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sábado, 25 de maio de 2013

Com o pé nessa estrada, qualquer dia a gente se vê: reflexões sobre o outro em mim em “Estrada para Ythaca”.


Para Betto
e Bruno Morais.





Sei que às vezes uso
palavras repetidas
Mas quais são as palavras
que nunca são ditas?
Quase sem querer – Legião Urbana.



            Se Bakhtin (e toda a reflexão que gira em torno do seu nome, ou seja, a obra do chamado “círculo de Bakhtin”), pois bem, se Bakhtin estava certo e a formação da consciência, da identidade é um processo dialógico, no qual me constituo a partir da existência e da palavra do outro, até que ponto consigo distinguir aquilo que é a minha singularidade? Como ser singular quando sou uma colcha de retalhos? Um emaranhado de citações?
            Talvez a resposta esteja justamente aí, no próprio emaranhado de citações.
Proponho-me a escrever sobre um filme descoberto por acaso. No mundo de hiperlinks, percorrendo uma busca por filmes nacionais em um site que disponibiliza links para baixá-los, li o título de um disponível para donwload: “Estada para Ythaca”. Nos hiperlinks da minha cabeça, o título me remeteu a um poema de Konstantinos Kaváfis com o qual havia sido recentemente presenteada numa madrugada poética. “Ítaca”. “Fizeram um filme?” Baixei.
            Um acaso tão poético quanto seu estopim: “Estrada para Ythaca”, que de fato fora inspirado no mesmo poema que me levou a ele, como veremos a diante, é sem dúvida um dos filmes, digamos, mais nacionais que já vi, partindo de uma percepção minha muito bem situada no tempo e no espaço: minha vivência como “músico de barzinho” e a escuta das canções que fazem as trilhas das madrugadas. O filme “Estrada para Ythaca” no sentido bastante bakhtiniano da ideia é um emaranhado de citações, numa composição intergenérica, seja pelo próprio diálogo com a poesia de Konstantinos explícita seja no título, seja na reprodução da mesma na sequência final do filme, seja pelas citações de frases famosas e, principalmente, pelas canções que o compõem e constroem o seu sentido.


            “8, 7, 6, 5, 4, 3, 2”
Um céu noturno e nublado anuncia o início do filme e o letreiro nos conta que ele é apresentado por “Irmãos Pretti & Primos Parente”. O silêncio do céu que anunciou a produtora cearense “Alumbramento” e também o título do filme é quebrado pelo som do teclado que marcará a atmosfera do filme, aparecendo em momentos cruciais. De fato, digo desde já que se as canções são de grande importância na constituição do sentido do filme, as intervenções instrumentais também o são e tudo isso fica evidente por se tratar de um longa que preza pelo silêncio. É um filme lacônico. De poucos diálogos, de muitos silêncios.
Junto ao teclado que finaliza a sequencia do céu azul, lemos então o poema:

Até logo, até logo, companheiros,
Guardo-vos no meu peito e vos asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro futuro.

Adeus, amigos, sem mãos nem palavras
não façam um sobrolho pensativo
Se morrer, nessa vida, não é novo,
tampouco há novidade em estar vivo.


Em seguida, vemos uma foto, com um gordinho barbudo e sorridente e os dizeres: “JÚLIO 1979-2009”. Viríamos saber no final do filme, já nos créditos, que tal poema trata-se dos últimos versos do poeta russo Serguei Iessiênin, traduzidos por Augusto de Campos. E de fato são mesmo os últimos versos, redigidos pelo poeta antes de seu suicídio. O filme começa com a morte. Júlio morreu. Teria se matado como Serguei? Porém, mais do que com a morte, o filme começa com a amizade. A menção aos “companheiros” e “amigos” no poema que abre o filme não é casual. Após a leitura do poema não lemos o nome do seu autor original, mas vemos a foto de Júlio e o ano de nascimento e morte. Na construção do sentido, é ele o autor daqueles dizeres ali, é Júlio quem diz aquelas palavras. E nas sequencias seguintes, iremos conhecer a quem ele se dirige.


Da foto de Júlio, vemos então um brinde. Muitas garrafas na mesa e copos cheios de cerveja se encontrando no ar.  Somos apresentados em closes aos companheiros de Júlio. Quatro homens, um a um, barbudos à sua maneira, cada um com o seu silêncio. Silêncio que é interrompido, ou melhor, complementado com uma voz que canta “Sempre só...”. Vemos então o puxador da canção, e já no segundo verso, conseguimos ouvir as demais vozes que passam a acompanhá-lo. A canção é “Luz Negra”, de Nelson Cavaquinho.
A melancolia da letra de Nelson casa perfeitamente com as frases melódicas construídas em descidas cromáticas (intervalos de meio-tom). Conforme a semiótica da canção de Luiz Tatit (2008), a melodia trabalha com o prolongamento das sílabas para indicar o estado de melancolia e sofrimento, como percebemos logo no início da canção com o prolongamento das sílabas “sem-pre só”.
Que todos acompanhem a letra não é algo tão espantoso, mas é bonito perceber o coro respondendo à segunda parte da música:
Homem: A luz negra de um destino cruel
            Coro: Aaah (em descida cromática)
            Ilumina um teatro sem cor
            Aaah
            Onde estou desempenhando o papel
Aaah
De palhaço do amor
Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim.
           
