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quinta-feira, 13 de março de 2014

luminoso

é como num labirinto íntimo em que as conexões são feitas conforme se anda mais pra dentro de si. e cada um dos passos são pegadas. nos espelhos espalhados pelos corredores estão tantos rostos. (chovia). sabe, mulher? essas coisas não se contam não. mas tem vezes em que o tempo abre uma porta e as coisas se conectam com uma força, que é até perigoso palavrar. (chove). em algum lugar que não aqui. há um pouco eu vi passar de moicano, com uma saia longa. Trazia todo preto um violão. Sentou na esquina da avenida movimentada e ficou contando das coisas da vida. (vai chover). Do outro lado, vinha uma estrela, como todas elas, nua. abria sua caixa enquanto o preto cantava. era de uma alegria abençoada toda aquela bobeira. o labirinto era um porão. a praça, uma rua torta. ("aqui". - [longe] sentir é questão de pele, e bate no violão) sabe? a estrela fez um buquê com flores colhidas do chão. o preto tinha as unhas pintadas do sangue dos dedos cortantes as cordas de um violão feito do aço frio da cidade inteira. dentro daquele lugar que a porta do tempo leva, tudo submerge. não há chão que não seja rio. e não há rua que não seja um trecho de canção. até o sol às vezes tira férias. volta depois furioso por ter sido aparentemente dispensável. ai o sol é menino bobo. esquece que o calor não mora no instante. ele é tesouro que move o mundo. fogo de cortesia e coragem.o preto sussurra e sabe dizer não. a estrela menina nova se perde no labirinto, nos reflexos dos espelhos, nas cartas da caixa, na sombra da verdade, no clarão. tem coisas que não se dizem não. são retiros. são traços. me contaram que a porta se abre pra gente se acalentar nesses dias em que os fardados não tem nome, em que a dor ganha corpo e bota o bloco na rua. que é coisa de silenciar e num perder a fé. o preto sabe da dor das gente. e alumia. ele sabe, que viver de verdade é perigoso - divino e maravilhoso - assim como fazer amor como se deve.

http://grooveshark.com/#!/album/Gil+Luminoso/4492634

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

e no meio da noite lá no alto eu via a lua imensa, querendo se encher. eu via do improvável céu. no colo do meu ouvido, o regar a planta do amor-rebento sentada à beira da calçada da rua torta. hoje acordei com a cidade e vim dormir com ela. filmei os passos da multidão nas esteiras. ouvi o ecos dos passos na lataria dos nossos buracos de tatu. numa filma imensa à espera do batuque e do preto, brincar de amarelinha, procurando a maga nas entrelinhas da grande cidade, parafuso que se mostra e se esconde. as prosas escritas, descritas, revistas das gentes em trânsito. o silêncio e o segundo que antecede o parecer. ali, em volta da mesa, os amigos se reencontram. e ali, onde se firma os olhos, na mesma altura e se mira aquilo que importa: andar junto. caminhar. ver de perto a face feia e não desdar as mãos, mesmo que de longe, mesmo com dor. hoje a noite se fez clara. vi livros noutras línguas. vi mais que palavras, vi vida. enxergo o sol de outras paragens na pele dos meus, sinto as palavras de décadas atrás me levaram para passear. vejo na ordem do dia meninos ansiosos por transformações, feminismo na ordem do dia - na sala de troca. abdico dos planos imensos e agradeço pelo milagre desse dia de trabalho. de suor. de labuta. justamente porque quero mais e sempre pra tudo e pra sempre. mas é daquilo que importa que falo aqui. a morte, a culpa, o ódio derramado a esmo, a escuta amorosa como ato de rebelde militância. militância do instante. fortaleza do passo. ecos que reverberam no tempo e no espaço. cada grão de areia, gil. na alquimia do tempo, que faz, refaz. que é ilusório e ao mesmo tempo a encarnação de nós. hoje há na bolsa doces e prendas. hoje o quadro é mais que quadro, é um retrato. uma meta. um raio. pra onde eu vou?
venha também.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

os grilos são astros.

