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sexta-feira, 28 de junho de 2013

antes era só um trem

(dê play e leia)

o trem vai pela terra
vai pela serra, pelo ar
pelo concreto, asfalto e gente
entorna pelas ladeiras e entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão: a gente é gente
gente, gente.
Vida de boi, de gado, junto suado
exprimido: "Cê mora em São Paulo?
Já sabe empurrar no metrô?"

Seis da tarde: a mais triste das horas cristãs:
melancolia da morte do filho de deus:
"Pai por que me abandonaste?"

Somos tantos ombos, braços, pernas, bolsas
fones de ouvido. zumbido, silêncio.
testa franzida

o que são 20 centavos?
não é qualquer desatenção: é a gota d'água.

Salta do trem, do metrô, dos vagões, das escadas rolantes e esteiras que aceleram
o passo torto.

Vem pra rua! - e isso nem é propaganda da TV.

É gente. É povo. É canto.

"Se a tarifa não baixar olê, olê, olá
a cidade vai parar!"

"pula sai do chão contra o aumento do busão"

os pés no asfalto marcham
mar de gente: navegação

Bandeiras tremulam esperanças e ordem

o trem. trem. trem. busão. vagão.
locomoção.

Queremos espaço.
queremos andar, respeito, passar,
livremente.

Fazer valer o adjetivo do nome: PÚBLICO.

Febre interna se alastra: outros pés querem marchar.

Brasil agora é um ponto vermelho no mapa dos povos em chamas.

Podia ser 63, mas não é.

O passado vem à baila como canção e
memória que arde e movimenta o
andar do presente. Pra onde ir?

Bonde da trilhos urbanos saiu dos trilhos.
o trem de doido tá lotado
(e sempre cabe mais gente)

Choque. Bomba. Boom!
Coração, ato, amor.
Fúria, ação, pavor.

"Moço você paga tarifa: abaixa o cacetete
e vem pro lado de cá"

Podia ser 63, mas não é.

Violão fraco e rouco não cansou de chamar:

o samba tão imenso transborda as calçadas e praças do país e toma as ruas.

Antes era só um trem.

Agora é o próprio movimento.



17 de junho de 2013, antes das 17hs.


Texto lido durante o  II Ciclo de Estudos Discursivos
realizado pelo GED coordenado  por Luciane de Paula
na FCL da Unesp de Assis
enquanto Trenzinho Caipira era executada por Patrick e Jéssica (piano e violino)
Camila e Nicole na voz.