            O homem que cantou “Luz Negra”, nenhum dos quatro apresentados em close no início da sequencia, após o brinde, sai de foco. Voltamos aos companheiros e em novo brinde um deles diz: “Minha vingança é viver bem a vida”. Tal frase é uma variação de um trecho muito conhecido de Caio Fernando Abreu. Naquele contexto, entretanto, após a canção de Nelson que fala sobre a solidão e também após sabermos da morte de Júlio, resta entender que a vingança aqui diz respeito a isso, e viver bem é a resposta a tal quadro.
Após o copo de cerveja virado pelos quatro, um deles com um livro em punho cita Napoleão Bonaparte: “Do sublime ao ridículo é só um passo”.
 Do outro lado do bar então, um clássico do rock nacional é entoado por uma nova figura, que destoa dos quatro companheiros barbudos, dentre outras coisas, pela roupa, terno e gravata: quando criança só pensava em ser bandido ainda mais que com um tiro de soldado pai morreu... “Faroeste Caboclo”, Legião Urbana. Mas os quatro amigos recusam o clássico: “Cala a boca!”, e censuram a canção de Legião Urbana.
Enquanto prosseguia cantando “Era o terror da sertania onde morava...” o primeiro dos quatro amigos, o que primeiro conhecemos, que brindara a sua vingança, diz ao cantor de Legião “Parabéns”. Sugere que ele guarde melhor a chave do seu carro, quando alguém solta um dos jargões mais famosos da música de bar brasileira: “Toca Raul”.
Trata-se de uma questão de repertório, aqui. Não falo repertório no sentido musical do termo, mas muito dificilmente um estrangeiro, que não viva no Brasil, evidentemente, apreende o sentido da expressão “Toca Raul”. Trata-se de um horizonte comum de percepção, de conhecimento compartilhado, de cultura como coisa ordinária e comum. É necessário ter a dimensão, e aí é a despeito do próprio Raul Seixas, da importância que a canção popular tem para a constituição sócio-cultural brasileira. Mais que um desenvolvimento literário num sentido clássico, nos constituímos e nos refletimos enquanto nação, enquanto sociedade, nos problematizamos, nos entendemos e nos identificamos através da forma da canção popular. E há inúmeros trabalhos que versam a respeito, para além da percepção factual e cotidiana. E aqui, juntamente à socióloga, quem escreve é o músico de barzinho, categoria de artista e trabalhador musical que testemunha através do seu ofício a importância da canção na formação social brasileira.
Fora numa noite de sexta-feira que a socióloga que existe dentro da cantora teve o insight de se lembrar do filme “Estrada para Ythaca”. O bar estava lotado, a madrugada já avançava. No palco com outros músicos, dentre eles seu irmão, eu percebia uma geração de pessoas entoando em coro canções de mais de vinte anos atrás com a vivência atual de cada uma daquelas palavras. Em um tempo onde se apregoa o fim ou no mínimo o mal estar da canção, eu testemunhava no ganha-pão de meu irmão músico a celebração da canção popular, brasileira ou não. Algumas músicas eram tão conhecidas a ponto de serem cantadas nos mínimos detalhes, desde os intervalos, às paradas da bateria, aos riffies e solos instrumentais, numa polifonia harmônica. Nós mesmos músicos no palco com pouco dispúnhamos de equipamentos, instrumentos e microfones por conhecermos tão bem algumas canções éramos capazes de nos inserirmos naquela narrativa. Conhecemos todas as vozes, somos capazes de nos dividirmos e entoá-las: é quando singularidades distintas, seres únicos dizendo (cantando/tocando) coisas diferentes criam um todo harmônico, capaz de comunicar.
Naquela noite foi interessante perceber o que se cantava com tanta verdade. Fugindo da chamada linha única e evolutiva da MPB, adentrando pelas linhas paralelas sobre as quais fala Hugo Sukman (2011), a música de fora do eixo Rio-São Paulo era aquela que melhor traduzia a indignação, angústia e dor embriagada daquela geração classe média alta: o nordestino Zé Ramalho (assim como ele, os sempre lembrados Belchior e o próprio Raul Seixas), o rock brasileiro seja com Legião Urbana, que olham e falam a partir da contraditória e nova Brasília dos anos 1980 ou os “porto alegrenses” Engenheiros do Hawaii. Para não mentir, o eixo do “sul(deste) maravilha” é contemplado na febre dos anos 2000, Los Hermanos, onde os fãs são capazes de entoar cada frase melódica de cada sopro, cada intervalo, cada batida, em coro alto e forte.
Na embriaguez das madrugadas nos bares é a música periférica de décadas atrás que traduz a revolta e a crítica ao hoje, na reafirmação de que a arte antecipa e antevê. Ou ainda é a melancolia do agora, representada pelos Los Hermanos.
O músico de bar está lidando diretamente com seu público, numa relação calorosa e algumas vezes até mesmo difícil: no limite entre a admiração do trabalho, um quase louvor desmedido e o pedido incansável por uma canção que se quer ouvir como se o músico fosse um mero aparelho de som, uma jukebox.
A despeito da minha madrugada de epifanias sociológicas, o fato é que não é necessário ser músico de bar para sentir a familiaridade a que nos remete a sequencia do filme que se passa no bar, no alto da madrugada, com a lembrança das canções.
Depois do grito de “Toca Raul” e os resmungos “Raul... Raul é bom”, alguém puxa uma canção de Chico Buarque e Caetano Veloso, “Vai levando”.
Interessante notar a espontaneidade do canto. O que importa é lembrar-se da canção e cantá-la, mais do que fazê-lo certo. No descompromisso e na dificuldade de lembrar-se de uma canção de letra tão longa, os versos saem todos de improviso. Trata-se aqui da apropriação espontânea da canção, mais do que de um jeito certo ou errado de cantá-la. Numa espécie de colagem dadaísta, os personagens do filme cantam aquilo que mais marca da canção, chegando a inventar um verso todo novo a partir do princípio básico da estrutura formal da estrofe:
Mesmo com toda essa Brahma,
com toda a grama,
com toda a trama,
com toda a ama...
A gente vai levando...
A gente vai levando
A gente vai levando
A gente vai levando essa vida![3]

É então a vez de cantar mais uma conhecida música do nosso cancioneiro. E é novamente o homem de terno e gravata quem entoa os versos de “Meu Erro” dos Paralamas do Sucesso:
Mesmo querendo,
Eu não vou me enganar
Eu conheço os seus passos
Eu vejo os seus erros
Não há nada de novo
Ainda somos iguais
Então não me chame...
Você diz não saber
O que houve de errado
E o meu erro foi crer
Que esta...
Bastaria
Ah meu Deus era tudo que eu queria...
Não me abandone jamais
(vocalize: Panapanapanapanpan...)
                                                                                             
            Note que em relação à versão original[4] alguns versos não foram cantados, algumas frases não foram terminadas. A entoação sofrida do homem bêbado enfatiza alguns versos e por fim, mais uma vez está presente o recurso de cantar os riffies instrumentais da canção, demonstrando sua extrema familiaridade com ela e, também, como há aspectos na composição formal das canções que constituem sua singularidade e constroem sentido a ponto de serem lembrados e entoados em situações como essa: bêbados num bar, cantando o fim de noite.


