em coro. eu engasgava. sempre engasgo. quando tô tocando violão é mais fácil. o coro embala e eu me concentro nas cordas. quando é a capella o choro parece que me vence.
com os meninos do núcleo-luz houve toda uma história recheada pelas aparições do Legião Urbana durante as aulas. A relação canção e roteiro de cinema; o (excesso?) de citações de canção em 'Somos tão jovens'; o lançamento dos filmes; o episódio quase vivido por mim e testemunhado por dois aprendizes sobre o dia que a livraria cultura faria uma exibição gratuita de "Faroeste Caboclo" com direito a debate com os protagonistas no fim. - a fila era quilomêtrica e isso não é um exagero. muita gente. da sala se encher e ultrapassar o limite do suportável e globais saindo pelas portas do fundo em plena paulista pra se proteger da multidão. - cinema, de graça. na rua. well.
***
por outro lado, na emef cidade de osaka, em são mateus, 'pais e filho' liderava uma lista de músicas, o "top 10" das canções preferidas da turma da tarde. eleição feita pro fanzine que contava com whitney houston, los hermanos, beirut, pitty dentre outros. e kelvim queria era aquela.
- aquele era o dia sugerido pra levar o violão. naquele dia contei pra eles da ida da globo.
e se de manhã eu estava dando conta do fogo da contradição queimando por dentro, a turma estava radiante por estar na tevê exceto pela exigência da diretoria de que todos usassem uniformes. - comoção geral. mas por fim eles se convenceram.
à tarde foi mais difícil. ao ouvir "globo" a gente ouvia repulsa feroz e apaixonada. - o uniforme quase que conseguia ser de menos. eu disse "quase". - "eu sou contra a uniformização. eu não uso uniforme. isso é o que eu acredito." - "você pode não vir".
o que eu ia fazer? eu, na condição deles, faria a mesma coisa - não tô dizendo lá atrás, há 12 anos atrás. digo hoje. nos dias em que eu brigo com as pessoas que passam no sinal vermelho.
como pedir pra eles gostarem daquilo? - eu não gosto! foi difícil.
princípio de contradição da existência.
a aula foi uma bosta. eu mal conseguia interagir com os meninos. ao fim, eu puxei a roda de avaliação e conversei com eles. pedi desculpas pela bédivaibi, que tava difícil, eu não gostava de ficar daquele jeito com eles, principalmente no nosso último dia e que eu tinha que cumprir com um pedido que haviam me feito "mas vocês precisam cantar junto, viu?"
estátuas e cofres e paredes-pintadas (ninguém sabe o que aconteceu. - ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender)
(não consegui disfarçar dos meninos a carência e a saudade do meu lamento "eu moro com meus pais... não mais)
-e sim, eu choro. porque viajo anos com essa música sempre.
eu lembro cristalinamente, há muitos anos atrás, dentro do carro - quando o Bruno nem dirigia ainda - eu perguntando pro meu irmão: "como assim? ele cada hora mora num lugar? com a mãe, na rua...?"
"é liberdade poética, gorda. poeta pode tudo".
anos mais tarde, era ele com o violão à colo, eu, minha mãe e meu pai cantando com ele e a turma dele de terceiro ano lá no centro cultural "é preciso amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAaaaarrr".
- antes de cantar eu contei pra eles que eu tinha planejado cantar pra eles na formatura, mas que não ia rolar, porque a globo ia, etcetcetcetc. que ia ficar mais careta a coisa.
***
eu e o salsicha temos uma capacidade incrível de cantar pérolas do cancioneiro. despreocupadamente. infinitamente. here there and everywhere. enquanto a gente pregava os cartazes foi de tudo "lá vem o negão, cheio de paixão" - a gente veio com "maracangalha". eu infectei o resto do pessoal e, de repente, a gente tava discutindo porque manonas era um clássico e porque eu aquela outra banda, que eu nem sei o nome, não. "é porque eles morreram." - e eu me contendo pra não discorrer sobre toda a minha teoria do riso nos mamonas!rs
infectados por música. assim a gente se comunicava. descontraía. tava absurdizada com o cara que botou um senhor rockpesado em pleno almoço da criançada. eu pirei. os meninos já são agitados...rsrs toda tia. rs .entre a chegada dos meninos no refeitório-salão-de-formatura passou gilberto-gil via paralamas do sucesso numa versão mais rappeada que nunca, com violão-de-acústico-mtv ao fundo, o rappa evocando jorge ben: "temo cabelo duro somo black pau".
***
e começa a coisa toda. os meninos fizeram discurso né?o da manhã já me arrancou lágrimadozói. o discurso da tarde era uma verdadeira surpresa. o jogral das isabelles com andrew culminava em nada mais nada menos do que um fim assim, ensaiado: mas peraê? acabou?"
- é preciso amar
as pessoas como se não houvesse
amanhã.
porque -
se você parar
pra pensar - ... na verdade
não há.
o pedido foi: por conta das gravações, adianta a atividade com violão pros meninos. well. não o fiz. pensando agora, uma idiotice imensa não ter feito - teriamos atrasado a colagem dos cartazes e não precisaríamos tê-los destruído para remontá-los. quem disse que adiantou. Kelvin veio já enfático e no começo da aula: você vai cantar né? - canta "Pais e Filhos" do Legião Urbana.