sábado, 22 de junho de 2013

hasteia o riso

Quinta feira, 20 de junho, foi um dia imenso. 
No caminho do lar para a rodoviária de Marília, o taxista falava muito sério sobre a necessidade da permanência das manifestações diante da redução da tarifa. E não falava em coisas abstratas como "contra a corrupção", mas falava sobre sobre números, cifras, coisas que poderiam ter sido feitas com o dinheiro investido na Copa. No dia anterior, no guichê rodoviário em Assis, após uma piadinha minha sobre o Brasil ser a própria fogueira das festas juninas, o funcionário vestido a caráter falava "você é de Assis? Ah! Então não deve gostar da cidade. Mas o povo é muito bom. Devia escrever nos cartazes dos protestos que o problema são esses empresários que exploram a cidade..."
Voltando à quinta, depois de descer do táxi, esperando o busão que se atrasava mais uma vez rumo a São Paulo, eu vi o jornal que um senhor levava e pedia para ver: a vitória do MPL estampada na primeira página. Eu, com essa Lua em Câncer, enchi os olhos lágrimas e fui lá comprar um exemplar pra mim. "Esse tem que guardar pra mostrar pros filhos", eu dizia sorrindo pros vendedores. 
Sentei novamente do lado do senhor e conversamos tanto e tanto sobre as manifestações. Ele animado, dizendo que é isso mesmo! Que o povo tem mais é que ir pras ruas. E eu falando sobre a violência policial aos jornalistas das grandes mídias como fator que impulsionou as manifestações no país todo. 
No caminho vindo lendo a Folha e o Estadão e rindo sozinha dos comentários e notícias. Evidentemente, não precisa ser um grande expert em análise do discurso para ver a maneira pela qual os jornais direcionavam a análise, ainda que, na Folha, algumas análises tenham sido minimamente louváveis. Ri alto e feliz de ver que o MPL tinha cantado a Internacional para comemorar o recebimento da notícia. E a cada riso meu eu imagina o que se passava na cabeça dos policiais militares que viajavam na poltrona perto de mim.
Cheguei em São Paulo disposta a ir pras ruas que a musica que eu deveria cantar era da alegria de estar nas ruas pós vitória do movimento. Até então, eu andara apenas na marcha do dia 11 de junho, sabe? Aquela terça-feira pré quinta-truculenta-da-pm-dia-que-o-Datena-mudou-de-ideia. Pois bem. Terça-feira na qual eu andei por 5 horas gritando única e exclusivamente palavras de ordem contra o aumento da tarifa. O movimento organizado em torno de uma pauta e com um objetivo claro. Terça-feira de 15mil pessoas que sabiam exatamente o que queriam, ainda que estivessem perdidas sobre essa coisa extasiante que é estar nas ruas. Eu por exemplo. Tudo novo. Pra mim e pra muitos e muitos jovens. 
Pois bem. A quinta-feira da vitória, pós quinta-feira da repressão.
Cheguei em casa, preparei o figurino: minha camiseta vermelha com os dizeres vinicianos: "é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe. é assim como a luz do coração".
Mas eu e essa coisa de ficar sempre na internet... abri um link que exibia a manifestação na Paulista ao vivo e vi a chegada das bandeiras vermelhas por lá e o início de sua hostilização. Pouco antes eu havia compartilhado feliz e contente a notícia de que o MPL não se incomodava com a presença dos partidos. (bandeiras vermelhas presentes desde o início das movimentações - e hostilizadas ainda que de forma pontual desde o início também. Eu mesma, que não sou filiada a nenhum partido, embora conheça alguns de mais de perto, como é o caso do PST-U, eu mesma defendi um militante e disse "não. a gente não vai baixar as bandeiras!").
Eu já sabia que os movimentos sociais e partidos de bandeiras vermelhas estaria presente. Imaginava um confronto, mas não o caos. Aos poucos fui ficando acoada por estar vestindo vermelho. Tive medo de sair de casa. Meio atordoada, não sabia o que fazer. Fui pra rua. 