            “Vou para Ythaca”, diz o tal primeiro amigo, o mesmo que brindara a vingança, o primeiro que vimos após o epílogo de “Júlio 1979-2009”. O homem de barba, bigode e chapéu branco anuncia na mesa de bar, sem entoação de poeta, o seu destino: “Vou para Ythaca”. O amigo então responde: “Nós vamo junto”.
 - Tô indo embora. Cansei dessa merda!
 - A gente lhe acha.
- Vou embora andando.
            A música aqui então novamente tem vez. Não mais a canção popular, mas como uma espécie de anúncio de um novo momento no filme, o silêncio do filme dá lugar ao canto melancólico da gaita de um dos quatro amigos. A fotografia do filme, claramente muito simples e sem grandes recursos, é muito precisa e autoral. Vemos ao fundo do tocador de gaita, homem de barba e bigode, por detrás das garrafas vazias de cerveja, os outros dois amigos se abraçarem após a saída do homem de chapéu branco.
            Finda a música, a mão de um dos quatro é vista tomando a chave do carro, mal guardada, do homem de terno que dorme sobre a mesa de bar. Será o carro desse homem que levará os quatro amigos para Ythaca. Após o arranque bêbado, o primeiro destino dos três é encontrar o andarilho homem de chapéu branco. Não sem muitos palavrões, numa linguagem chula, baixa e familiar, como Bakhtin bem descreveu no trabalho sobre Rabelais (2008), o homem de chapéu branco entra no carro iniciando então a travessia rumo a Ythaca.
            Evidentemente pelo sotaque e pela paisagem sabemos que estamos no nordeste brasileiro e de carro muito dificilmente se chegaria à famosa ilha grega de Ythaca, cuja peregrinação de Ulisses de volta fora heroicamente contada na Odisseia de Homero. Não é rumo a Ythaca, literalmente a ilha grega, que partem os amigos, mas à Ythaca ressignificada no poema Konstatinos Kaváfis.
Mais que o lugar propriamente dito, o poema de Konstantinos narra a busca pelo sonho, no qual Ythaca deve estar sempre na mente, guiando os passos durante a travessia, o caminho, esse sim o verdadeiro tesouro, no qual se aprende e apreende as verdadeiras riquezas do caminhar.
           
ÍTACA[6]

Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Faz votos que o caminho seja longo![7]

Começamos então a acompanhar a travessia dos quatro amigos. O filme lacônico mostra cenas banais de uma viagem de improviso entre amigos: arranjar comida, as horas intermináveis de estrada, algum canto para dormir. Entretanto, conforme a crítica de Fábio Andrade nos aponta, o filme trabalha com o enquadramento de forma bastante singular, que acaba por dedicar “enquadramentos de grande sobriedade e rigor para situações muitas vezes encenadas de forma esdrúxula e alucinada” E continua:
Há, por exemplo, uma estranheza nas opções de enquadramento do filme que parece vir da convivência de um rigor visual bastante claro com a incorporação de supostas “imperfeições” – como um excesso de teto quase sempre constante que privilegia um espaço grande acima das cabeças das personagens, sem com isso gerar um sentido que vá além do estranhamento visual.  (ANDRADE, 2010, s/p.)
           
            Algumas cenas são cruciais, como quando da troca de pneus. Dois dos barbudos o fazem, enquanto os outros dois os esperam à beira de uma casa abandonada. Novamente a palavra do outro para ilustrar e dar sentido à cena: um deles de caderno em punho cita Groucho Marx e diz: “Ninguém fica completamente infeliz com o fracasso do seu melhor amigo”.
            Outra cena que constitui a singularidade do filme, é a embriaguez e dança dos quatro amigos numa noite iluminados apenas pelos faróis do carro. À primeira vista o foco da câmera muitas vezes parece estar deslocado, mal arranjado, mas no desenrolar da cena, percebe-se de que ela fora calculadamente colocada para captar a posição das personagens ali enquadradas. São enfoques feitos de modo com que em apenas num movimento de zoom, de aproximação, a imagem capte o todo da cena, sem ter que se deslocar, como na cena em que o nosso primeiro barbudo, o do chapéu branco, ao amanhecer sozinho em uma pedra, visto de longe, pega a foto do amigo Júlio, para viver a saudade ao som do estratégico e melancólico teclado que soa ao fundo.
            Comer juntos em silêncio. Chorar sozinho de saudade. um ombro amigo que chega para acompanhar. Uma caminhada dos quatro amigos no qual o som dos passos ganha destaque, a sensação da busca, o céu nublado, e então desnorteados, como a câmera que os registra, eles correm. Com os pés no ar, a cena então se congela e então é novamente a canção popular que anuncia uma virada para o filme: ouvimos uma voz que canta o refrão de “Divino, Maravilhoso”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.  E vemos então Júlio, numa encruzilhada.
            Através do discurso de Júlio percebemos que a busca por Ythaca não é apenas uma viagem de enfrentamento da dor e da saudade do amigo recém-falecido, mas a própria busca pelo fazer cinema. Aqui nos defrontamos com uma metanarrativa, na qual o filme, autoral e alternativo desde seu início, ainda que costurado exclusivamente através da fala do outro, reflete sobre fazer cinema, o filme que pensa sobre o filme. Júlio aponta para a sua esquerda, direita do telespectador e diz: “por aqui, o cinema desconhecido, de aventuras” e apontando para o outro lado, diz: “e por aqui, o cinema do terceiro mundo, perigoso, divino e maravilhoso” e repete apontando para o mesmo lado “e por aqui, o cinema do terceiro mundo, perigoso, divino e maravilhoso”. É para este lado que a placa redonda situada um pouco atrás de Júlio, na qual está escrito “Ythaca”, aponta.
            De volta à estrada e ao caminho, os amigos novamente no carro, quando no meio da madrugada luzes coloridas os hipnotizam introduzindo-nos a uma nova sequencia, numa paisagem distinta do sertão visto até então. Sequencias de matas verdes e rios invadem a tela: o que antes era seco, agora é fértil e vivo. Uma nova música introduz, de modo semiapoteótico, os amigos: os quatro agora estão de barbas feitas. Vemos o caminho. A travessia. Os quatro chegam então à encruzilhada onde vimos Júlio e seguem, como é de se esperar, o caminho que a placa indica para Ythaca, do cinema de terceiro mundo: divino e maravilhoso.


            A estrada (n)os leva então de volta ao lugar do começo do filme: o bar. Entre um bar e outro, entre o começo e o fim, o caminho, a busca por Ythaca. Aparentemente chega-se ao “mesmo lugar”, um bar, mas eles já não são mais os mesmos. Entre um bar e outro o caminho. A travessia. A experiência da caminhada. Ela se reflete na própria aparência dos quatro. As barbas grandes e de diferentes cortes de cada um deles na primeira parte do filme, tão singulares a ponto de elas próprias constituírem uma das logos do filme, as barbas não estão mais ali. São outros fisicamente.
            Mas é, novamente, a própria canção popular quem irá demonstrar que a travessia trouxe aos amigos de fato algo novo e que eles de fato se encontraram com a memória e o legado do amigo morto.
Eles já estão bêbados. A mesa está cheia de garrafas vazias. Após os brindes um deles canta o clássico de Paulo Vanzolini, “Volta por cima”:
Chorei,
não procurei esconder,
todos viram
fingiram
pena de mim não precisava
ali onde eu chorei qualquer um chorava
dar a volta por cima que eu dei
quero ver quem dava
(aos poucos os amigos engrossam o coro e começam a batucar na mesa)
Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta sacode a poeira e dá volta por cima.
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta sacode a poeira e dá volta por cima.

