hoje, dani, te levei pra andar pelas ruas de beagá. frequento esse chão há tantos anos, bem antes mesmo de me entender por gente, mas poucas vezes havia devotado caminhada e suor pra essa cidade, como outrora fiz com teu canto aí no sul - nesse lugar onde se descobre o frio que habita dentro da gente.
um calor, um mormaço num lugar onde os prédios se avolumam e a brisa quase já não passa. mas ainda assim muito verde. o verde da praça que chamam liberdade e que acolhe gentes todas. caminhantes, estudantes. hoje mesmo vi dois meninos semi nus nuns de seus chafarizes. e os vi porque avistei os dois guardas municipais acabando com a festa da liberdade dos corpos naquele monte de água pública. na noite anterior fora teus versos que me fizeram companhia pros desassossegos que o sol em escorpião me reviram dentro da alma. hoje sentamos noutra praça-calçadão e proseamos com amizade de velha data - passando a limpo os tempos. ouvindo histórias do ontem que nos constroem no hoje. hoje chorei a agonia de não saber. mas dani, hoje caminhamos. você dentro da bolsa rasgada adentrou um prédio-galeria, pelo qual sempre havia passado e nunca adentrado. desses que há pouco conheci em são paulo com seus sambas e vinis, numa fresta de tempo e espaço. uma lacuna de resistência a um tempo que massacra, mas sem deixar de acompanhar essa vida pulsante e jovem que vibra num centro de cidade. era tanta cor, tanta gente bonita, diferente. era marrom. era de-verdade. o prédio antigo.
foi na mesa bem na encruzilhada que sentamos. eu você e ele, que me levara ali, dani. ele é desses moços que tem gosto do marrom. tem um riso fácil. uma sapiência delicada e sutil, disfarçada num olhar fugidio e profundo,e meio maroto. no sotaque arrastado. o encontrei me fotografando e desde então assim tem sido. mas o menino que se mascara com vestes de onça me mostra o óbvio com o sorriso de quem só faz o que é preciso e assim o é-menino, com a calça larga, a camiseta regata-homem das responsas, dos trampos. é um encanto que eu desvelo em silêncio e ele mal sabe das coisas importantes que ele me lembra de mim. que os rabiscos da sua parede me revelam lições importantes que me salvariam dessa agonia que me toma os dias, não fosse eu tão viciada nessa de sentir dor. ele é leve. mas uma leveza de quem sente dentro todo o peso. menino do cárcere e por isso, livre de dentro pra fora.
hoje dani, dançamos à luz lilás de luminosos na parede que delineavam rabiscos feministas. a noite era de rinha de MCs. mulheres do verbo e do ritmo. poesia. ação. eram tantas. tão belas. beagá me saudou no seu melhor. tinha suor. tinha vida. tinha luta. e estávamos lá.
enquanto te conto ainda sinto o gosto doce do afeto que me acende por dentro. depois de tanto machucado, por dentro, por fora. tanto descuido. tanto medo, hoje eu durmo com o gostoso que é sentir o fogo do gostar por dentro. uma cidade nova se abre. me reencontro com meu canto que gosta com a paciência eremita. ainda assim, tudo solto na plataforma do ar, mas hoje quis te contar, porque parece que me fiz alice das páginas de tuas maravilhas, dos teus versos que captam o entre do tempo e das coisas. é nessa fresta que amarra os dias e as coisas que esse dia se fez, que esse afeto se dá. peguei na sua mão e mesmo sem estar em ítaca, hoje eu me rabisquei na tua navegação, justo aqui nessas montanhas e bem longe do mar.
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quinta-feira, 5 de novembro de 2015
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
uma vez até morrer
A morte em cidade do interior é acontecimento. tudo bem. nem toda morte, mas tem ainda um poder de alterar rotina, de se espalhar pela cidade. não é indiferença pura e acontecimento banal de uma megalópole onde tudo se faz e se anda todo o tempo. não.
Na cadeira do dentista ouvia falar nA rádio da cidade não apenas o nome completo, mas também o apelido carinhoso, que o identificava pela cidade toda. poisé. o Toco morreu.
e a morte na cidade no interior tem um lugar. é. O velório municipal que fica junto AO cemitério da cidade. ali, onde se passa e se sabe se "alguém morreu de novo!?".
ali. na pracinha do cemitério, hoje cheia. e cheia. de todo um borburinho. a morte é local de reencontro, de alvoroço na tarde da cidade. é um murmuro, uma falação. um reencontro na urgência dos dias. A morte é um caderno com listas de nomes, óculos escuros, flores mortas. a morte são letras douradas. ali no salão que pede "silêncio-por favor-obrigado" em letras vermelhas e tortas na parede. a morte é um riso indeciso e um choro in-contido.
nessa tarde, a morte era vestir-se da última e grande paixão da vida. a camisa alvinegra, a cara que descansa depois de tanto sofrer. e não havia ali herói. havia um homem com seus tropeços, amigos, vícios, qualidades e contradições. e sua paixão: o atlético mineiro.
de repente, o silêncio se coloca e a morte desfila. o caixão vem carregado pelos amigos e filhos e rostos sérios, lágrimas e decorado com a bandeira do time do do coração, o único possível e cogitável em toda a passagem por aqui. de repente, a morte é a (in)(con)ciência dos passos lentos de cada um dos presentes de que essa caminhada todos farão. a morte é um belo pôr-do-sol entre as lápides da cidade, um vôo mais urgente que qualquer riso vivo de alegria e a vida um velório cheio na praça e na esquina.
e então, a paixão torna-se canto e alegria. todos os amigos cantam o hino do atlético mineiro. alto e forte e convictos. ali, mais que qualquer oração, discurso, o ritual de passagem, de brindar a vida, a cumplicidade, a riqueza da amizade, suas alegrias e dores, seu valer a pena, ali era aquele hino, palavras de ordem sobre vencer e lutar, sobretudo. síntese. e transbordamento.
"Clube Atlético Mineiro uma vez até morrer", sim. ali, até morrer.
e sim. choramos todos. atleticanos ou não. porque a morte por de ser um aperto no peito de quem escreve, mas a passagem... ah! a passagem é entrega. é re-saber-se. é só contínua-ação.
nossos mortos não nos devem nada. deixem que vão.
(bom descanso, Toco e boa caminhada.)
Na cadeira do dentista ouvia falar nA rádio da cidade não apenas o nome completo, mas também o apelido carinhoso, que o identificava pela cidade toda. poisé. o Toco morreu.
e a morte na cidade no interior tem um lugar. é. O velório municipal que fica junto AO cemitério da cidade. ali, onde se passa e se sabe se "alguém morreu de novo!?".
ali. na pracinha do cemitério, hoje cheia. e cheia. de todo um borburinho. a morte é local de reencontro, de alvoroço na tarde da cidade. é um murmuro, uma falação. um reencontro na urgência dos dias. A morte é um caderno com listas de nomes, óculos escuros, flores mortas. a morte são letras douradas. ali no salão que pede "silêncio-por favor-obrigado" em letras vermelhas e tortas na parede. a morte é um riso indeciso e um choro in-contido.
nessa tarde, a morte era vestir-se da última e grande paixão da vida. a camisa alvinegra, a cara que descansa depois de tanto sofrer. e não havia ali herói. havia um homem com seus tropeços, amigos, vícios, qualidades e contradições. e sua paixão: o atlético mineiro.
de repente, o silêncio se coloca e a morte desfila. o caixão vem carregado pelos amigos e filhos e rostos sérios, lágrimas e decorado com a bandeira do time do do coração, o único possível e cogitável em toda a passagem por aqui. de repente, a morte é a (in)(con)ciência dos passos lentos de cada um dos presentes de que essa caminhada todos farão. a morte é um belo pôr-do-sol entre as lápides da cidade, um vôo mais urgente que qualquer riso vivo de alegria e a vida um velório cheio na praça e na esquina.
e então, a paixão torna-se canto e alegria. todos os amigos cantam o hino do atlético mineiro. alto e forte e convictos. ali, mais que qualquer oração, discurso, o ritual de passagem, de brindar a vida, a cumplicidade, a riqueza da amizade, suas alegrias e dores, seu valer a pena, ali era aquele hino, palavras de ordem sobre vencer e lutar, sobretudo. síntese. e transbordamento.
"Clube Atlético Mineiro uma vez até morrer", sim. ali, até morrer.
e sim. choramos todos. atleticanos ou não. porque a morte por de ser um aperto no peito de quem escreve, mas a passagem... ah! a passagem é entrega. é re-saber-se. é só contínua-ação.
nossos mortos não nos devem nada. deixem que vão.
(bom descanso, Toco e boa caminhada.)
terça-feira, 26 de agosto de 2014
duas rodas para a liberdade.