No ônibus a alegria novamente me contagiava: fiz a coisa certa. O motorista e o cobrador (aqueles pra quem eu perguntava em coro forte na terça "me diz aí se seu salário aumentou??") eles falavam com orgulho das manifestações, apoiavam a causa e estavam felizes de me dizer que o ônibus não faria todo o trajeto da linha. Durante todo o caminho, um enfermeiro dizendo sem rancor que estava saindo pro trabalho quase 4 horas antes, por conta do trânsito devido as manifestações. E falava pra mim em detalhes o preço dos estádios, sobre os estados que tem poucos times de futebol e agora ganharam verdadeiros palácios da bola. Falando, argumentando, debatendo, construindo, apontado direções. Ali. No banco do busão.
Na saída do metrô da Consolação, muita gente, MUITA GENTE, de verde amarelo, se pintando. Na rua, um carnaval fora de época. Flanemos! Grupos esparsos, vários cartazes. Verde e amarelo. Vermelho, só nas camisetas da Ferrari. Cheguei tarde demais(?) Não consegui perguntar praquela onda verde e amarelo onde estavam as bandeiras vermelhas: seria o mesmo que pedir pra discutir e tretar. Eu tava sozinha e sozinha nessa. Passou uma conhecida dos tempos de Araraquara e parei ela e perguntei. Não sabia direito, mas havia muito tempo que não os via. Deviam ter ido embora. 
De repente eu estava andando no sentido contrário da multidão. Caçava algum vestígio vermelho. Achei depois de muito caminhar. Uma camiseta da CUT: "oi moça!" Era uma colombiana e sua amiga peruana. Moravam numa ocupação e tinham sido convidadas a estar ali. Andamos as três em busca de mais vermelho. Achamos então um grupo anarquista gritando "Sem alegria: a PM mata pobre todo dia". Eu provavelmente estou em algumas fotos bem a caráter com meu vermelho e preto, gritando que a luta é internacional... Por fim um professor "nem sou do MST mas vim com a camiseta: onde estão os movimentos sociais? A classe trabalhadora precisa vir pras ruas"  - "eles tentaram, moço, mas foram duramente hostilizados."
Depois de andar com elas um pouco mais, tomei o rumo de casa atônita: como assim toda essa repressão? Como ficar alegre com a violência que as bandeiras sofreram? Como achar normal que pudessem atacar diretamente a Dilma salientando o P e o T de sua incomPeTência e privar aos militantes o direito de estarem nas ruas? Como? Minha cabeça trovoava e a sensação de estar bem próxima de uma conjuntura próxima a dos anos 1960, que vinha de há muito mais tempo que essas duas semanas de hostilidade e esse boom facebookiano, só crescia.
Em casa, eu estava triste. Desanimada. Consumida pelos comentários todos. O relato do meu camarada que estava junto às bandeiras fazendo a segurança aumentava minha agonia. Meu companheiro, partidário e militante, tentava me acalmar - por mais incrível que isso possa parecer.
Na sexta-feira da ressaca foi novamente a rua que me arrancou sorrisos e lágrimas: a festa junina dos meus queridos aprendizes. Eles dançavam. Dançavam. Giravam. Sorriam. Sentiam prazer em viver.
Lembrei então daquilo que tanto estudo e leio com um dos meus russos preferidos: o RISO. Seu poder ambivalente: rebaixa e regenera. Tomei como meta interna voltar a sorrir. Não. Não podem me levar o sopro de vida. A alegria de viver. Não. Isso é a minha maior derrota.
Todos estes posts sobre facismo, essa ignorância das lições da história... dizer, responder, falar, gritar. bizarrices por todos os lados. a direita. os videos. a copa. a fifa. o foda-se. o FALA. "Se você disser tudo que quiser, então eu escuto."
Hoje canto do lado dos amigos. A arte antecipa. No repertório autoral, os versos do poeta já profetizavam "Hasteia toda a dor, hasteia! Hasteia toda a cor vermelha!" Hoje canto a hipocrisia daqueles que se parecem com machados, que ferem sândalos e ainda querem sair perfumados.
No difícil equilíbrio entre a indignação e a alegria de ver as pessoas trazendo pra ágora, pro centro da conversa, os problemas da política, da vida pública, para além das suas querelas particulares... nessa balança, nessa gangorra, eu quero é força pra continuar lutando.
quero sobretudo, paz interna para não perder o fôlego de travar uma boa conversa no ponto de ônibus, na loja, na esquina, na RUA.
Hoje.
Meus amigos de luta: nos organizemos. Mas que a raiva, o medo, o ódio, não matem nossos corações. Lutemos alegres. As ruas estão aí não é de hoje. Caminhemos. Perplexos. 
Deixemos espaços para o vento passar.
e sobretudo, voltemos a sorrir. grande. alto. imensamente.