Eles então propõem um brinde à amizade, força motriz de todo o filme. Ela ali evocada, traz à luz Júlio, que vemos entrar pelo bar. Sim. Ao brindarem a amizade eles selam e trazem pra junto de si o amigo morto: ele está e revive na celebração da amizade.
Após a aparição de Júlio, percebemos mais uma vez que Ythaca está na mente dos amigos, como o poema anuncia, que a travessia transformara os quatro quando um deles puxa o refrão: “é preciso...”. Para quem acompanhou o filme até aqui, a primeira canção que vem à cabeça é “Divino, Maravilhoso”, até porque, quem cantara “é preciso” o fizera na entoação dessa canção. Mas ele apenas cantou o começo, “é preciso”. Os amigos comentam: “essa é boa”, mas não prosseguem o verso. Até que alguém continua cantando “amar...” Novamente Legião Urbana irrompe no bar. Ao perceberem que se tratava do refrão de “Pais e Filhos”, os quatro continuam rindo em tom de deboche: “as pessoas como se não houvesse o amanhã”. É fato de que a melancolia e a revolta que Legião Urbana representa para certa geração, como a que testemunhei no bar naquela madrugada já citada, não tem espaço no filme. Se em alguns ambientes a memória da banda Legião Urbana e seu célebre vocalista e compositor Renato Russo são entoadas com reverência, em “Estrada para Ythaca” definitivamente não o é. De tal forma que o amigo que se levanta da mesa após cantar o refrão de “Pais e Filhos” tropeça como percebemos pelo barulho e a reação dos companheiros.
Como se houvesse um corte, uma correção de uma cena que não dera certo, voltamos a ver os quatro amigos na mesa do bar e agora sim eles cantam juntos o refrão de “Divino, Maravilhoso”:
É preciso estar atento e forte
Não temos de temer a morte.

A lição de Ythaca fora aprendida. Tanto o é, que lemos então o trecho do poema de Konstantinos Kaváfis:
"Mantenha sempre Ythaca em sua mente.
Chegar lá é sua meta final,
Mas não tenha pressa na viagem.
Melhor que dure vários anos;
E ancore na ilha quando você estiver velho,
com todas as riquezas que você tiver adquirido no caminho,
sem esperar que Ythaca irá enriquecê-lo.

Ythaca terá lhe dado a linda viagem.
Sem ela você nunca teria partido,
E ela não poderia dar-lhe mais...
Tão sábio que serás, com todo conhecimento,
Já terás entendido o que significa Ythaca.[9]"

Um abraço dos quatro encerra a viagem (e o filme) e descobrimos ali no letreiro que os irmãos Pretti e os primos Parente, são os quatro atores barbudos do filme e eles junto a outros poucos (amigos?) fizeram tudo: desde a direção, produção, roteiro, fotografia, som e montagem.
 A singularidade do filme, de fotografia e enquadramento muito simples, mas sempre muito precisos, juntamente ao fato de sabermos que poucos foram os seus idealizadores e executores, nos remete ao lema do Cinema Novo que parece ter enfim encontrado possibilidades sócio-históricas de realização mais factíveis do que os anos 1960: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. O desenvolvimento tecnológico de hoje em dia possibilita com maior facilidade a execução dessa ideia. O próprio discurso de Júlio nos remete a Glauber Rocha e seu grito pelo cinema do terceiro mundo. Eis uma reconciliação histórica. Da vontade de potência a potência ativa em cinema que se quer autoral, confessional e manifesto.
 E aqui voltamos ao aspecto autoral e ao nosso raciocínio primevo: o filme “Estrada para Ythaca” é todo ele construído através da fala do outro. As canções costuram o sentido e é através de uma delas, inclusive, que entendemos a busca por Ythaca e a sabemos completada no interior de cada um dos quatro e, mais, na própria execução do filme que é, em si, a própria busca de Ythaca para os quatro jovens atores/produtores/diretores.
A partir do método dialético-dialógico de Bakhtin e o círculo em torno ao seu nome, podemos considerar este filme como intergenérico. Ainda que o filme seja por natureza um gênero que mescla, mistura, flerta com diversos outros gêneros, no caso específico de “Estrada para Ythaca” toda a construção de sentido, toda a elaboração formal e estilística passa pela citação, pela necessidade de dialogar com outros gêneros. As poesias citadas, as canções cantadas, as frases famosas citadas, todas elas existem independentemente do filme e possuem sentido em si. O filme, entretanto, é costurado a partir desses outros gêneros e precisa deles para construir sentido. O título e o mote do filme vêm do poema de Konstatinos Kaváfis. A aparição de Júlio, explicada pelo poema de Serguei Iessiênin, as canções que refletem o estado de espírito de cada um dos lacônicos personagens.
Desta forma, tal como na nossa própria constituição como seres singulares através de seu processo dialógico, o filme se constitui através da fala do outro. A fala do outro, entretanto, não nos impede de ouvir a intenção e o sentido daquele filme singular. Mesmo que usemos sempre “palavras repetidas”, a cada nova enunciação nós a inserimos em novos contextos, outras arquitetônicas, nas quais este novo situar-se noutro tempo e espaço nos remetem a novos sentidos. O meu lugar único no tempo e no espaço é em si a minha garantia de ser autêntico, ainda que me utilize da palavra do outro, desde que meu ato seja responsivo e responsável. Ou seja, desde que, não me utilizando da palavra do outro enquanto (falso) álibi, eu esteja disposto a ocupar meu lugar único e a partir dele dizer e viver por inteiro a singularidade da minha existência.
O próprio diálogo interno que estabeleço entre diferentes referências já mostra a singularidade. Groucho Marx, Napoleão, Nelson Cavaquinho, Paulo Vanzolini, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Serguei Iessiênin se encontraram no diálogo que os Irmão Pretti e os Primos Parente forjaram.
Eu, por minha vez, ao encontrá-los imersos nesse todo coeso teci teias de sentido que, por mais que possam dialogar com aqueles que partilhem do mesmo repertório que eu, foram tecidas pela minha singularidade, minhas vivências e experiências.
Afinal de contas, tendo Ythaca sempre em mente, aprendemos que é a caminhada, a travessia, os encontros que tecem o que somos, que nos enriquecem. Por isso, faço votos de que o caminho seja longo...