"nos dias de hoje
o príncipe encantado
chega de bicicleta"
Ele ficou todo ofendido porque eu disse que parecia que tinha 15 ou 16 anos. O mocinho, quase meu vizinho, que veio trazer a pé, do outro lado da rua, o galão d'água estufou o peito e disse que tinha quase dezoito!!! Antes dessa prosa a gente conversou um cado, enquanto ele me ajudava com o galão imenso. E qual não foi o assunto que não a ciclovia nova aqui do bairro? Ele é entregador, uai. E anda de bicicleta o dia todo. Era segunda e ele tava me contando como passou o domingo agoniado porque "como lá fica fechado no domingo, eu não faço nada...".
E mais uma vez, como a ciclovia adiantou o rolê: "já vi muito entregador ser atropelado".
Sim, pessoas. É isso. Os escritórios chiquetosos de Higienópolis, ou mesmo os cults e arrumadinhos de Santa Cecília, ou mesmo nóis simprão, que dependemos de meninos como esse, pra entrega "rápida e ágil" daquilo que não podemos fazer porque o nosso tecido de vida está cada vez mais escasso... pois é! Essa demanda vem de Bike, meus caros.
Para quem até agora só viu o rolê da ciclovia como mais uma molecagem do Haddad ou coisa de classe média cult-eco-chata pare pra pensar nas pessoas que TRABALHAM de bicicleta.
E aí me vem à mente imediatamente a cena que vejo cotidianamente do alto da janela do Brás: trabalhadores bolivianos e todas as etnias que a gente finge que não vê, que não sabe que existe, mas veste o que eles, praticamente feito escravos, produzem... esses mesmo! andando de bicicleta aos montes. Os trabalhadores do Brás. Ou, pra ser internacionalista, rs, lembro das imagens do clipe de Us and Them, nós e eles. Gente que zanza de um lado pro outro, em bando, atomizados em multidão. Seja passos, seja as rodas da bicicletas.
Ontem ia ter uma manifestação com uma monte de bicicleta solta por aí. Aliás, Minhocão, esse monstro bonito que a gente teve que aprender a amar, em domingos de sol com gente andando e invadindo a cidade noutro ritmo que não o dos motores... uma pena que as pessoas o queiram abaixo pra ver se quando você cair, você não cai em cima da gente que dorme debaixo de você e já leva isso tudo embora...
devaneios a parte, fico aqui com a lembrança gostosa do menino, de camiseta amarela, pequeno pequeno, se divertindo de Skate na ciclovia aqui do ladim de casa, bem na hora do rush, com aquele mundaréu de gente sozinha enfileirada dentro de carros.
Pra rua, molecada!
![]() |
| "Criança na ciclovia, indo para a/vindo da escola sozinha em pleno Viaduto do Chá. Não, vc não está delirando... " Retirada foto e legenda da página do Facebook Movimento Ciclofaixa na Santa Cecília Foto de ALINE OS |
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Passo Torto vai à escola.
"Gostei da música, mas aquela letra é do inferno.
É que eles só cantam São Paulo
e São Paulo é o inferno."
Eu faltei quarta passada. É. Eu me mudei na segunda, cheguei de viagem domingo, brotou uma gig na terça, sem repertório e arranjei dessas febres no corpo que deixam a gente de cama. E eu dou várias aulas na quarta. Quarta [e sexta] é dia de ir pra ETEC e vejo por exemplo os 3 primeiros anos. Mas sou professora em tempos de Facebook e matutando sobre que fazer pra compensar a ausência, numa instituição escolar que não tem estrutura de professor substituto, eu acabei tendo a incrível ideia de passar uma atividade pra aula seguinte, pra não se desconectarem tanto da gente e ouvir um som. É. A ideia era ouvir SAMUEL, do Passo Torto e brisar. Escrever algumas linhas, com começo meio e fim, sobre o que entendeu da Canção, sensações, impressões, opiniões e relacionar - na medida do possível e da lembrança, com os assuntos da aula passada, quais sejam: estratificação, desigualdade e mobilidade social.
depois de aulas bem densas com segundos e terceiros - e o "pior" ainda estava por vir - entrei no Primeiro Ano A e eles cantavam quase em coro "Diiiiiiz Samuel?"
Fiquei feliz. Dei o corre de buscar o amplicador e eles se assustaram de me ver entrando com aquela coisa enorme dentro da sala de aula: "Já que é pra ouvir música vamo ouvir direito!" - porque as caixinhas de abelha do computador, ninguém aguenta.
Botei o play em Samuel enquanto recolhia os trabalhos. "Professora... eles são amadores?" "Nãa..." " Quer dizer, eles não são muito famosos...?"
Dificilmente eles vão aparecer no Faustão ou a música deles vá tocar na próxima novela das 9, mas eles são uma referência importante pra música que é feita aqui em São Paulo hoje e tem uma certa visibilidade num circuito que frequentam. - eu disse.
E apresentei didaticamente: na lousa: e dizendo: Passo Torto é: Kiko Dinucci - setinha Metá Metá - setinha Juçara Marçal e Thiago França (inclusive tem uma versão de Samuel deles).
Rodrigo Campos (São Mateus e Bahia), Romulo Fróes (que tá lançando disco novo esse mês. é? esse mês. ontem saiu a primeira canção <3) "Nossa, professora, você conhece eles?" [sim, a professora boba sorria.]
Marcelo Cabral - que dentre outros muitos trabalhos é produtor do disco do Criolo, aquele último, foda e desse disco que ele tá fazendo agora - ele era do Skate, gatinho - olhos se arregalam! Criolo. Essa gente, parte dela, cresceu pertinho do Kléber: dou aula na zona Sul, fiii.
e eles ganharam duas vezes o prêmio TIM de música brasileira... (porque argumento de autoridade em alguma medida, sempre, ou não, funciona)
Tem poucas críticas sobre eles...: "é claro. fiz de propósito, que se não vocês iam copiar". Eles ouviram. Passo Torto. e foi uma experiência incrível ver aquela molecada de 14, 15 anos me contando como foi aquela sensação de fruição estética inédita:
o violão! - como o violão chama atenção. os arranjos. "um jogo dos instrumentos" a tentativa de encaixar em algum gênero conhecido que explique, o que era "aquele samba.... mas uma MPB"... "dá mais destaque pra letra", salientava outro.
a cozinha fez falta pro outro primeiro ano.
E aí passamos pros depoimentos deles sobre a sensação de pensar e escrever sobre aquela letra. Conheci vários Samuéis: o menino rico deslocado, vários meninos da Fundação Casa, meninos da Zona Leste, Migrantes nordestinos, adultos, crianças, jovens de aventura pelo Centro.
E eles? quantas vezes o muro não foram eles mesmo que sentiram?
"Sabe o que é, terceiro ano, eu estou com - desculpem a expressão - tesão por São Paulo"
Poder conversar com esses meninos sobre essa cidade, sobre toda a imensidão que ela é, depois de estar aqui e vivê-la, fazer isso através da canção do Passo Torto, foi qualquer coisa.
"ó, e eles estão pertinho de vocês. Estão fazendo essa semana e na outra uma vivência no Sesc Santo Amaro com a Ná Ozzetti. tá lindo. queria eu ir..." - pertinho? é. considerando que eu estou em Santa Cecília, pra vocês é pertinho.
E, que ironia do destino, não é que hoje eu fui buscar minha máquina fotográfica na Vila Guilherme? E vê bem se eu não andei da Luz até lá, lendo os meus meninos brisarem no Passo Torto, no "Vila-Sabrina-onze-cinco-seis"?
Mas foi sentada na Vila dos Ingleses, já com a máquina resgatada, à espera de um sorriso largo que me saísse pela porta, que eu li essa análise que reproduzo aqui procês, meninos que estão fazendo lição de casa em público e hoje, foram comigo pra escola:
"PASSO TORTO - SAMUEL
Impressões
Antes de começar a contar minhas impressões sobra a música "Samuel" já vou avisar que estou fazendo isso às 19horas e meio que eu acordei com o pé esquerdo e parece que o dia meio que tirou pra me sacanear, então minhas impressões podem ser meio distorcidas, errôneas e depressivas. Vamos começar.
A canção Samuel feita pelo grupo Passo Torto, (que na qual eu não conhecia, obrigado Isabela, agora conheço uma outra banda com um som legal) tem um ritmo meio samba com MPB, algo que eu acho fantástico e de ótimo bom gosto.
Quando a música começou eu tava de cara fechada e quando começou o violão eu arregalei os olhos e pensei: "cara, que daora" e quando o vocalista começou a cantar eu achei interessante. Vou explicar o porquê.