terça-feira, 18 de junho de 2013

e que não se pare de fazer perguntas...


esse post foi escrito no calor da emoção ao saber da agressão sofrida por minhas amigas militantes do PSTU durante a marcha em Londrina. 

Dedico a minha amiga de sorriso imenso e lindo, guerreira mulher:Ana Soranso
Para saber mais sobre o episódio, sugiro esse relato: Duas marchas em uma. de  Murilo Pajolla



não. continuo não me orgulhando de morar num país que explora os seus vizinhos mais pobres. que explora a classe trabalhadora. que mata seus índios. que tratou a mobilização dos universitários nos últimos dez anos e até semana passada (pq as UNESP estão praticamente todas mobilizadas e disse ninguém quer falar) como bando de baderneiro!!

sem essa de pátria amada. sim. acredito que o Brasil tenha vozes internas que precisam ser ouvidas muitos mais do que muito enlatado norte-americano e por aí vai que a gente engole cotidianamente. mas não pessoal. não me venham com churumelas. não  se trata de um "patria amada Brasil".

isso aqui se tornou nação às custas de 3 séculos de escravidão. Nossa República foi um golpe militar, uma passeata de milico na rua - ok! contra a monarquia - mas que (também) matou e calou muitas manifestações populares.

não. não me venham com essa.

acorda sim povo brasileiro. mas saiba pra onde tá andando. caminho se conhece andando então vez em quando é bom se perder. ok.

mas não. não me peçam pra abaixar bandeiras de quem toma partido EM MUITAS LUTAS HÁ MUITO TEMPO por conta de um nacionalismo abstrato e perigoso.

entendo a paixão. mas não desejaria ver essa massa de gente nas ruas reproduzindo repressão, sectarismo e preconceito.

não quero que a esquerda se sinta obrigada a se esconder.
ao contrário.

já pararam pra pensar por que o PSC, PMN, PR, PV, esses outros "p"s menores, que estão periodicamente nas nossas tvs, na hora da novela, apoiando um governo de lá, dizendo q fez dali... por que que eles não levantaram suas bandeiras nas primeiras manifestações do Passe Livre??? Por que???? E por que ali tinhamos a bandeira do PCO? PCR? PST-U? PSOL? ANEL? UNE? e por aí vai????

Ano que vem tem eleição, queridagens.
e será através da mediação partido (a não ser que a gente REALMENTE mude TUDO até lá...). os que tem grana levantam a bandeira todos os dias na sua TV na hora da novela pra dizer o quanto eles são legais, ou o quanto o governo é malvado, e como eles vão tirar a gente da merda... é sempre tão bonito ne?

o Aecio andou aparecendo a torto e a direto nos intervalos dos ultimos capitulos de novela. e dizia "quero conversar com você"... quer mesmo??????

Não.
pessoal! A gente tem feito petição online há muitos meses. Foram quantas contra o Feliciano???????? Quantos atos nas ruas contra ele??? quantos artistas se manifestaram? se beijaram??? a daniela mercuri até voltou a fazer show a torto e a direito!!!
O máximo que podíamos dentro da sociedade do espetáculo já foi feito. Quebrar coisa é muito ruim, invadir é violento, mas já pararam pra pensar há quantos anos as pessoas entram nas casa legislativas e falam com a policia???
quantas vezes elas até falam, mas não são ouvidas????
 - não digo aqui que devemos ou não ser violentos nas manifestações. mas é compreensível sim, pensando sociologicamente, historicamente, que dá pra entender porque da invasão: a gente pede pra entrar e não deixam! a gente fica então se divertindo, rindo da nossa própria mediocridade nos CQCs da vida porque eles estão la de terno e gravata aloprando político?



não pessoal. não sei pra onde estamos indo.
mas muito cuidado no trajeto.

já que a treta é com partido, pensem muito bem nas propagandas e oportunismos partidários que engolimos todos os dias.

já que a treta é partido, se perguntem ondem esses partidos que estão sendo agredidos (inclusive fisicamente) nas passeatas andaram indo, o que eles querem e o que falam. - eles não são detentores da verdade, mas será mesmo que encarnam em si todo o mal existente?

ano que vem tem eleição. não deixem isso aqui virar um flaXflu.

que nos seja dado discernimento para caminhar. e não se pare de fazer perguntas.