BIBLIOGRAFIA:
ANDRADE, Fábio. Quinto dia: Entrando em movimento - Estrada para Ythaca, de Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes. In. Revista Cinética, Janeiro de 2010. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes10dia5.htm. Acesso em 13/09/2012.
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais. São Paulo-Brasília: Ed.HUCITEC - Ed. UNB, 2008.
_______. Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
_______. (VOLOCHINOV) Marxismo e Filosofia da Linguagem problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 8. ed.  Tradução por Michel Laud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1997.
_______.Para uma filosofia do ato responsável. Tradução Carlos Alberto Faraco e Valdemir Miotello. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.
DURRELL, Lawrence. O Quarteto de Alexandria. Tradução José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
TATIT, Luiz. Musicando a semiótica: ensaios. São Paulo: Annablume 2008
_______. O século da canção. Cotia: Ateliê Editorial, 2004.


FILMOGRAFIA:
ESTRADA PARA YTHACA (2010) Ficção • HD • 70min • CE/Brasil
Ficha técnica:
Direção, Produção, Roteiro, Fotografia, Som, Montagem:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti
Elenco:
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes, Ricardo Pretti, Rodrigo Capistrano, Uirá gos Reis, Ythallo Rodrigues
Figurino:
Lia Damasceno, Themis Memória
Pré-produção:
Carol Louise
Produção executiva:
Guto Parente
Música original:
Luiz Pretti
Produção musical e Arranjos:
Uirá Dos Reis
Projeto gráfico:
Fernanda Porto & Filipi Acácio
Produtoras: Alumbramento Filmes
Informações disponíveis em: alumbramento.com.br e em
https://www.facebook.com/alumbramento




CANCIONEIRO:
Luz Negra (Nelson Cavaquinho)
Meu Erro (Hebert Vianna)
Vai Levando (Chico Buarque e Caetano Veloso)
Volta por Cima (Paulo Vanzolini)
Divino, Maravilhoso (Gilberto Gil e Caetano Veloso)
Faroeste Caboclo (Renato Russo)
Pais e Filhos (Renato Russo)
Quase sem querer (Renato Russo)
Saudade dos Aviões da Pan Air  (Milton Nascimento e Fernando Brant)
Tema do Amor de Gabriela (Tom Jobim)
Nada será como Antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)




[1]Mestranda em Sociologia/Ciências Sociais pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia/Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e Letras, Unesp Araraquara. Orientador: Prof. Dr. Dagoberto José Fonseca. Bolsista CAPES. Isabelamoraistp@gmail.com
[2] Trecho de “Tema de Amor de Gabriela” de Tom Jobim
[3] Verso original de “Vai levando” (Chico Buarque e Caetano Veloso): Mesmo com toda a fama, com toda a Brahma/ Com toda a cama, com toda a lama/ A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando/A gente vai levando essa chama
[4]Letra original de “Meu Erro” (Hebert Vianna): Eu quis dizer/você não quis escutar/ agora não peça/ não me faça promessas/ Eu não quero te ver/ nem quero acreditar/ que vai ser diferente/ que tudo mudou/ Você diz não saber/ o que houve de errado e o meu erro foi crer/ que estava ao seu lado/ Bas notaria!/Ah meu Deus era tudo que eu queria/ Eu dizia teu nome, não/ me abandone./ Mesmo querendo, /Eu não vou me enganar/ Eu conheço os seus passos/ Eu vejo os seus erros/ Não há nada de novo/ Ainda somos iguais/ Então não me chame/ Não olhe pra trás./ Você diz não saber /O que houve de errado/ E o meu erro foi crer/Que estava ao teu lado/ Bastaria/ Ah meu Deus era tudo que eu queria/Eu dizia teu nome Não/ me abandone jamais.
[5] Trecho de “Nada Será Como Antes” de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.
[6] Konstantinos Kaváfis (1863-1933) in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paes.
[7] Trecho do poema “Ítaca” de Konstatinos Kavafis, tradução de José Paulo Paes in DURRELL, Lawrence. O Quarteto de Alexandria.
[8][8] Trecho de “Saudade dos aviões da Pan Air (Conversando no bar)” de Milton Nascimento e.
[9] Tradução transcrita no final do filme. Não cita o nome do tradutor.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

a morte virtual (ou estou online pro que der e vier)

Um belo dia de trabalho: uma manhã iluminada. As duas pequenas turmas de dançarinos com quem tenho refletido e conversado sobre linguagem são qualquer coisa de incríveis e já me tomaram por inteiro de corpo e alma em apenas três encontros.
A verdade é que pralém do encanto próprio da função de educadora - pelo qual estou completamente fascinada - cada um daqueles aprendizes é um sopro de vida. Queria poder abraçá-los, um a um. Quando ganho um abraço espontâneo, o coração se abre. 
É. Tenho dado poucos abraços aqui em São Paulo. Posso facilmente culpar a cidade - e faço isso muito bem: o trânsito e a lonjura das coisas são um álibi muito bom. Em Araraquara era sair de casa a esmo, numa batida de perna descompromissada para trombar com alguém. Se numa casa os amigos não estavam, era andar mais um ou dois quarteirões e ali, sem marcar hora nem nada, lá estava um rosto conhecido e abraços abertos pro aconchego de um abraço.
Vivi dias aqui de completa solidão dentro desse apartamento onde eu modelo meus dias. Solidão essa que me levou a uma crise de rins absurda, tamanho era o medo e angústia pelo novo recomeçar. Um parto doloroso de uma vida nova que promete muito crescimento. 
Mas de certo que muitos dos amigos que podem vir a estar lendo essas linhas desconhecem essa angústia, afinal de contas, eu estava ali, online, todos os dias. 