A letra é simples, quando a música termina você consegue entender seu propósito. Ela fala de um cara chamado Samuel que nunca tinha ido a um lugar, talvez o centro, se bem que ele cita a Augusta e a única que eu conheço é uma rua com uns bares e clubes, então eles foram à um clube! Certo? Por enquanto fica assim. Provavelmente, eles nunca foram lá, pois são pobres e a música dá a entender isso, ou eles são uns playboys, mas acho pouco provável.
A letra é simples, quando a música termina você consegue entender seu propósito. Ela fala de um cara chamado Samuel que nunca tinha ido a um lugar, talvez o centro, se bem que ele cita a Augusta e a única que eu conheço é uma rua com uns bares e clubes, então eles foram à um clube! Certo? Por enquanto fica assim. Provavelmente, eles nunca foram lá, pois são pobres e a música dá a entender isso, ou eles são uns playboys, mas acho pouco provável.
A música cita alguns amigos do cantor como o Deto, que é um cara doido pra... que pelo visto gosta de zoar e causar, tipo tirar sarro dos guardinhas e roubar coxinhas, pera, esse é o Nikimba.
Até aí, Samuel ainda não deu sua opinião sobre o local, e nem se quer vai dar. Nesse ponto eu já tava curtindo muito a música e somos apresentados ao Nikimba, o cara do apartamento 23, que é cabuloso que monta atrás de busões e ele sim rouba coxinhas, o Deto rouba moedas de homens de lata.
Depois disso a música fala "Por que cê nunca veio aqui/Quem te prendeu, quem te impediu/ qual foi o muro que subiu/ Por que não atravessou [...]" Nessa parte dá a entender que Samuel nunca tinha ido ao local não porque ele não quis, e sim porquê ele não podia, talvez por ser pobre.
Nessa a música acaba e eu fiquei surpreso, pensei que eu ia ouvir, fazer esse trabalho e esquecê-la, mas não, eu gostei muito. Agora se esse meu texto ficou bom ou não, eu ainda não sei, provavelmente eu não entendi o que a música queria passar, mas beleza, a música é boa e agora eu acabei de ouvi-la pela 5ªvez seguida, sério, tava ouvindo agora.
Ps.: De qualquer forma, perdoe minha linguagem informal, eu só consigo fazer textos não tão ruins assim."
***
AH! Em tempo, Rodrigo, Kiko, Cabral e Romulinho: a Katarina (ou foi a Duda?) veio toda convicta dizer que ia tentar ir vê-los no Sesc Santo Amaro. Eu postei no nosso grupo no face... Se por acaso, aparecer uns pedacinhos de luz, que me fazem ter vontade de viver ainda mais, por lá, sorriam pra eles.
Ah! a epígrafe é de uma aluna, pra cuja sala não consegui dar aula hoje. Ela disse aquilo ali, na lata, na rua. no acerto de um passo torto.
Um beijo grande,
Isabela.
![]() |
| "Hj ganhei de presente uma letra genial do Rodrigo Campos para uma música nova minha, ja pré levantada em nossa Residência Passo Torto Sesc Sto.Amaro !!" postou hoje Marcelo Cabral feliz da vida. |
sábado, 4 de janeiro de 2014
naquela mesa
Nunca se abraçavam. Ele via a barra da saia-de-secretaria passando apressada pela casa: papel-higiênico-nariz escorrendo, roupa-de-cama, frango assado, compras do mês, psicólogo. A voz alta nunca gostou de portas trancadas. Pudesse, invadia o banheiro e mesmo na hora mais íntima, na privada, no cheiro, se imisucuiria por cada poro. Cada cômodo da casa, por sua vez, era uma mistura de presença e ausência, plena. Não como o copo, que vazio está cheio de ar. Mas a superficialidade dos movimentos ativos e penetrantes, nutriam no menino uma cadeia de esperanças de paragens mais demoradas. E quieto, um dia, mesmo à contragosto de seus pulmões, ele foi embora.
Levou na mala o lápis que ela apontava convicta e impaciente sempre que ele gentilmente tímido convidada ao ofício: "mãe, me ajuda com a lição?" - ela não sabia das confissões que tocava no rasgar o grafite desgastado contra a madeira. Alto, levava os pulos dados, incessantes, nas quadras e as braçadas salgadas. Levou dentro uma ressaca de alto mar.
Atravessou o deserto e deixou no seu rastro de água de lágrima. Venceu as fronteiras dos sofás vigiados e amava sob as máquinas de lavar. Escrevia cartas, poemas secretos, cravava os dentes nas coxas, nos decotes.
Ela via pela janela a vida passar, feito a Carolina. E da vizinha Janaína, com seus cabelos de espuma, sabia pouco ou quase nada, exceto das ferrugens a consertar. Os cômodos da casa extensões suas. Suas nervuras. Convicta, abalada, abandonada. Ferrugens na alma - se ela soubesse como Janaína, sua vizinha, é boa nessas feridas.
A barra da saia dela entretanto, não sairia de dentro, também, assim, tão fácil.
Pouco também avança essa escrita que sombreia os laços do real com pitadas blasè. Agora mesmo estavam ali, ao redor da mesma mesa, que o mundo roda... rememoravam no idioma natal - ventre, olhar, suor e partigiano - viagens que nunca fizeram, com roteiro de filme que nunca vi. Nas frestas das portas, dá pra espiar um amor cansado, mas vívido. De tropeços, com mancadas, muletas, aparelhos sonoros, controles, ventiladores, trancas nas portas, as lágrimas que rolam são afeto re-contido. Ele, meio bobo, com palavras nas mãos, ainda espera o abraço. Sem sombra, nem pavor, um milagre bate na porta: descem juntos pelo elevador e de fronte à porta de vidro, ele, não mais menino, e ela, não mais de saia, se tocam, se aninham e caminham com dedos entrelaçados pela orla da praia.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
pedaço de sol na lua de natal
Mais tarde, era a Lelê ainda quem estava toda acordada penteando o
cabelo da boneca que a irmã ganhou, toda cuidadosa enquanto nos ouvia
falando a torto e a direito. Flagrei o olhar hipnotizado:
"Você gosta de
fogo, Lelê?"
"Mas você não acha bonito? Olha só? Ele brilha! Mas não dá pra pegar? Ele é quente... tem que tomar cuidado, mas o fogo é tão legal".
"É um pedaço de sol"
E os olhinhos e as
mãos repetiam o gesto
"Sobe Sol, Desce Sol, Sobe Sol, Desce Sol"
- e eu besta de ver e ouvir um Manoel de Barros ali em ato - a verdadeira poesia está na vida de fato.
"Sobe Lua, Desce Lua"
Sabia que existe uma Lua dentro de você? - é?
É. Ela tá atrás do seu umbigo.
Dentro
de toda menininha tem uma Lua. No Tio Lulu não tem Lua porque ele é
menino. Mas na sua mãe, em mim, na Tia Mari, na Renatinha, na Juju...
Só que a sua Lua ainda é filhotinha. Quando você crescer você
vai ver que a sua Lua se mexe lá dentro... É. A da mamãe, a da Tia Lulu
já é grande se mexe. A da Tia Bel é grandona e já não mexe mais.
Mas toda menina tem uma lua no umbigo.
Toda menina
lua
tem.
oração de natal
[
Quero saber do meu pedaço de Sol, percebê-lo como percebo minha lua. e fazer com que ele me aqueça na escuridão e me guie nas aventuras do seguir sonhos e equilibrar o otimismo da vontade.
]
domingo, 24 de novembro de 2013
são passos.
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| Foto Clandestina |
Já habitante da pauliceia, eu fui caminhando da (já) saudosa rua Clélia até a Serralheria ali na Guaicurus. A Serralheria é um terreiro. Um terreiro numa sexta-feira a noite. O palco pequeno, o público entre sentado e em pé. Mas estávamos próximos, público e artistas. Com alguns meses de lançamento apenas, o show do álbum "Passo Elétrico" ainda tinha gosto de estreia. O disco se confundiu com junho, com as ruas cheias, em choque, em transe. O show em ciclo abria e fechava em barulho, dissonância. "Passarinho esquisito" abriu para "Um homem só" e sua bonita solidão, compartilhada com as mulheres, "Isaurinha", na crônica recheada de malícia nos sussurros de Rodrigo, entre Belém, Natal, Portugal, com vergonha do amor e "Helena", nas confissões da cidade que é um rádio por dentro, de prédios que têm varizes, bronquite e que também morrem. Na retomada do álbum anterior a música que de fato é uma linha de continuidade entre um álbum e outro: "A música da mulher morta" - com direito a piadinhas de música de sucesso... o show fluiu entre a belíssima "Tempestade" de Fróes e Cabral que, dessa vez, além de ter um encarte só pra si, dava o gosto de sua voz. Do disco antigo "Da vila guilherme até o imirim" tentamos puxar um coro, Rômulo até deu a deixa..., "Sem Título, Sem Amor", assim como "A música da mulher morta", era canção que ligava um álbum noutro, a proposta da ironia, da frieza, do escárnio, da frieza, da estranheza da existência torta e cinza, que atinge seu ápice no sambão de cavaco e violão, Bis do espetáculo, "Rá rá rá":
De lhe dizer atrocidades
Mas essa é a minha maior qualidade
Deixa eu gozar
Enquanto eu morro
De tanto rir
Rá rá rá
e "Cidadão" (uma das canções mais bonitas, na minha humilde opinião.)