Em tempo:
às vesperas da ditadura militar tanto a direita quanto parcela da esquerda louvavam a pátria, a nação. a revolução por etapas "fortalecer nosso capitalismo brazuca" - blabla. e a galera que "fez o bolo crescer" e deixou as migalhas, e abriu devagarinho as pernas pra nossa democracia.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

a morte virtual (ou estou online pro que der e vier)

Um belo dia de trabalho: uma manhã iluminada. As duas pequenas turmas de dançarinos com quem tenho refletido e conversado sobre linguagem são qualquer coisa de incríveis e já me tomaram por inteiro de corpo e alma em apenas três encontros.
A verdade é que pralém do encanto próprio da função de educadora - pelo qual estou completamente fascinada - cada um daqueles aprendizes é um sopro de vida. Queria poder abraçá-los, um a um. Quando ganho um abraço espontâneo, o coração se abre. 
É. Tenho dado poucos abraços aqui em São Paulo. Posso facilmente culpar a cidade - e faço isso muito bem: o trânsito e a lonjura das coisas são um álibi muito bom. Em Araraquara era sair de casa a esmo, numa batida de perna descompromissada para trombar com alguém. Se numa casa os amigos não estavam, era andar mais um ou dois quarteirões e ali, sem marcar hora nem nada, lá estava um rosto conhecido e abraços abertos pro aconchego de um abraço.
Vivi dias aqui de completa solidão dentro desse apartamento onde eu modelo meus dias. Solidão essa que me levou a uma crise de rins absurda, tamanho era o medo e angústia pelo novo recomeçar. Um parto doloroso de uma vida nova que promete muito crescimento. 
Mas de certo que muitos dos amigos que podem vir a estar lendo essas linhas desconhecem essa angústia, afinal de contas, eu estava ali, online, todos os dias. 

Religiosamente meu rosto aparecia no feed de notícias. Ora eu contava um causo, reclamava de alguma coisa, compartilhava, curtia, comentava. Postava fotos, frases. Indiscretamente revelava a vida. Convidava a todos pra me ouvir cantar, estabelecia contatos. O feicibuqui no celular praticamente substituia o sms. 
Pois bem. Dia de trabalho excelente, lembrança de gente de verdade nos poros, eis que me sento diante do mundo. Abro suas janelas, suas cores azuis, os rostos bonitos que transitavam naquela tarde.
Vi de relance ali no cantinho direito, onde as fofocas são contínuas e discretas que meu amigo estava prestes a participar do Golpe Comunista 2014 no Brasil. Amigo querido que é, fui espiar do que se tratava e vi toda uma festa armada e montada. Diante de mim então apareceu o vídeo-piada da vez. A junção de coisas non-sense era tanto que parecia uma costura feita especialmente para me tirar do sério: praça de alimentação de shopping, juventude PSDB e uma mina nada a ver fazendo ecoar um discursinho que virou moda no face de que o PT é Comunista!!!?! - Me expliquem de novo o que é comunismo. Pra mim ele tá bem mais próximo daquilo que cantam Elis e Bituca em O que foi feito devera do que em qualquer migalha de vermelhidão da estrela petista.

Mas não pára por aí. No dia em questão, uma quarta-feira, dia 15 de maio de 2013, coisa de uma semana antes do aniversário de 06 anos da greve de 2007, de leve 10 CAMPI da UNESP estavam paralisados, sendo 03 deles em greve. As demanadas? Além de um grito desesperado e recorrente sobre a melhoria das condições permanência dos estudantes (moradia, restaurante universitário), a rejeição ao PIMESP (recomendo fortemente a reflexão dos queridos Frederico Firmiano e Adriana Novais a respeito do caráter problemático dessa medida que pretende suprir/substitui/esgotar a questão das COTAS nas universidades paulistas - umas das únicas públicas no país que ainda não aderiram ao sistema).
Em 2007, os estudantes de Araraquara que encontraram o CHOQUE na calada da madrugada faziam coro com milhares de estudantes do Estado de São Paulo contra os decretos do Serra que feriam a autonomia universitária. Mas a única coisa que era dita a respeito até mesmo dentro do movimento que culminou na greve, que levou a ocupação da diretoria era que a sindicância que alguns estudantes sofriam em decorrência de um ato/festa que envolveu mais de cem alunos, no qual caixas eletrônicos foram pintados.
A história em 2013 se repete. A imprensa reduz a mobilização de Araraquara ao protesto de estudantes expulsos por terem feito uma orgia na moradia  - isso mesmo, leiam de novo, MORADIA. É. Por terem feito sexo como bem entendem e desejam, dentro de quatro paredes, 6 estudantes foram expulsos. Evidentemente, o caso explicita muitos problemas em relação a legislação da moradia, a forma como ela organiza e a total falta de liberdade dos estudantes que dependem dos auxílios para se manterem na universidade. Ah! Você é moralista demais pra suportar a ideia de várias pessoas fazendo sexo num cômodo da sua casa... mas então vamos lá, já houve sindicância para moradores pelo simples fato deles beberem cerveja onde moram, fazerem uma festa de aniversário! Eu pergunto, se você não pode fazer isso onde você mora, vai fazer onde?  - É uma questão de classe: playboy pode, oras.
Mas não. Ainda que esta fosse uma questão que merecesse um amplo espaço pra debate, o que fez 10 campi da unesp parar, foi a truculência, o racismo e o desrepeito do PIMESP. Mas a Folha de São Paulo orientava seus leitores o ponto de vista do democrático diretor da FCL que fechou o RU durante o período de ocupação. 