Religiosamente meu rosto aparecia no feed de notícias. Ora eu contava um causo, reclamava de alguma coisa, compartilhava, curtia, comentava. Postava fotos, frases. Indiscretamente revelava a vida. Convidava a todos pra me ouvir cantar, estabelecia contatos. O feicibuqui no celular praticamente substituia o sms. 
Pois bem. Dia de trabalho excelente, lembrança de gente de verdade nos poros, eis que me sento diante do mundo. Abro suas janelas, suas cores azuis, os rostos bonitos que transitavam naquela tarde.
Vi de relance ali no cantinho direito, onde as fofocas são contínuas e discretas que meu amigo estava prestes a participar do Golpe Comunista 2014 no Brasil. Amigo querido que é, fui espiar do que se tratava e vi toda uma festa armada e montada. Diante de mim então apareceu o vídeo-piada da vez. A junção de coisas non-sense era tanto que parecia uma costura feita especialmente para me tirar do sério: praça de alimentação de shopping, juventude PSDB e uma mina nada a ver fazendo ecoar um discursinho que virou moda no face de que o PT é Comunista!!!?! - Me expliquem de novo o que é comunismo. Pra mim ele tá bem mais próximo daquilo que cantam Elis e Bituca em O que foi feito devera do que em qualquer migalha de vermelhidão da estrela petista.

Mas não pára por aí. No dia em questão, uma quarta-feira, dia 15 de maio de 2013, coisa de uma semana antes do aniversário de 06 anos da greve de 2007, de leve 10 CAMPI da UNESP estavam paralisados, sendo 03 deles em greve. As demanadas? Além de um grito desesperado e recorrente sobre a melhoria das condições permanência dos estudantes (moradia, restaurante universitário), a rejeição ao PIMESP (recomendo fortemente a reflexão dos queridos Frederico Firmiano e Adriana Novais a respeito do caráter problemático dessa medida que pretende suprir/substitui/esgotar a questão das COTAS nas universidades paulistas - umas das únicas públicas no país que ainda não aderiram ao sistema).
Em 2007, os estudantes de Araraquara que encontraram o CHOQUE na calada da madrugada faziam coro com milhares de estudantes do Estado de São Paulo contra os decretos do Serra que feriam a autonomia universitária. Mas a única coisa que era dita a respeito até mesmo dentro do movimento que culminou na greve, que levou a ocupação da diretoria era que a sindicância que alguns estudantes sofriam em decorrência de um ato/festa que envolveu mais de cem alunos, no qual caixas eletrônicos foram pintados.
A história em 2013 se repete. A imprensa reduz a mobilização de Araraquara ao protesto de estudantes expulsos por terem feito uma orgia na moradia  - isso mesmo, leiam de novo, MORADIA. É. Por terem feito sexo como bem entendem e desejam, dentro de quatro paredes, 6 estudantes foram expulsos. Evidentemente, o caso explicita muitos problemas em relação a legislação da moradia, a forma como ela organiza e a total falta de liberdade dos estudantes que dependem dos auxílios para se manterem na universidade. Ah! Você é moralista demais pra suportar a ideia de várias pessoas fazendo sexo num cômodo da sua casa... mas então vamos lá, já houve sindicância para moradores pelo simples fato deles beberem cerveja onde moram, fazerem uma festa de aniversário! Eu pergunto, se você não pode fazer isso onde você mora, vai fazer onde?  - É uma questão de classe: playboy pode, oras.
Mas não. Ainda que esta fosse uma questão que merecesse um amplo espaço pra debate, o que fez 10 campi da unesp parar, foi a truculência, o racismo e o desrepeito do PIMESP. Mas a Folha de São Paulo orientava seus leitores o ponto de vista do democrático diretor da FCL que fechou o RU durante o período de ocupação. 

Eu precisava trabalhar. Construir um relatório, organizar arquivos, pastas, textos, artigos. Escrever um projeto. Fazer um relatório de atividades. Mas de repente até mesmo a Gal Costa cantando Bancarrota Blues me irritava. Ela irritada com o vento e fazendo piadas sem graça.

Tava decidido. Não sabe brincar, desce do play. 
Se eu não tinha controle emocional para digerir o mundo subindo em feeds pelo feeeeicii, melhor desativar a conta, respirar e acenar.
Pronto. E aí o face pergunta: "por que você vai embora? vão sentir saudades de vc!" - eu respondo "não se preocupe face: é temporário. Eu voltarei."

 E pronto. Conta desativada. Tempo indeterminado.

 - sessão de choro, grito, desabafo, dor física - e a raiva de mim mesma por me deixar afetar e não "cuidar de mim"

"Mas Isa, como você quer ser artista sem facebook?"

E de fato, era isso mesmo. Eu sabia que teria que voltar e que o charminho pro mundo tinha que acabar. Trata-se talvez de não dar tanta importância, ou administrar tudo isso melhor, or what-fuckin-ever.

Acordei ainda meio besta com o mundo pós sonhos vívidos e trabalhosos, mas hoje foi dia de saber que serei tia e não há tristeza do mundo que seja maior que essa alegria, esse choro gostoso, esse sorriso nos lábios. Pós chamego, eu volto pro facebook, menos de 24 horas depois.
Me alegro com os meus e compartilho o evento: afinal de contas, quinta-feira é dia de cantar. e tava lá eu contando pro povo.

Cheguei ao bar hoje e a cara era de espanto. E foi consensual: os donos do bar, o colega pianista, o amigo músico que intermedeia a agenda musical do lugar: TODOS perplexos e preocupados:

"o que aconteceu com você? o que aconteceu com o seu facebook que eu não conseguia falar contigo?"



"você mudou a sua foto. não consegui te achar. achei que a gente não era mais amigo..."

"eu fiquei preocupado: achei que você não fosse vir cantar hoje!"

"eu achei que tinha feito alguma coisa que você não tinha gostado de alguma coisa que eu fiz e não queria mais tocar comigo"

"nossa véi, tentei falar com você e nada".


Eu quase definhei biologicamente há quase um mês atrás e nada chegou perto do espanto dos quatro do que  o meu pequeno suicídio virtual. 
Oquei, óquei: o motivo era trabalho. Tudo bem. Mas foi definitivamente engraçado e chocante perceber como a minha vida e a minha conta no facebook podem estar atreladas a tal ponto.

Eu os acalmava: "tá tudo bem, eu já estou de volta"

Eu havia cometido uma falta grave. 

Pode até soar exagero da parte deles. Mas existe uma posição da Cruz Celta no Tarô, a número 8 por sinal, que diz sobre o modo como as pessoas, o ambiente de modo geral, estão recebendo, entendendo o seu processo e muitas vezes você pode não concordar. E eu sempre reflito com essa posição: se a alguém pensa de determinada forma sobre mim, isso está vinculado à minha ação. Há algo no que faço e sou que traduz isso, e faz com o que o outro me perceba dessa forma.

Eu de fato me mantenho saudável às vistas da ágora virtual. Escolho as fotos conforme a efeméride e o humor. E tenho dito pros meus amigos muito mais "estou online pro que der e vier" do que "estou aqui pro que der e vier".