![]() |
| Foto de Alessandra Cabral |
Escorrendo contradições, por suas paredes e vidros, o evento que ali acontecia era o Conexão SP (e acontece ainda enquanto escrevo), patrocinado por operadora de celular. O apresentador se gabava ao nos lembrar de que estávamos no Centro. E de fato, estávamos e tudo de graça. Mas os muros de Samuel são construídos dentro - é "Samuel" apareceu no teatro nas vozes de Kiko e Rodrigo. O evento divulgado na internet solicitava que imprimíssemos os ingressos - gratuitos. Seguranças imponentes - simpáticos também, devo dizer que sorri muito pra linda negra que se chateava por ter que me revistar a cada entrada e saída - eram o aviso: aqui não entra qualquer um. "Diz Samuel, que que cê pensou?"
Atrasos. Eu pensei que não veria o quarteto, já que cheguei pralá do anunciado - mas, como sou besta! festival: atrasos. Mais de horas. Entramos no teatro e então a pergunta "Gente, já pode começar?"
A sala de concerto é invadida pelos barulhos de "Passarinho esquisito". E o show vai. Muita luz, pouca luz, luz que não dialogava. Diálogo em mímica com a mesa: festival, som nunca nos eixos de -cara "abaixa aumenta" dedo apontado pra Marcelo - de fato baixo, baixo. Ao longo do show, entre uma canção e outra, as falas diretas com a mesa.
- mas pro público, os dizeres das canções. apenas.
Há quem desqualifique por aí a chamada música barulhenta. Mas por mais que eu quisesse um show do Passo Torto em pé, dançante - eu não me aguentava nas cadeiras e liguei o foda-se cantando todas as letras que sabia! - faz sentido que aquele show aconteça ali, sentados, assistindo. São barulhos em texto e contexto, com sentido, com tempo e razão de ser, cada um dos detalhes. E quem conhece as canções - sim, CANÇÕES - espera por aquele riffie naquela hora e os cantarola junto. - Exige-se concentração. E estarem à vontade, com som, retorno e público.
Era o festival. Com shows acontecendo simultaneamente. A contradição do show e do lugar: as pessoas se movem. Levantam. Deixam o lugar, o show: "Não pode sair durante o show pessoal", Marcelo disse antes de começarem justamente "Samuel". Aplaudidos logo na introdução e ovacionados no fim. "Viu? Quem saiu perdeu", dizia Kiko.
Mas eu, euzinha aqui, senti falta do estarem em casa como no terreiro da francisca ou da serralheria. Pra gente não teve nenhum mísero "boa noite" - tudo bem, vai. o clima do show. mas um boa-noitezinho?
![]() |
| Foto de Alessandra Cabral |
eta menina de sorte de ouvir essas coisa assim novinha.
passo torto ao deus dará dos Cidadão Esquizofrênico ali bem perto, no Centro. tão perto e tão longe da música enformada da dor encarnada de existir na contraditória são paulo. são palcos. são passos.
ps.: e é claro que eu sambei "Rarará", de pé e sem pudor em pleno teatro. que agora não regulo mais mixaria.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
"de mãos dadas"
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
gozada essa vida. minha mãe sempre gostou de dizer que eu tenho "sanguinho che guevara" - o que ela ainda pensa principalmente quando surta em casa quando vê meus posts sobre manifestações e afins. desde miúda eu escuto essa frase (tá. desde mais miúda ainda). eu me lembro bem. estava na 6ª série de um dos colégios mais conservadores da cidade. aliada a outro aquariano e um monte de amigos, a gente tava disposto a ressuscitar o Grêmio da escola. pra isso, eu criei uma plataforma dos meus sonhos. eu era a "vice" da chapa. o presidente, em pleno colegial-ensino médio, tava assinando embaixo qualquer coisa que eu pusesse ali. coitado. por minha causa ele sofreu acusações seríssimas em plena sala de aula. professoras dizendo que ele tava mexendo onde não podia. - é que eu, desavisadamente avoante que era/sou?, propunha uma nova forma de se pensar a estrutura da escola. eu propunha aquilo pelo qual a USP/UNESPs da vida viriam a fazer um mundo de greve, sem nem ter ideia do que isso era e sua periculosidade: PARIDADE. Paridade entre pais, professores, funcionários. meu projeto se chamava "de mãos dadas". é. eu ainda não fazia ideia do "Sentimento do Mundo" do Drummond.
e, evidentemente, não ressuscitamos grêmio algum. muito menos as pessoas se deram as mãos. anos mais tarde eu sairia pela porta dos fundos da mesma escola por conversar sobre como cada vez mais o ensino público alfabetizava menos... (e voltaria com o rabo entre as pernas, disposta a passar no vestibular logo).
e por que tô dizendo tudo isso?
porque hoje acordei com "mãos dadas" na cabeça e no coração. e as pessoas postaram. e comentaram. e toda vez que falo essas duas palavras juntas eu lembro da minha treta de 12 anos de idade.
Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
terça-feira, 8 de outubro de 2013
pensa num cara... de 100 anos.
Imagina uma pessoa que nasceu em 1913. A família da mãe adorava uma seresta. A própria mãe tocava piano. Os tios viviam "vadiando". O pai era chegado nos versos. Foi estudar em colégio rigoroso. Imaginem que o menino respirou ares integralistas na universidade ao mesmo tempo em que cantava marchinhas inéditas no Carnaval. - as mesmas que hoje em dia a gente repete nostálgico de um passado que a gente nem viveu.
Não era muito difícil entender que o menino resolvera fazer Direito - um dos cursos mais frequentes dos poucos do começo do século passado. Ele tinha sua turma de amigos e gostava de cinema e conversava com os amigos sobre. - queria ser cineasta.
Mas desde cedo roubava os versos do seu pai pra dar pras namoradinhas - é gostava de mulher e como! E então publicou seu primeiro livro de poesia antes mesmo de se formar. Só com 20 anos.
E foi aplaudido. A comunidade católica gostou - afinal menino fora formado em seu ambiente.
Menino lança outro livro e tal e coisa e arranja uma bolsa pra estudar literatura em Oxford. Acho que foi de tanto ler os sonetos de Shakespeare no original que ele desembestou a fazer os mais belos sonetos que a língua portuguesa conhecera desde Camões. Um soneto a la ingleses e não como era a moda francesa aqui no Brasil.
O menino era libriano. Doido. Casou por procuração acredita?
de volta ao Brasil precisava começar a trabalhar, moço de família. E o convencem ao tal do concurso público (pouco mudou de lá pra cá). E na época se passava no Itamaraty por concurso. E passou. E seu primeiro posto foi nada mais nada menos que nos EUA. Um doce nas mãos da criança. O fanático por cinema ficou pertinho, pertinho de Orson Welles e de Hollywood.
O menino, que agora já era um homem de família com filha e tudo mais, ouvia Jazz. Foi conhecendo a turma que fazia aquele barulho maluco, filho do blues. Imagina então um cara que testemunhou de perto o racismo norte-americano? bem diferente do nosso? Viu um menino negro ser morto porque assoviara pra uma mulher branca. Soube da história de uma cantora negra que morreu porque não a receberam no hospital de brancos pós acidente de carro.
Um homem que viu a II Guerra começar e assombrar o mundo. Escrever crônicas sobre o desejo de paz, mesmo tendo aprendido com o livro do Eclesiastes que existe "tempo de guerra, e tempo de paz".
Imagine um homem que precisou viajar com um gringo pelo Brasil a fora para cair em si de que o seu país era um lugar repleto de contradições e deixar de andar à direita integralista para dar passos mais avermelhados à esquerda.
Imagine então um homem que vai pra França e lá encontra um cara maluco pra produzir alguma coisa de cultura brasileira. E aí esse homem se lembra de uma noite em que ouviu a batucada vinda do morro e baixou nele a vontade de transpor o mito de Orfeu pro morro carioca? O amigo ficou maluco e fala pro homem: poxa, bora filmar isso! e aproveita pra montar essa peça de teatro no seu país, uai!