na boca da noite, madrugada longa, cidade quente de Igaraçu do Tietê. longe e pequena, que o rio fedido que deixei pra trás é beira de mar ali, na Barra. Bonita. Bunita, que nem o riso dele.
Andando na madrugada serena e silenciosa, de dia que não se entende, a luz amarela logo a frente. Rostos desconhecidamente reconocidos - tinham as feições do menino. Na dúvida certeira, de vida que se vai, de corpo que se vela, eu vi pelo quadradinho da casa de madeira o rosto. Moreno. Sofrido. as marcas no corpo de últimos dias encarnado, do mundo, dos meios e métodos. pescoço calado enfaixado. a bata branca. e a lembrança de que se é mais que tudo aquilo.
éramos poucos. éramos muitos. logo ali, no batente da porta, pra baixo, na soleira da porta, eis que chega ele. e pára. e fica. Grilo. silencioso grilo. ali parado.
fica um, dois, dez, quinze minutos. meia hora. ele vela Marcão. eu fiquei em sua vigília. um menino desembestadamente desentendido daquela morte súbita avança pela porta lateral, a porta do grilo, verifica o corpo e sai. O grilo toma pisada na pata. não se abala. não se afasta. vela.

lembro que insetos mudam vidas. penso num amigo dentre tantas coisas budista. na beira mar, teve companhia de um na sua coxa e no decorrer do caminhar, ele pisa no bichinho. chora e se lamenta como se tivesse pisado em si, se estraçalhado com os próprios pés. não encontra colo ao chegar em casa diante de tal dor incomum num mundo em que bichos se matam aos montes e insetos são só coisas que atrapalham e por exterminar. lembro dele. do grilo. da sua metamorfose em vida. penso na passagem do marcão. penso que não adianta pensar. aceito. respiro. desacredito. velo.

perco de vista o grilo. esperto, ele toma pra si as folhas falsas de verde exagerado que embalam as poucas flores que enfeitam a sala triste. camuflado. seguro. ainda mais próximo de Marcão. velando.

O ponto de luz em forma de gente, amigo de riso sincero, fala serena, companhia na solidão de estar se senta ao meu lado. Falo do grilo. Ele ri.

"Sabia que na infância o apelido do Marcão era grilo falante?"



na boca da noite, no meio do mato
grilo falante agora é astro
brilha imenso feito estrela
e nos alumia.

vá-te em paz, meu irmão.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

sobre estar só.

 - mas assim, moça?
 - é.
 - desse jeito, assim?
 - é como foi. do jeito que tinha.
 - sei não. doutro jeito podia ser.
 - .
 - mas é que o riso era grande...
 - e a dor também.
 - mas tinha tanta luz...
 - ...
 - tinha tanta vida...
 - tinha, moça. tem mais não.
 - mas vida não acaba. só transforma.


 - é. pode ser...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

mansidão

pesava. de dentro pra fora. na concha. encharcada, escorria pela narinas: asas quebradas, o aperto do peito no peito. azul-imensidão-do-fim. baforadas e torpor. chuva de verão. lua cheia. estúpida. câncer, leão. com descaso olha: meses. números. cotas - contas. todas elas, menos uma. mansa brisa arrebenta as janelas, desossa as sutilezas do por vir. tá entupida, com o leito e a gata mijada. 'esculpida culpa estúpida': pensou em sequencia. palavras são só jogos paralisantes. parali-zante. antes. nó. (mente. sabe que mente. palavras são ânsias e por isso mesmo lhe fogem. golpeiam. cercam). prestes a zoar. olha a janela, mas não pula.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

e além de tudo me deixou mudo um violão - (ou música serve pra isso)




Pensa então numa boa combinação de Beatles, Chico Buarque, Riachão, Os Mulheres Negras, São Paulo, um olhar adolescente, ruas, problemas familiares, força e delicadeza? Conseguiu vislumbrar o que poderia amalgamar tudo isso? Sim. Um violão. Escondido, esquecido e empoeirado. 








"E além de tudo me deixou mudo um violão (While My Guitar Gently Weeps) é um telefilme, lançado ano passado pela TV Cultura, na quarta edição do projeto da emissora que teve como tema "A Música na Cidade". Dirigido por Anna Muylaert (de "É Proibido Fumar"), o filme nos conta a história de Erica, filha d'A Rita. A adolescente mora com a mãe, numa relação difícil, em que uma fala inglês a outra responde em português. Situação explicitada já no começo do filme: a bolha da mãe na casa de amigos, bebendo e contando piadas sobre a rainha, na língua anglo-saxã. Para chamar a atenção da mãe, Erica se solta numa piscina. Assim será por todo o filme, a mãe se atenta para Erica, pralém do abismo de seu alcoolismo, quando percebe a filha se divertindo com a música alta, ou, pior ainda, quando ouve saindo do seu quarto o barulho de um violão.