Eu precisava trabalhar. Construir um relatório, organizar arquivos, pastas, textos, artigos. Escrever um projeto. Fazer um relatório de atividades. Mas de repente até mesmo a Gal Costa cantando Bancarrota Blues me irritava. Ela irritada com o vento e fazendo piadas sem graça.

Tava decidido. Não sabe brincar, desce do play. 
Se eu não tinha controle emocional para digerir o mundo subindo em feeds pelo feeeeicii, melhor desativar a conta, respirar e acenar.
Pronto. E aí o face pergunta: "por que você vai embora? vão sentir saudades de vc!" - eu respondo "não se preocupe face: é temporário. Eu voltarei."

 E pronto. Conta desativada. Tempo indeterminado.

 - sessão de choro, grito, desabafo, dor física - e a raiva de mim mesma por me deixar afetar e não "cuidar de mim"

"Mas Isa, como você quer ser artista sem facebook?"

E de fato, era isso mesmo. Eu sabia que teria que voltar e que o charminho pro mundo tinha que acabar. Trata-se talvez de não dar tanta importância, ou administrar tudo isso melhor, or what-fuckin-ever.

Acordei ainda meio besta com o mundo pós sonhos vívidos e trabalhosos, mas hoje foi dia de saber que serei tia e não há tristeza do mundo que seja maior que essa alegria, esse choro gostoso, esse sorriso nos lábios. Pós chamego, eu volto pro facebook, menos de 24 horas depois.
Me alegro com os meus e compartilho o evento: afinal de contas, quinta-feira é dia de cantar. e tava lá eu contando pro povo.

Cheguei ao bar hoje e a cara era de espanto. E foi consensual: os donos do bar, o colega pianista, o amigo músico que intermedeia a agenda musical do lugar: TODOS perplexos e preocupados:

"o que aconteceu com você? o que aconteceu com o seu facebook que eu não conseguia falar contigo?"



"você mudou a sua foto. não consegui te achar. achei que a gente não era mais amigo..."

"eu fiquei preocupado: achei que você não fosse vir cantar hoje!"

"eu achei que tinha feito alguma coisa que você não tinha gostado de alguma coisa que eu fiz e não queria mais tocar comigo"

"nossa véi, tentei falar com você e nada".


Eu quase definhei biologicamente há quase um mês atrás e nada chegou perto do espanto dos quatro do que  o meu pequeno suicídio virtual. 
Oquei, óquei: o motivo era trabalho. Tudo bem. Mas foi definitivamente engraçado e chocante perceber como a minha vida e a minha conta no facebook podem estar atreladas a tal ponto.

Eu os acalmava: "tá tudo bem, eu já estou de volta"

Eu havia cometido uma falta grave. 

Pode até soar exagero da parte deles. Mas existe uma posição da Cruz Celta no Tarô, a número 8 por sinal, que diz sobre o modo como as pessoas, o ambiente de modo geral, estão recebendo, entendendo o seu processo e muitas vezes você pode não concordar. E eu sempre reflito com essa posição: se a alguém pensa de determinada forma sobre mim, isso está vinculado à minha ação. Há algo no que faço e sou que traduz isso, e faz com o que o outro me perceba dessa forma.