O cara então um poeta respeitável, diplomata ainda por cima, comete a ousadia imensa de levar pros palcos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro um elenco de atores negros. E ali era só o começo da ousadia. - da qual sai endividado. O homem lembrou do menino que sempre gostou muito de música. E já que a peça era sobre um músico, por que não escrever os versos também a serem cantados? E por que não arrumar um parceiro pra musicar?
O homem então - que já era poeta, cronista, crítico de cinema, diplomata - vira definitivamente um compositor popular. Poesia e Música: Orfeu.
E aí então seus versos ganham os versos mas também os palcos. Ele vai brigando com o terno e a gravata e cantando...O homem então repleto de amigos faz música com gente viva, gente morta - nem Bach escapou. Faz música até sem saber que faz: musicam ele. O menino criado cristão agora era homem que canta orixás.
A essa altura o homem perde o emprego. Vira showman de vez. A essa altura o cara já casou um monte de vezes. A essa altura botaram o nome dele na reinvenção da música popular. A essa altura já tão falando mal dele: era um baita poeta e agora fica aí fazendo musiquinha com esse menino novo.
Muda pra Bahia. Fica mais chegado ao povo de Santo.
Imagina só um homem que fica falando por aí que é o branco mais preto do país.
Pensa num cara que casa nove vezes e não para de escrever nem canção e nem poesia - e que se morria de medo de avião.
Agora imagina ele sessentão Todo de jeans e bata? cantando em universidades e lendo um poema seu pros operários paulistas em pleno Primeiro de Maio?
Imagina um cara que não esquece sua veia católica e subverte A Arca de Noé pros pequenos, entre versos e canções?
Pensa num cara que tinha a casa aberta? Um brother mesmo... que viva cheio de amigos e sempre sentindo saudade deles... morrendo junto a cada vez que um morria.
Imagina um cara que morreu num dos seus lugares preferidos: a banheira - lugar em que gostava de escrever...
pensa só.
Agora pensa que tem músicas suas sendo cantadas num monte de lugar do mundo: por todos os continentes. Pensa que ele, que tinha um apreço formal a ponto de subverter as formas mais clássicas da poesia, é muito mal quisto nas universidades do seu país. "Poeta menor. Pequeno".
Poetinha. - camarada - que foi homenageado ainda em vida pelos seus.
De que vale seus sonetos serem recitados a torto e a direito e suas canções? Pensa numa dificuldade tremenda de achar bons textos por aí que falem dele? Pensa que no ano de seu centenário há vários programas de rádio contando sua história...
penso que no ano em que ele faz cem anos, se pá faz tanto frio em São Paulo quanto fazia na fria madrugada em que ele nasceu.
Não era muito difícil entender que o menino resolvera fazer Direito - um dos cursos mais frequentes dos poucos do começo do século passado. Ele tinha sua turma de amigos e gostava de cinema e conversava com os amigos sobre. - queria ser cineasta.
Mas desde cedo roubava os versos do seu pai pra dar pras namoradinhas - é gostava de mulher e como! E então publicou seu primeiro livro de poesia antes mesmo de se formar. Só com 20 anos.
E foi aplaudido. A comunidade católica gostou - afinal menino fora formado em seu ambiente.
Menino lança outro livro e tal e coisa e arranja uma bolsa pra estudar literatura em Oxford. Acho que foi de tanto ler os sonetos de Shakespeare no original que ele desembestou a fazer os mais belos sonetos que a língua portuguesa conhecera desde Camões. Um soneto a la ingleses e não como era a moda francesa aqui no Brasil.
O menino era libriano. Doido. Casou por procuração acredita?
de volta ao Brasil precisava começar a trabalhar, moço de família. E o convencem ao tal do concurso público (pouco mudou de lá pra cá). E na época se passava no Itamaraty por concurso. E passou. E seu primeiro posto foi nada mais nada menos que nos EUA. Um doce nas mãos da criança. O fanático por cinema ficou pertinho, pertinho de Orson Welles e de Hollywood.
O menino, que agora já era um homem de família com filha e tudo mais, ouvia Jazz. Foi conhecendo a turma que fazia aquele barulho maluco, filho do blues. Imagina então um cara que testemunhou de perto o racismo norte-americano? bem diferente do nosso? Viu um menino negro ser morto porque assoviara pra uma mulher branca. Soube da história de uma cantora negra que morreu porque não a receberam no hospital de brancos pós acidente de carro.
Um homem que viu a II Guerra começar e assombrar o mundo. Escrever crônicas sobre o desejo de paz, mesmo tendo aprendido com o livro do Eclesiastes que existe "tempo de guerra, e tempo de paz".
Imagine um homem que precisou viajar com um gringo pelo Brasil a fora para cair em si de que o seu país era um lugar repleto de contradições e deixar de andar à direita integralista para dar passos mais avermelhados à esquerda.
Imagine então um homem que vai pra França e lá encontra um cara maluco pra produzir alguma coisa de cultura brasileira. E aí esse homem se lembra de uma noite em que ouviu a batucada vinda do morro e baixou nele a vontade de transpor o mito de Orfeu pro morro carioca? O amigo ficou maluco e fala pro homem: poxa, bora filmar isso! e aproveita pra montar essa peça de teatro no seu país, uai!
O cara então um poeta respeitável, diplomata ainda por cima, comete a ousadia imensa de levar pros palcos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro um elenco de atores negros. E ali era só o começo da ousadia. - da qual sai endividado. O homem lembrou do menino que sempre gostou muito de música. E já que a peça era sobre um músico, por que não escrever os versos também a serem cantados? E por que não arrumar um parceiro pra musicar?
O homem então - que já era poeta, cronista, crítico de cinema, diplomata - vira definitivamente um compositor popular. Poesia e Música: Orfeu.
E aí então seus versos ganham os versos mas também os palcos. Ele vai brigando com o terno e a gravata e cantando...O homem então repleto de amigos faz música com gente viva, gente morta - nem Bach escapou. Faz música até sem saber que faz: musicam ele. O menino criado cristão agora era homem que canta orixás.
A essa altura o homem perde o emprego. Vira showman de vez. A essa altura o cara já casou um monte de vezes. A essa altura botaram o nome dele na reinvenção da música popular. A essa altura já tão falando mal dele: era um baita poeta e agora fica aí fazendo musiquinha com esse menino novo.
Muda pra Bahia. Fica mais chegado ao povo de Santo.
Imagina só um homem que fica falando por aí que é o branco mais preto do país.
Pensa num cara que casa nove vezes e não para de escrever nem canção e nem poesia - e que se morria de medo de avião.
Agora imagina ele sessentão Todo de jeans e bata? cantando em universidades e lendo um poema seu pros operários paulistas em pleno Primeiro de Maio?
Imagina um cara que não esquece sua veia católica e subverte A Arca de Noé pros pequenos, entre versos e canções?
Pensa num cara que tinha a casa aberta? Um brother mesmo... que viva cheio de amigos e sempre sentindo saudade deles... morrendo junto a cada vez que um morria.
Imagina um cara que morreu num dos seus lugares preferidos: a banheira - lugar em que gostava de escrever...
pensa só.
Agora pensa que tem músicas suas sendo cantadas num monte de lugar do mundo: por todos os continentes. Pensa que ele, que tinha um apreço formal a ponto de subverter as formas mais clássicas da poesia, é muito mal quisto nas universidades do seu país. "Poeta menor. Pequeno".
Poetinha. - camarada - que foi homenageado ainda em vida pelos seus.
De que vale seus sonetos serem recitados a torto e a direito e suas canções? Pensa numa dificuldade tremenda de achar bons textos por aí que falem dele? Pensa que no ano de seu centenário há vários programas de rádio contando sua história...
penso que no ano em que ele faz cem anos, se pá faz tanto frio em São Paulo quanto fazia na fria madrugada em que ele nasceu.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
it's her fault
acordou fedida. há duas madrugadas ela ronda pela cidade entre bares, sambas, cartas, amigos, meia-luz-inteira. fede gato. bafo. descabelos. babas. acordou com o peso das fumaças. olhava pra dentro e via o caos. do lado de fora o devir. andar.
a roupa apertada de quem precisava de agilidade nos movimentos. suja de molho. embassssssssssar.
pé-ante-pé ela deixa mais um quartinho provisório, um dos tantos da vida de andarilha.
se olha no espelho. água na cara. caça a chave. anda.
anda.
anda.
anda.
à espera do farol abrir ouve o caminhão ao lado
"noooossaaa" e depois de captar o tom de cantada barata mal consegue distinguir os fonemas-sílabas-desaforos.
o sinal não abre. o caminhão passa a seu lado. o infeliz completa o ato: bota a cabeça pra fora e vai contorcendo o pescoço. vê então uma cara amarrada. emburrada.
anda.
anda.
anda.
sobe escada.
desce escada.
passa.
para. compra.