é preciso mudar isso. radicalmente.
e eu vou. e quero.

mas como alguém que sempre gosta de me lembrar das coisas diz: "você é signo fixo, Isabela." 



É preciso vencer os limites daquilo que se é. É por essas e outras que a gente encarna e reecarna, cada hora de um jeito.

De volta ao facebook. 



Estou regressando aos poucos ao convívio dos de carne e osso, cheek-to-cheek.

Mas sem precisar me matar virtualmente, até porque, apesar de não parecer,  eu, definitivamente, não penso que sejam dois mundos apartados.

basta dar o salto da fúria para o amor,  da cegueira colérica para o discernimento que se desdobra em ação consciente. como diria meu companheiro: "da rede à rua".



Em tempo, como me complemento no ponto de vista do outro sobre mim, aqui vai, o que ele, meu companheiro diagnosticou minutos depois de ter com meu desespero:

"Hoje alguém que amo adoeceu. Não teve um surto psicótico, nem um ataque epilético. Mas adoeceu. Adoentou-se de tristeza pelo autoritarismo político da direção da UNESP. Aparvalhou-se de cansaço com o discurso ideológico da juventude (sic!) do PSDB. Ferveu náuseas com as novi-declarações linguísticas de Lobão (e, como estudiosa de cultura e politica dos anos 60, notou ressonâncias/reverberações para com a crônica jornalística pré-golpe). Sofreu física e psiquicamente uma trans/form/ação que dividirá águas. Kafkaneando-se comunísticamente o que há de bom... e sofrendo dores de parto do novo por-vir. O feed-retroalimentação bombardeou mais negação à vida que o contrário na teia antissocial. Da rede à rua."

E da rede à rua, me convidava a ler o menino Ruy Braga: O twitter e as ruas.

terça-feira, 14 de maio de 2013

medianeras

amanheci em três pontas. minha cidade. lá do sul de minas. onde? qual? depende de quem é você. Posso dizer que é a cidade do Milton Nascimento. do Wagner Tiso. do Café. do Padre Vitor. - nosso preto velho católico, que agora é "venerável" porque a igrejacatólica tá fazendo ele virar no papel o santo que ele já é pro povo. em última instância posso dizer: do lado de Varginha... lembra? a cidade do ET.

amanheci lá. minha cidade. três pontas doida. pequena. 
lá eu moro numa casa grande e afastada do centro. antigamente era longe de tudo e tinha o céu mais bonito que já vi na vida. agora o loteamento chegou. tudo bem, com ele chegou o asfalto. mas também chegaram as luzes laranjas. o céu continua lindo. mas o laranja atrapalha um pouco.

a gente aluga a minha casa grande. sempre tem festa lá. antes tinha mais. um dia, quando a grana der, a gente para com isso. lá tem piscina. ela foi um acontecimento. lembro do caminhão pipa chegando, há muitos bons anos atrás... 

mal nado lá em casa. casa. nos últimos 10 meses, eu tive muitas casas distintas. a casa-do-tunico em araraquara. a chacrinha, lá também. Três Pontas. Santos. marília, a casa com o amor. em São Paulo eu tive um lar emprestado que mora em mim ainda. hoje eu moro aqui, na Rua Clélia "é... perto ali do sesc pompeia!"

estou me acostumando a ter UM lugar de novo, depois de tanta andança. Andança esse que serviu de álibi pro corpo parado. parado. parado. angústia de lar novo nessa selva de pedra: comida, comida, comida.

resultado: corpo mole, pesado, cabeça grande demais.


eu vivo cotidianamente o choque de estar em SãoPaulo. Essa loucura que é estar num lugar com muita gente, no qual pra ir e voltar de qualquer lugar minimamente perto, é como fazer o trajeto TrêsPontas-Varginha como se fosse ali. todahora. 
tem tudo acontecendo ao mesmo tempo-agora.
e estar parado aqui é quase um crime. que cometi muitas vezes nesses três primeiros meses.


hoje eu finalmente resolvi botar o maiô novo e ir visitar a piscina do sesc. vou nadar. me mexer. 
sempre tive muita dificuldade em costurar meu cotidiano com o tempo todo ao meu dispor. parece que fui programa pra seguir uma rotina de fora de mim. a autonomia com meu próprio tempo é um exercício trabalhoso para que eu consiga me construir sem me boicotar. 

hoje eu me lembrei de um dos pedaços de um filme que tanto gosto. 

Medianeras tem um subtítulo em português que dialogava bem com o que eu vivia quando o conheci: "Buenos Aires da Era do Amor Virtual". iniciando um romance a distância, eu sabia bem o que era amar através de uma tela. Não à toa, o filme que é bom por si só, também é uma espécie de amuleto desse relacionamento, recheado e costurado, como todos os outros do mundo, por trilhas sonoras, poemas, filmes, cheiros e sabores.

Mas desde que vim pra São Paulo a história de Martin e Mariana me persegue não pelo amor virtual os encontros e desencontros, de quem tem tanto em comum com alguém que ainda nem conhece direito. O que me persegue é a sensação da cidade grande. Não é Buenos Aires, mas é São Paulo. Um universo todo novo.

A cidade e suas estações. Seus prédios. O crescimento desordenado. O caos de fora. O caos dentro.

Um dos lugares do filme que visitei hoje foi a piscina grande, fechada num prédio, aquecida e cheia de gente.

Eu tinha uma piscina pra nadar ao ar livre, cheia de árvores por perto. Silêncio e Sol. 
Hoje eu parecia uma jacu do interior (parecia?) "como eu faço, chego lá e nado?".

O exame dermatológico é uma bobeira. Enfim, importante. Mas fica lá o japa estirado no sofa do ambulatório. Alguém chega e ele salta ofegante "trouxe traje de banho??" Me troco. Ele vem. Pergunta se tenho isso ou aquilo. Olha os pés e as mãos. E a nuca. E lá se foram 18reais.

Antes do salto, precisei de chave e toca.
ops... salto? 

"moça, é muito rasa a piscina! não pode mergulhar..." "nadar, pode?"

 "moça seus olhos não estão ardendo não??" - MUITO! 
"Toma esse óculos aqui e me devolve. Senão à noite não vai conseguir dormir..."

Na raia que eu nadava tinha um senhor. Logo ele se transformou num moço cheio de disposição. Eu saltei convicta sem nem me alongar - e meus músculos doem todos enquanto digito.
Eu entendi logo a dinâmica de dividir uma raia. Tentava manter um ritmo de forma a não trombar no moço cheio de disposição, mas meus músculos estavam dormindo havia muito tempo. A respiração parecia de fumante. 