Eu de fato me mantenho saudável às vistas da ágora virtual. Escolho as fotos conforme a efeméride e o humor. E tenho dito pros meus amigos muito mais "estou online pro que der e vier" do que "estou aqui pro que der e vier".





é preciso mudar isso. radicalmente.
e eu vou. e quero.

mas como alguém que sempre gosta de me lembrar das coisas diz: "você é signo fixo, Isabela." 



É preciso vencer os limites daquilo que se é. É por essas e outras que a gente encarna e reecarna, cada hora de um jeito.

De volta ao facebook. 



Estou regressando aos poucos ao convívio dos de carne e osso, cheek-to-cheek.

Mas sem precisar me matar virtualmente, até porque, apesar de não parecer,  eu, definitivamente, não penso que sejam dois mundos apartados.

basta dar o salto da fúria para o amor,  da cegueira colérica para o discernimento que se desdobra em ação consciente. como diria meu companheiro: "da rede à rua".



Em tempo, como me complemento no ponto de vista do outro sobre mim, aqui vai, o que ele, meu companheiro diagnosticou minutos depois de ter com meu desespero:

"Hoje alguém que amo adoeceu. Não teve um surto psicótico, nem um ataque epilético. Mas adoeceu. Adoentou-se de tristeza pelo autoritarismo político da direção da UNESP. Aparvalhou-se de cansaço com o discurso ideológico da juventude (sic!) do PSDB. Ferveu náuseas com as novi-declarações linguísticas de Lobão (e, como estudiosa de cultura e politica dos anos 60, notou ressonâncias/reverberações para com a crônica jornalística pré-golpe). Sofreu física e psiquicamente uma trans/form/ação que dividirá águas. Kafkaneando-se comunísticamente o que há de bom... e sofrendo dores de parto do novo por-vir. O feed-retroalimentação bombardeou mais negação à vida que o contrário na teia antissocial. Da rede à rua."

E da rede à rua, me convidava a ler o menino Ruy Braga: O twitter e as ruas.

domingo, 12 de maio de 2013

treze de maio - começo do avesso


um papel foi assinado anteontem

lendas de ontem

dizem que com o papel tinha boas intenções

arrancaram a princesa de lá
e a república então garantiu que 
mãos e pés negros ficassem de fato
sem terra, sem dignidade por mais séculos e séculos a fio.



para a assinatura de uma princesa

a luta abafada e calada de muitos negros

- "intelectuais" inclusive.

um menino que gosta de se chamar Criolo
- assim como o aprendiz que se batiza AfroB depois de tanto racismo sofrido - 
gosta também de cantar assim:

"não baixa a guarda
a luta não acabou!"



Martha Barros


ps.: este é o primeiro dos meus papéis digitais.
assino nesse treze a lei áurea de libertar
minhas ideias
não quero mais ser túmulo delas.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Eu ainda me lembro da Isabela que desembarcou em Araraquara pela primeira vez em 2006...
A caminhada na ciclovia com o sol alumiando o verde do caminho que leva ao Campus da Unesp com o pensamento:
uau!
Eu to aqui.

Hoje eu me vou. Como já fui tantas e tantas e diversas vezes ao longo desses anos.
Que na boca
da noite
de
minh'alma
resista
sempre
esse gosto
de
sol.

Valeu, Araraquara.
Gratidão.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