"hmmm. nossa que gostosa!"
ele diz depois de cruzar com ela
que dessa vez grita:
"que merda, hein?!!!"
salta. escada. anda.
respira.
calcula.
reza. medita.
esquece.
assombra.
enraivece.
bafo. cecê.
suvaco cabeludo.
"hmmmm que delícia hein?"
"PUTA QUE PARIU!!!!!!!!"
anda. espuma. raiveja.
fiu fiu. - CHEGA de fiu fiu
merda.
existir.
a roupa apertada de quem precisava de agilidade nos movimentos. suja de molho. embassssssssssar.
pé-ante-pé ela deixa mais um quartinho provisório, um dos tantos da vida de andarilha.
se olha no espelho. água na cara. caça a chave. anda.
anda.
anda.
anda.
à espera do farol abrir ouve o caminhão ao lado
"noooossaaa" e depois de captar o tom de cantada barata mal consegue distinguir os fonemas-sílabas-desaforos.
o sinal não abre. o caminhão passa a seu lado. o infeliz completa o ato: bota a cabeça pra fora e vai contorcendo o pescoço. vê então uma cara amarrada. emburrada.
anda.
anda.
anda.
sobe escada.
desce escada.
passa.
para. compra.
"hmmm. nossa que gostosa!"
ele diz depois de cruzar com ela
que dessa vez grita:
"que merda, hein?!!!"
salta. escada. anda.
respira.
calcula.
reza. medita.
esquece.
assombra.
enraivece.
bafo. cecê.
suvaco cabeludo.
"hmmmm que delícia hein?"
"PUTA QUE PARIU!!!!!!!!"
anda. espuma. raiveja.
fiu fiu. - CHEGA de fiu fiu
merda.
existir.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
sobre gatos (e uma declaração de amor)
Hoje conheci Haku. Minto. Eu já vira antes. É branco como Gandalf ao fim. Sensível como aquela elfa branca... hm... que fez o Bob Dylan no filme do Scorsese. O Nego é canceriano. tá junto.
"Pronto nega. Era o que faltava pra você virar bruxa."
Um gato.
Leon mija nas minhas coisas. Todas. E eu viajo. Muito. E ele não gosta disso.
Entre amanhecer rumo a Marília terça-feira e chegar em SP no fim de tarde da quarta e encontrar - mesmo tendo se certificado de fechar a porta - a cama toda mijada pelo Leon é qualquer coisa de muito amor. Uma das coisas que vim buscar em SP foi a escaleta. Ao colocá-la na na mochila, sinto o rastro de Leon. - mijara nela também.
(preciso castrá-lo e ele me ama: combinação fatal.)
Há pouco disse que "minha primeira gata foi à distância", mas menti. É que na bem da verdade, foi bem de perto. Afinal de contas a Passarinho pariu nas minhas roupas, ora. Eu não estava em Araraquara quando aconteceu. Eu e ela não tínhamos lá a melhor relação do mundo, mas uma fêmea parir nas roupas de outra fêmea deve dizer qualquer coisa sobre a afinidade entre elas...
Passarinho enlouqueceu sozinha e muitos filhos na Moradia.
O Patas... uma de suas crias... sempre me lembro dele bebendo água do filtro da Dona Adriana - gato sortudo! (Aliás, bons felinos reunidos naquele belo lar)
Mas é uma menina de olhos azuis. arregalados. A primeira me escolheu antes.
Quando comecei a falar bastante com o Beto ao telefone, a Lara ia pra perto dele. Era ouvir minha voz que ela se aproximava, mais e mais. Vez ou outra bastava uma mera conversa comigo via computador que ela já se aninhava nele.
Quando (finalmente) eu estive em Londrina, a afinidade se confirmou. A registrei numa das poucas fotografias que fiz daquele fim de semana. Segunda-feira, antes de pegar o ônibus que - como hoje, fora prorrogado da noite pra manhã - estava eu ajeitando a mala, quando peguei a máquina fotográfica. Olhei da porta do quarto de hóspedes (onde ele tivera a audácia de deixar as minhas coisas quando cheguei) e via os dois me vendo partir: Beto e Lara.
Beto não sabia que eu fotografava. Me olhava como quem vê alguém que não se sabe sendo observado e, por isso, mirar os olhos dele através do visor da máquina era olhá-lo, fundo, entregue, como a quem não se sabe sendo visto.
Lara ao contrário encarava a máquina. Observava e se sabia observada pela coisa.
Eis a foto: os dois me vendo partir. Cúmplices. Londrina é o nosso lugar. Totem E Tabu. - tenho vontade de voltar pra lá para vê-la.
Mas antes do Leon ainda houvera outro. Gato que nem existia(?). - Le chat du Rabbin - lêcháderubã. [Filme que nos apareceu quase que como acidente, numa das nossas tarde mais belas. Um gato apaixonado por sua dona, que aprende a falar e trilha com seu dono caminhos de diversão, riso, numa atmosfera ecumênica. Diferentes que sabem coexistir e os que não sabem. O quadrinho virou filme. e eu indico para quem gosta de gatos, pra quem gosta de religião, pra quem gosta de amor, pra quem gosta de animação.]
(Ah! Se a sala 3 falasse... - contaria nossos segredos e juras de amor trocadas enquanto subia o letreiro - futuros amantes. futuro cineasta. sonhos)
Eu e Beto fomos gostando dessa coisa de ir se descobrindo e descobrir o outro, descobrindo o mundo.
Por exemplo, esse filho de São Francisco de Assis veio - também - foi pra me ajudar a amar os bicho.
Quem me viu com a Passarinho desacreditar ao me ver gamada no Leon, de dar banho e tudo mais.
Beto é meu Chico de Pé Grande.
Imenso.
E sim. Gatos.
Um acaba de se aninhar no edredon que me cobre...
( - meu amor dorme longe...)
"Pronto nega. Era o que faltava pra você virar bruxa."
Um gato.
Leon mija nas minhas coisas. Todas. E eu viajo. Muito. E ele não gosta disso.
Entre amanhecer rumo a Marília terça-feira e chegar em SP no fim de tarde da quarta e encontrar - mesmo tendo se certificado de fechar a porta - a cama toda mijada pelo Leon é qualquer coisa de muito amor. Uma das coisas que vim buscar em SP foi a escaleta. Ao colocá-la na na mochila, sinto o rastro de Leon. - mijara nela também.
(preciso castrá-lo e ele me ama: combinação fatal.)
Há pouco disse que "minha primeira gata foi à distância", mas menti. É que na bem da verdade, foi bem de perto. Afinal de contas a Passarinho pariu nas minhas roupas, ora. Eu não estava em Araraquara quando aconteceu. Eu e ela não tínhamos lá a melhor relação do mundo, mas uma fêmea parir nas roupas de outra fêmea deve dizer qualquer coisa sobre a afinidade entre elas...
Passarinho enlouqueceu sozinha e muitos filhos na Moradia.
O Patas... uma de suas crias... sempre me lembro dele bebendo água do filtro da Dona Adriana - gato sortudo! (Aliás, bons felinos reunidos naquele belo lar)
Mas é uma menina de olhos azuis. arregalados. A primeira me escolheu antes.
Quando comecei a falar bastante com o Beto ao telefone, a Lara ia pra perto dele. Era ouvir minha voz que ela se aproximava, mais e mais. Vez ou outra bastava uma mera conversa comigo via computador que ela já se aninhava nele.
Quando (finalmente) eu estive em Londrina, a afinidade se confirmou. A registrei numa das poucas fotografias que fiz daquele fim de semana. Segunda-feira, antes de pegar o ônibus que - como hoje, fora prorrogado da noite pra manhã - estava eu ajeitando a mala, quando peguei a máquina fotográfica. Olhei da porta do quarto de hóspedes (onde ele tivera a audácia de deixar as minhas coisas quando cheguei) e via os dois me vendo partir: Beto e Lara.
Beto não sabia que eu fotografava. Me olhava como quem vê alguém que não se sabe sendo observado e, por isso, mirar os olhos dele através do visor da máquina era olhá-lo, fundo, entregue, como a quem não se sabe sendo visto.
Lara ao contrário encarava a máquina. Observava e se sabia observada pela coisa.Eis a foto: os dois me vendo partir. Cúmplices. Londrina é o nosso lugar. Totem E Tabu. - tenho vontade de voltar pra lá para vê-la.
Mas antes do Leon ainda houvera outro. Gato que nem existia(?). - Le chat du Rabbin - lêcháderubã. [Filme que nos apareceu quase que como acidente, numa das nossas tarde mais belas. Um gato apaixonado por sua dona, que aprende a falar e trilha com seu dono caminhos de diversão, riso, numa atmosfera ecumênica. Diferentes que sabem coexistir e os que não sabem. O quadrinho virou filme. e eu indico para quem gosta de gatos, pra quem gosta de religião, pra quem gosta de amor, pra quem gosta de animação.]