Imensa a piscina. E na minha cabeça eu via Mariana, do Medianeras e tentava lembrar da dica que ele ganhara dividindo uma raia "é melhor bater mais a perna ou o braço?"  

não sei. não lembro como nada borboleta e nem peito.
reveso costas e crawl.

tanta gente.

"moço, primeiro dia: descobri também que deixei meus óculos no lugar errado: qual é o lugar certo?"

não enxergo. é o cloro e a miopia. é tanta gente. 
no vestiário mulheres de todas as cores, idades e tamanhos. 
uma menina me olha curiosa... eu logo penso "ela deve tá estranhando meu jeito todo perdido."
eu quero me achar, sorrio e digo: "oi!"
ela ri, sem graça.

diz o nome. pega carteirinha.



hoje eu me senti finalmente vivendo numa cidade grande.

é são paulo, cheguei.
cheguei, são paulo.
cheguei.








domingo, 12 de maio de 2013

Flanemos!


Era carnaval e o Leo me marcou nesse escrito, desabafo, poéticoemprosa, num vômito em samba do que somos e podemos ser de forma tal que foi arrebatador.
Eu tinha acabado de gravar "Manifesto" de Leandro Silva de Oliveira e ali mesmo no post eu escrevi "é esse!". Leo é um escritor de mão cheia, de alma inquieta. Solta os versos nas pequenas reflexões cotidiana, como quem os tecesse apenas na displicência do cronista-poeta-do-dia. Mas ele forja os versos cuidadosamente, secretamente e por vezes somos brindados com postagens que as vezes se perdem no feed de notícias do livro da cara. Dificil achar o 14 de fevereiro no caos do homem que posta charges, críticas, notícias e música da boa. de humor ácido. e de sorriso imenso.
gratidão pela partilha. pela amizade.

a leitura tá aquém do texto. (Ouça aqui, ó: Flanemos!)
mas as palavras vivas foram sentidas e pensadas.
ele se fixa nessa leitura, mas ressoa e reverbera no universo.
porque SÓ AÍ é que o batuque faz sentido.


"Flanemos ao som de samba, suor e cerveja. Pelos quatro cantos do Brasil a terra se movimenta pelo balanço da síncopa de nossos ares. Viver as multidões é entender um pouco mais nosso movimento. Que seja perturbador, que seja ao ritmo do 2 por 4 marcado no surdo, que seja cansativo, mas percorrer a rua olhando pelos lados e vendo as faces rubrosas, febris, com sede, paixão e desejos, é um contorno para uma possível esperança. Que logo se esfacela fugaz numa quarta ou deixa uma brasa silenciosa que vai se reacender ao som de outros batuques, gritos incessantes e vidas verborrágicas. Só aí é que o batuque faz sentido. E pra tanto fazer é preciso haver multidão de peito esturrado, de peito sentido e não conformado. A solicitude aparece no reconhecimento e não na diferença que fingem respeitar, mas querem marcar na testa do cabra - porque alguns são marcados pra morrer e outros acham que irão continuar, embora seu vocabulário raso e caras absortas de camisas de forças nunca entenderão o flanar. Lado a lado: "Uma cachaça, porque a vida tá uma merda de boa!" - gritou estonteante o morador das esquinas vazias. "Uma vodkinha pra vida ficar melhor - disfarçando entre boca e pensamento - e pra eu não sentir muita evolidão dos poros bastardos" - apenas contorcendo os lábios para a amiga de olhos caídos.
Quando o poeta dizia: "Eu quero é botar meu bloco na rua" o verso intrusivo já marcara seu território para além-tempo. Aquém, não é só na esbórnia do corpo. A esbórnia da alma exige muito mais desprendimento, mais desapego com os olhares angulados que cortam as nuvens sem saber que há um horizonte. 

Rondam nossas jaulas, mas pela força da síncopa nos abraços, nos risos, nos tatos, no nascer de alguns impávidos - como Mohamed Ali - virá algum bloco que fará um samba tão torto, tão torto, que irão desconhecer, estranhar e farejar. No farejo verão que há tamborins e vozes, vozes, vozes, sem nenhum maestro. Susto. E assim com destreza de leões urrantes de fome e História sangria encontraremos nossa caça nos gabinetes, nas academias antepostas de música infantilizada, nos prédios murados de alergia do povo, nos latifúndios, no medo de quem não sabe pra onde vai e nem pra onde foi. E assim, mesmo os banguelas, comerão a não-vontade dos sorrisos brancos, brandos e lívidos. A cor das bandeiras ulularão entrepostas em cada esquina pautando as diferenças como crescentes adjuntos, em compasso que o lívido sorriso, agora pobre distorcido e perdido, nunca entenderá, mas olhará do alto de sua janela corroída por um tempo não visto e depois de jogar uma moeda e ninguém se mendigar ou se vender por esta, atirará seus últimos dentes e seu corpo púdico na incineração do bloco. Neste bloco havia 120 milhões, ou muito mais, de crianças no centro da tormenta. As veias abertas foram expostas. Alguns aguentaram, outros sangraram conjuntamente, outros nem viram, outros fingiram. Nossa derrota sempre esteve implícita na vitória alheia, nossa riqueza sempre gerou a nossa pobreza para alimentar o sorriso e o samba apodrecido apropriado de outros. Se não secretas as matanças, secretaremos os vícios de um samba que viciadamente é financiado e entoado sem saber por quais frestas nasceu e entoou seu mais forte poder. Os pés que sangram deixaram e fincarão suas marcas na terra da História até os subterrâneos do poder imposto.
Os cantos estão já sendo entoados pelas frestas da crise asmática da sociedade. Perigas e ouvirás. E...Cuidado com seu sorriso dente de leite."


de Leonardo La Selva
14 de fevereiro de 2013


treze de maio - começo do avesso


um papel foi assinado anteontem

lendas de ontem

dizem que com o papel tinha boas intenções

arrancaram a princesa de lá
e a república então garantiu que 
mãos e pés negros ficassem de fato
sem terra, sem dignidade por mais séculos e séculos a fio.



para a assinatura de uma princesa

a luta abafada e calada de muitos negros

- "intelectuais" inclusive.

um menino que gosta de se chamar Criolo
- assim como o aprendiz que se batiza AfroB depois de tanto racismo sofrido - 
gosta também de cantar assim:

"não baixa a guarda
a luta não acabou!"



Martha Barros


ps.: este é o primeiro dos meus papéis digitais.
assino nesse treze a lei áurea de libertar
minhas ideias
não quero mais ser túmulo delas.