sobre vipassana


Há dois anos atrás eu passei a virada do ano em silêncio. O que me lembrava que alguma coisa acontecia do lado de fora era o barulho dos fogos de artifício que vinham de algum lugar perto-longe daquela serra chuvosa onde eu me encontrava.
Ali eu fora aprender uma técnica, após das histórias ouvidas de amigos do peito e confiante nos conselhos do meu então companheiro.
Como um lugar preservado, no meio da serra a convivência com insetos e animais de toda espécie era inevitável. "Não matarás" - mesmo. Aprendi ali que é possível simplesmente respeitar o lugar do inseto. Tirá-lo com cuidado. Não deixar minha bolsa aberta, ou deixar meus sapatos virados pra não topar com um escorpião ali dentro. Até hoje eu tenho muito pesar quando mato um inseto. Tento desviar das formigas. Até a relação com os pernilongos mudou. A técnica consiste basicamente eu aprender a observar as sensações do corpo, numa espécie de compreensão física e íntima daquilo que as mais diversas correntes filosóficas e espirituais sempre dizem: TUDO É IMPERMANENTE. Tudo passa. Se você observar bem, tentando não se apegar ou ter aversão vai perceber (não sem alguma dificuldade) que até a coceira do inseto pousando em você, passa. Parece besteira, mas até a minha mania de me coçar sabe? aquela agonia que as vezes dá, até isso diminuiu drasticamente. Conseguir perceber como essa impaciência refletida em ato nada mais fazia que me machucar.
E como desperdiçamos palavras!!! Como as conveniências palavratórias podem nos afastar da sutileza da comunicação dos olhares. Estar em silêncio é parte da técnica. Não é o objeto do retiro. Silenciar o de fora, para ouvir o de dentro, para silenciar o de dentro. Observando as sensações, sempre. Observando os pensamentos.
Com a impossibilidade de falar e compartilhando espaços comuns, dividindo quarto, banheiro e mesa de alimentação com mulheres diversas, você aprende a observar os pequenos atos. Que um determinado jeito de olhar significa "desculpa". Que as vezes não precisa dizer "desculpa" - algumas coisas simplesmente acontecem, e não são por mal.
Estar com aquelas mulheres partilhando o silêncio me fez amá-las profundamente: ao final do curso, eu já sabia como algumas delas comiam, como fulana lavava a louça, o ritual de sicrana ao acordar.
Com o silêncio, seus atos se tornam sua companhia. Parece bobagem dizer isso, mas você presta atenção naquilo que está ou não fazendo. E como. Passo fundamental para se transformar, não?
Tendo como companhia os atos, coisas simples corriqueiras que desmerecemos ao longo da rotina, tornam-se prazerosas de fazer, perdendo sua aura de "ordinariedade estúpida": cuidar do lixo do banheiro, varrê-lo, lavar as louças, secá-las. Aprendi em silêncio a lavar melhor minhas camisetas, observando uma mulher simpática que só.

Quando eu finalmente pude falar, sentia a tonalidade da minha voz outra. A velocidade da fala, o jeito com o qual eu respirava. Minha postura, meu andar transformados. Pudemos enfim conversar. Com a exaltação da fala o ato pequeno deixou de ser a grande companhia: transformar em estética verbal as mulheres há dias amadas era tentador e prazeroso. Nesse dia o lixo do banheiro transbordou, e as louças demoraram o triplo do tempo para serem lavadas. Houve atrasos para entrarmos na sala de meditação e a concentração definitivamente era mais difícil.

Não foi sem dificuldades que eu passei pelo curso do Vipassana. Observar a si próprio, criar disciplina de meditação... Mas eu sabia porque estava indo e pelo que iria passar. Tinha menos a ver com experimentar algo exótico, do que uma oportunidade de aprender uma técnica que poderia me ajudar a viver melhor.
Talvez por isso minha experiência tenha registrado em mim um baú de memórias doces que saem de mim com um sorriso. Sempre.

Na seguinte reportagem, a jornalista Laura diz: "O professor Goenka prometeu em várias de suas palestras (sempre ministradas à noite) que o final do curso viria acompanhado por semblantes felizes, típicos de pessoas maravilhadas com as possibilidades abertas pelos ensinamentos recém-adquiridos."
Foi mais ou menos assim mesmo que eu me senti.

Não. Não voltei ao Vipassana. Não. é raro eu praticar aquela meditação com aquele rigor, tal qual nos é orientado.

Mas se me perguntarem sobre meus dias por lá, com certeza não será em nada parecido com a experiência da jornalista Laura.

Gratidão a todos aqueles que lá me serviram. Gratidão pelos ensinamentos.
Que todos os seres sejam felizes.