(Ah! Se a sala 3 falasse... - contaria nossos segredos e juras de amor trocadas enquanto subia o letreiro - futuros amantes. futuro cineasta. sonhos)
Eu e Beto fomos gostando dessa coisa de ir se descobrindo e descobrir o outro, descobrindo o mundo.
Por exemplo, esse filho de São Francisco de Assis veio - também - foi pra me ajudar a amar os bicho.Quem me viu com a Passarinho desacreditar ao me ver gamada no Leon, de dar banho e tudo mais.
Beto é meu Chico de Pé Grande.
Imenso.
E sim. Gatos.
Um acaba de se aninhar no edredon que me cobre...
( - meu amor dorme longe...)
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
música serve pra isso.
"sua vida É um espetáculo, Isabela." - ou era algo como "em constante performance?" - algo assim eu ouvi de um grande amigo meu. grande amigo. e não é lá algo muito fora da realidade. Desde que o Salsicha tinha espalhado pras duas turmas que eu cantava vira mexe eu ouvia "canta no fim da aula", "hoje você vai cantar né?". e eu sempre dava um jeito de simplesmente não tocar no assunto pós-roda de avaliação. eu então pensei em fazer uma surpresa no dia da formatura: levar um violão e cantar direito. mas eis que no meio do caminho tinha a rede globo. resolveram filmar o trampo da ong em que eu trampo praquele programa sobre ações sociais que ninguém vê mas que passa sábado de manhã. - e a gente sabe que existe.
o pedido foi: por conta das gravações, adianta a atividade com violão pros meninos. well. não o fiz. pensando agora, uma idiotice imensa não ter feito - teriamos atrasado a colagem dos cartazes e não precisaríamos tê-los destruído para remontá-los. quem disse que adiantou. Kelvin veio já enfático e no começo da aula: você vai cantar né? - canta "Pais e Filhos" do Legião Urbana.
***
Essa foi uma das músicas que eu cantei quando levei o violão e não fui tonta. encerramento da oficina de literatura com o grupo de dança. cantamos em coro. eu engasgava. sempre engasgo. quando tô tocando violão é mais fácil. o coro embala e eu me concentro nas cordas. quando é a capella o choro parece que me vence.
com os meninos do núcleo-luz houve toda uma história recheada pelas aparições do Legião Urbana durante as aulas. A relação canção e roteiro de cinema; o (excesso?) de citações de canção em 'Somos tão jovens'; o lançamento dos filmes; o episódio quase vivido por mim e testemunhado por dois aprendizes sobre o dia que a livraria cultura faria uma exibição gratuita de "Faroeste Caboclo" com direito a debate com os protagonistas no fim. - a fila era quilomêtrica e isso não é um exagero. muita gente. da sala se encher e ultrapassar o limite do suportável e globais saindo pelas portas do fundo em plena paulista pra se proteger da multidão. - cinema, de graça. na rua. well.
***
por outro lado, na emef cidade de osaka, em são mateus, 'pais e filho' liderava uma lista de músicas, o "top 10" das canções preferidas da turma da tarde. eleição feita pro fanzine que contava com whitney houston, los hermanos, beirut, pitty dentre outros. e kelvim queria era aquela.
- aquele era o dia sugerido pra levar o violão. naquele dia contei pra eles da ida da globo.
e se de manhã eu estava dando conta do fogo da contradição queimando por dentro, a turma estava radiante por estar na tevê exceto pela exigência da diretoria de que todos usassem uniformes. - comoção geral. mas por fim eles se convenceram.
à tarde foi mais difícil. ao ouvir "globo" a gente ouvia repulsa feroz e apaixonada. - o uniforme quase que conseguia ser de menos. eu disse "quase". - "eu sou contra a uniformização. eu não uso uniforme. isso é o que eu acredito." - "você pode não vir".
o que eu ia fazer? eu, na condição deles, faria a mesma coisa - não tô dizendo lá atrás, há 12 anos atrás. digo hoje. nos dias em que eu brigo com as pessoas que passam no sinal vermelho.
como pedir pra eles gostarem daquilo? - eu não gosto! foi difícil.
princípio de contradição da existência.
a aula foi uma bosta. eu mal conseguia interagir com os meninos. ao fim, eu puxei a roda de avaliação e conversei com eles. pedi desculpas pela bédivaibi, que tava difícil, eu não gostava de ficar daquele jeito com eles, principalmente no nosso último dia e que eu tinha que cumprir com um pedido que haviam me feito "mas vocês precisam cantar junto, viu?"
estátuas e cofres e paredes-pintadas (ninguém sabe o que aconteceu. - ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender)
(não consegui disfarçar dos meninos a carência e a saudade do meu lamento "eu moro com meus pais... não mais)
-e sim, eu choro. porque viajo anos com essa música sempre.
eu lembro cristalinamente, há muitos anos atrás, dentro do carro - quando o Bruno nem dirigia ainda - eu perguntando pro meu irmão: "como assim? ele cada hora mora num lugar? com a mãe, na rua...?"
"é liberdade poética, gorda. poeta pode tudo".
anos mais tarde, era ele com o violão à colo, eu, minha mãe e meu pai cantando com ele e a turma dele de terceiro ano lá no centro cultural "é preciso amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAaaaarrr".
- antes de cantar eu contei pra eles que eu tinha planejado cantar pra eles na formatura, mas que não ia rolar, porque a globo ia, etcetcetcetc. que ia ficar mais careta a coisa.
***
eu e o salsicha temos uma capacidade incrível de cantar pérolas do cancioneiro. despreocupadamente. infinitamente. here there and everywhere. enquanto a gente pregava os cartazes foi de tudo "lá vem o negão, cheio de paixão" - a gente veio com "maracangalha". eu infectei o resto do pessoal e, de repente, a gente tava discutindo porque manonas era um clássico e porque eu aquela outra banda, que eu nem sei o nome, não. "é porque eles morreram." - e eu me contendo pra não discorrer sobre toda a minha teoria do riso nos mamonas!rs
infectados por música. assim a gente se comunicava. descontraía. tava absurdizada com o cara que botou um senhor rockpesado em pleno almoço da criançada. eu pirei. os meninos já são agitados...rsrs toda tia. rs .entre a chegada dos meninos no refeitório-salão-de-formatura passou gilberto-gil via paralamas do sucesso numa versão mais rappeada que nunca, com violão-de-acústico-mtv ao fundo, o rappa evocando jorge ben: "temo cabelo duro somo black pau".
***
e começa a coisa toda. os meninos fizeram discurso né?o da manhã já me arrancou lágrimadozói. o discurso da tarde era uma verdadeira surpresa. o jogral das isabelles com andrew culminava em nada mais nada menos do que um fim assim, ensaiado: mas peraê? acabou?"
- é preciso amar
as pessoas como se não houvesse
amanhã.
porque -
se você parar
pra pensar - ... na verdade
não há.
o pedido foi: por conta das gravações, adianta a atividade com violão pros meninos. well. não o fiz. pensando agora, uma idiotice imensa não ter feito - teriamos atrasado a colagem dos cartazes e não precisaríamos tê-los destruído para remontá-los. quem disse que adiantou. Kelvin veio já enfático e no começo da aula: você vai cantar né? - canta "Pais e Filhos" do Legião Urbana.
***
Essa foi uma das músicas que eu cantei quando levei o violão e não fui tonta. encerramento da oficina de literatura com o grupo de dança. cantamos em coro. eu engasgava. sempre engasgo. quando tô tocando violão é mais fácil. o coro embala e eu me concentro nas cordas. quando é a capella o choro parece que me vence.
com os meninos do núcleo-luz houve toda uma história recheada pelas aparições do Legião Urbana durante as aulas. A relação canção e roteiro de cinema; o (excesso?) de citações de canção em 'Somos tão jovens'; o lançamento dos filmes; o episódio quase vivido por mim e testemunhado por dois aprendizes sobre o dia que a livraria cultura faria uma exibição gratuita de "Faroeste Caboclo" com direito a debate com os protagonistas no fim. - a fila era quilomêtrica e isso não é um exagero. muita gente. da sala se encher e ultrapassar o limite do suportável e globais saindo pelas portas do fundo em plena paulista pra se proteger da multidão. - cinema, de graça. na rua. well.
***
por outro lado, na emef cidade de osaka, em são mateus, 'pais e filho' liderava uma lista de músicas, o "top 10" das canções preferidas da turma da tarde. eleição feita pro fanzine que contava com whitney houston, los hermanos, beirut, pitty dentre outros. e kelvim queria era aquela.