***
Essa foi uma das músicas que eu cantei quando levei o violão e não fui tonta. encerramento da oficina de literatura com o grupo de dança. cantamos em coro. eu engasgava. sempre engasgo. quando tô tocando violão é mais fácil. o coro embala e eu me concentro nas cordas. quando é a capella o choro parece que me vence.
com os meninos do núcleo-luz houve toda uma história recheada pelas aparições do Legião Urbana durante as aulas. A relação canção e roteiro de cinema; o (excesso?) de citações de canção em 'Somos tão jovens'; o lançamento dos filmes; o episódio quase vivido por mim e testemunhado por dois aprendizes sobre o dia que a livraria cultura faria uma exibição gratuita de "Faroeste Caboclo" com direito a debate com os protagonistas no fim. - a fila era quilomêtrica e isso não é um exagero. muita gente. da sala se encher e ultrapassar o limite do suportável e globais saindo pelas portas do fundo em plena paulista pra se proteger da multidão. - cinema, de graça. na rua. well.
***
por outro lado, na emef cidade de osaka, em são mateus, 'pais e filho' liderava uma lista de músicas, o "top 10" das canções preferidas da turma da tarde. eleição feita pro fanzine que contava com whitney houston, los hermanos, beirut, pitty dentre outros. e kelvim queria era aquela.
- aquele era o dia sugerido pra levar o violão. naquele dia contei pra eles da ida da globo.
e se de manhã eu estava dando conta do fogo da contradição queimando por dentro, a turma estava radiante por estar na tevê exceto pela exigência da diretoria de que todos usassem uniformes. - comoção geral. mas por fim eles se convenceram.
à tarde foi mais difícil. ao ouvir "globo" a gente ouvia repulsa feroz e apaixonada. - o uniforme quase que conseguia ser de menos. eu disse "quase". - "eu sou contra a uniformização. eu não uso uniforme. isso é o que eu acredito." - "você pode não vir".
o que eu ia fazer? eu, na condição deles, faria a mesma coisa - não tô dizendo lá atrás, há 12 anos atrás. digo hoje. nos dias em que eu brigo com as pessoas que passam no sinal vermelho.
como pedir pra eles gostarem daquilo? - eu não gosto! foi difícil.
princípio de contradição da existência.
a aula foi uma bosta. eu mal conseguia interagir com os meninos. ao fim, eu puxei a roda de avaliação e conversei com eles. pedi desculpas pela bédivaibi, que tava difícil, eu não gostava de ficar daquele jeito com eles, principalmente no nosso último dia e que eu tinha que cumprir com um pedido que haviam me feito "mas vocês precisam cantar junto, viu?"
estátuas e cofres e paredes-pintadas (ninguém sabe o que aconteceu. - ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender)
(não consegui disfarçar dos meninos a carência e a saudade do meu lamento "eu moro com meus pais... não mais)
-e sim, eu choro. porque viajo anos com essa música sempre.
eu lembro cristalinamente, há muitos anos atrás, dentro do carro - quando o Bruno nem dirigia ainda - eu perguntando pro meu irmão: "como assim? ele cada hora mora num lugar? com a mãe, na rua...?"
"é liberdade poética, gorda. poeta pode tudo".
anos mais tarde, era ele com o violão à colo, eu, minha mãe e meu pai cantando com ele e a turma dele de terceiro ano lá no centro cultural "é preciso amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAaaaarrr".
- antes de cantar eu contei pra eles que eu tinha planejado cantar pra eles na formatura, mas que não ia rolar, porque a globo ia, etcetcetcetc. que ia ficar mais careta a coisa.
***
eu e o salsicha temos uma capacidade incrível de cantar pérolas do cancioneiro. despreocupadamente. infinitamente. here there and everywhere. enquanto a gente pregava os cartazes foi de tudo "lá vem o negão, cheio de paixão" - a gente veio com "maracangalha". eu infectei o resto do pessoal e, de repente, a gente tava discutindo porque manonas era um clássico e porque eu aquela outra banda, que eu nem sei o nome, não. "é porque eles morreram." - e eu me contendo pra não discorrer sobre toda a minha teoria do riso nos mamonas!rs
infectados por música. assim a gente se comunicava. descontraía. tava absurdizada com o cara que botou um senhor rockpesado em pleno almoço da criançada. eu pirei. os meninos já são agitados...rsrs toda tia. rs .entre a chegada dos meninos no refeitório-salão-de-formatura passou gilberto-gil via paralamas do sucesso numa versão mais rappeada que nunca, com violão-de-acústico-mtv ao fundo, o rappa evocando jorge ben: "temo cabelo duro somo black pau".
***
e começa a coisa toda. os meninos fizeram discurso né?o da manhã já me arrancou lágrimadozói. o discurso da tarde era uma verdadeira surpresa. o jogral das isabelles com andrew culminava em nada mais nada menos do que um fim assim, ensaiado: mas peraê? acabou?"
- é preciso amar
as pessoas como se não houvesse
amanhã.
porque -
se você parar
pra pensar - ... na verdade
não há.
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