- aquele era o dia sugerido pra levar o violão. naquele dia contei pra eles da ida da globo.
e se de manhã eu estava dando conta do fogo da contradição queimando por dentro, a turma estava radiante por estar na tevê exceto pela exigência da diretoria de que todos usassem uniformes. - comoção geral. mas por fim eles se convenceram.
à tarde foi mais difícil. ao ouvir "globo" a gente ouvia repulsa feroz e apaixonada. - o uniforme quase que conseguia ser de menos. eu disse "quase". - "eu sou contra a uniformização. eu não uso uniforme. isso é o que eu acredito." - "você pode não vir".
o que eu ia fazer? eu, na condição deles, faria a mesma coisa - não tô dizendo lá atrás, há 12 anos atrás. digo hoje. nos dias em que eu brigo com as pessoas que passam no sinal vermelho.
como pedir pra eles gostarem daquilo? - eu não gosto! foi difícil.
princípio de contradição da existência.
a aula foi uma bosta. eu mal conseguia interagir com os meninos. ao fim, eu puxei a roda de avaliação e conversei com eles. pedi desculpas pela bédivaibi, que tava difícil, eu não gostava de ficar daquele jeito com eles, principalmente no nosso último dia e que eu tinha que cumprir com um pedido que haviam me feito "mas vocês precisam cantar junto, viu?"
estátuas e cofres e paredes-pintadas (ninguém sabe o que aconteceu. - ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender)
(não consegui disfarçar dos meninos a carência e a saudade do meu lamento "eu moro com meus pais... não mais)
-e sim, eu choro. porque viajo anos com essa música sempre.
eu lembro cristalinamente, há muitos anos atrás, dentro do carro - quando o Bruno nem dirigia ainda - eu perguntando pro meu irmão: "como assim? ele cada hora mora num lugar? com a mãe, na rua...?"
"é liberdade poética, gorda. poeta pode tudo".
anos mais tarde, era ele com o violão à colo, eu, minha mãe e meu pai cantando com ele e a turma dele de terceiro ano lá no centro cultural "é preciso amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAaaaarrr".
- antes de cantar eu contei pra eles que eu tinha planejado cantar pra eles na formatura, mas que não ia rolar, porque a globo ia, etcetcetcetc. que ia ficar mais careta a coisa.
***
eu e o salsicha temos uma capacidade incrível de cantar pérolas do cancioneiro. despreocupadamente. infinitamente. here there and everywhere. enquanto a gente pregava os cartazes foi de tudo "lá vem o negão, cheio de paixão" - a gente veio com "maracangalha". eu infectei o resto do pessoal e, de repente, a gente tava discutindo porque manonas era um clássico e porque eu aquela outra banda, que eu nem sei o nome, não. "é porque eles morreram." - e eu me contendo pra não discorrer sobre toda a minha teoria do riso nos mamonas!rs
infectados por música. assim a gente se comunicava. descontraía. tava absurdizada com o cara que botou um senhor rockpesado em pleno almoço da criançada. eu pirei. os meninos já são agitados...rsrs toda tia. rs .entre a chegada dos meninos no refeitório-salão-de-formatura passou gilberto-gil via paralamas do sucesso numa versão mais rappeada que nunca, com violão-de-acústico-mtv ao fundo, o rappa evocando jorge ben: "temo cabelo duro somo black pau".
***
e começa a coisa toda. os meninos fizeram discurso né?o da manhã já me arrancou lágrimadozói. o discurso da tarde era uma verdadeira surpresa. o jogral das isabelles com andrew culminava em nada mais nada menos do que um fim assim, ensaiado: mas peraê? acabou?"
- é preciso amar
as pessoas como se não houvesse
amanhã.
porque -
se você parar
pra pensar - ... na verdade
não há.
sábado, 31 de agosto de 2013
frances ha
não costumava me importar com aquilo que dizem nos jornais sobre os filmes. ou me importava? - essa atitude blasè de recorrer a si pra dizer que agora é diferente... ai a madrugada. fato é que hoje contemplando os cartazes dos filmes trombei com uma crítica que era simplesmente: "Adorei. Assisti duas vezes..." - é... oi? mas até aí tudo bem. ok. às vezes é só isso. você gosta e até repete.
Após andar tanto, a gente foi parar numa reserva cheia de salas com filmes que não passam no shopping mais próximo. Um acaso objetivo fez com que nós, três perdidos daquilo que transitava nas salas cult, pudéssemos ter uma mínima referência sobre o que assistir nessa noite: Frances Ha.
nesse momento vem à cabeça: isabela, pára. isso já tá ficando autobiográfico demais. tá todo mundo sacando que você tá falando há parágrafos desse filme porque você se viu ali na telona...
Frances Ha é um belo filme. um registro poético, intenso ao mesmo tempo que sutil e emocionante da bonita solidão de um homem só (e andar). essa dança de quem se aperta no existir, desliza, se encanta, sofre, e se descobre dona de si, nos passos tortos que dança ao andar.
Após andar tanto, a gente foi parar numa reserva cheia de salas com filmes que não passam no shopping mais próximo. Um acaso objetivo fez com que nós, três perdidos daquilo que transitava nas salas cult, pudéssemos ter uma mínima referência sobre o que assistir nessa noite: Frances Ha.
O cartaz é maravilhoso. aquele mei que roxo mei que lilás mei que rosa, uma mulher se movimentando... dá até dúvida se a gente dá conta de tanta cor. - mesmo que ela seja esse lilás. Mas ali no canto dizia "Absurdamente engraçado" e não sei quantas estrelinhas.
***
ao fim da sessão eu chorava. mais por dentro que por fora, que ir assistir a essas coisas em plena lua em câncer é pedir pra se abalar. Frances é uma dançarina. Vive com a melhor amiga, ou tenta e vive aquele período da transição da faculdade e suas projeções e a dureza do mundo adulto. em nova iorque. talvez o absurdamente engraçado venha dos diálogos do filme, que captam o inusitado, pequenas pílulas do que são nossos encontros casuais, nossas conversas em baladas, em jantares com desconhecidos, desabafos poético. talvez seja absurdamente engraçado o modo deslocado da menina que não faz questão de se arrumar, que não é a dançarina-diva, que fala como uma menina, contando causos de uma memória recente de um tempo que não coincide mais com a dureza da cidade. talvez seja absurdamente engraçado vê-la caminhar pelas ruas, saltitante, ou aproveitar que ninguém chegou ainda e liberar seu corpo no palco. ou ainda seu olhar sedento a cada impossibilidade de ser paralém daquilo que ela gostaria.
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...complexo. "o que você faz é muito complexo?"
é que eu não sei se eu faço, diz a menina que passa o filme todo tentando dançar e ser dançarina.
tenta se fixar num local, dá aulas, perde a turnê, e quanto mais a solidão aperta, mais ela afirma a todos, de quem ela se aproxima se afastando, de que está bem e está tudo prestes a dar certo.
Frances agora serve vinho na festa do leilão da sua antiga faculdade. Dá informação a estudantes. Dorme em dormitórios coletivos. Na tentativa de estudar dança, torna-se assistente: assistentes só assistem.
- a busca por um lugar, uma casa, que costura o filme, com seus endereços e suas vidas em cada lugar. - a cidade é o centro do cerco.
o lar do sonhos com a melhor amiga - o quartinho com os amigos ricos, de apê descolado - a casa emprestada - o dormitório coletivo. "enfim meu nome na caixinha do correio".
absurdamente engraçado que nada. infeliz frase essa. a doçura da menina em preto e branco é de um encantamento melancólico. de quem tenta sobreviver numa grande cidade carregando na mala um sonho abstrato-concreto de ser e estar no mundo.
nesse momento vem à cabeça: isabela, pára. isso já tá ficando autobiográfico demais. tá todo mundo sacando que você tá falando há parágrafos desse filme porque você se viu ali na telona...
me vi sim.
mas vi muitas outras e tantas pessoas.
vi uma multidão de gente ali. Gente tentando um lugar físico no mundo que nada mais é que um lugar pra si, consciência plena de sua existência e uma brecha nesse caos de prédios, luzes, dinheiros, esperas e desencontros pra poder deixar sua assinatura.
a dançarina por fim é uma coreógrafa que leva pro palco seu jeito de ir vivendo a vida em tentativa e erro, guiada pela intuição e pelos contra-sentidos. os corpos dos meninos são sinceros nos olhares e no movimento que parece desengonçado e ao mesmo tempo que certeiro.
Frances Ha é um belo filme. um registro poético, intenso ao mesmo tempo que sutil e emocionante da bonita solidão de um homem só (e andar). essa dança de quem se aperta no existir, desliza, se encanta, sofre, e se descobre dona de si, nos passos tortos que dança ao andar.
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absurdamente engraçado, o carai.
um retrato preto no branco.
E pra quem chegou até aqui, indico, muito, muito
o texto de Deni Rubbo
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