Chico Buarque e Beatles estão nas entrelinhas, se costurando nas mais possíveis combinações entre um e outro. Erica encontra na lavanderia - sim, com o alcoolismo da mãe ela tem de cuidar de si, passando pelas compras de casa e feitura do almoço - empoeirado um violão com a inscrição "LovelyRita". E na cabeça de cada telespectador passa um filme próprio: imaginar o músico brasileiro, que toca violão, que gosta de Beatles e conhece uma garota de nome Rita. E inglesa. E adorável. Nome de música. Sabe? sabe sim... gente bota música em tudo - canção pra tudo - ainda mais no Brasil... e... sabe aquele sensação gostosa estar vivendo um trecho da canção que gosta? Vida-arte e vice versa? 
Quando a gente fica besta de ver passar num lugar cantado numa canção - digo por mim que toda vez que vejo a placa "Vila Ipojuca" meu coração dispara e minha cabeça Trovoa, graças ao Maurício Pereira.

Pouco comentado nas boas quando não protocolares críticas do filme é o fato da trilha sonora ser feita pel'Os Mulheres Negras: a terceira menor big band do mundo, formada por dois homens brancos, que fez música nos meados da década de 80 misturando equipamentos eletrônicos, guitarra, saxofone, letras irreverentes, diversos estilos músicas, bossa-nova-beatles, humor, piada, versões, escrachos e a percepção de que de tudo se faz música e de que não tem regra do que é, do que pode ou não. -
  "Profissão de fé d'Os Mulheres Negras: tudo é música boa e tudo é influência. E ponto final". - nas palavras de Maurício Pereira. 
Pra não ser perder no leque de conexões, "Lovely Rita" tá no álbum Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, revolucionário e inovador nas técnicas de gravação, experimentação - : 

"Em treze canções levam ao limite o conceito do rock, agregando orquestrações, instrumentos hindus, gravações tocadas ao revés e sons de animais. Rockmusic hallbaladasjazze até música oriental se mesclam em Sgt. Pepper."  - e viva a wikipedia.
parece que na gravação de Lovely Rita usaram até pente e papel pra produção de efeitos sonoros
Experimentações e misturas: Beatles
Experimentações e misturas: Os Mulheres Negras.


Música serve pra isso - nome de álbum d'Os Mulheres, de música e de filme. "E além de tudo me deixou mudo um violão" parece que é o par ficcional da canção que conta:


"Que o mundo é tão variado / Tanta exclamação que às vezes / Não se nota que é constante / Que uma banalidade / Gere uma canção gigante"

Voltando dos devaneios pra narrativa do filme, Erica se diverte com os amigos em Barueri ao som de Imbarueri, com Maurício Pereira dizendo:


  "Onde a felicidade amarra o sapato. 
Imbarueri é do lado do lugar comum."



Após o encontro com o violão- velho, quebrado, empoeirado "Lovely Rita", o pai de Erica a incentiva a tocar e é o Maurício Pereira quem interpreta o delicioso vendedor de instrumentos musicais de um loja da Teodoro. V O tema é música na cidade, lembra? A cidade é São Paulo. A rua não podia ser outra. A Teodoro. Com seus vendedores que são músicos, trabalhadores. Gente que sabe o que tá vendendo, pra quem, pra que. Gente que em muitos dos casos queria mesmo era ser consumidor das peças sofisticadas e caras. Músico. Maurício. Na memória afetiva de quem ouviu "Um dia útil", as fronteiras entre personagem e ator se mesclam. Não. Não sei  - e acho que não - se o Pereirão já foi vendedor em loja de música, mas músico, de ofício, de trabalho, de cuidado, isso sim - não tem dúvida não. 


"e amanhã é mais um grande dia/ um dia comum de muito trabalho/ um dia grande / que nem um diamante / um longo dia belo / um baita dia duro e lindo / eu ganho pra estar brilhante / num dia útil"



O professor de Erica é um amigo das antigas do pai, "aquele gordo", interpretado pelo outro Mulheres, é claro, André Abujamra. E ele dá aula onde? É ali. Numa travessa da Teodoro - de pequenas portas e anúncios.

E aí é que são elas... com toda essa música sugerida, o que Erica quer tocar?

"Cada Macaco No Seu Galho". A música que ela ouve, na versão de Gil e Caetano, no último volume no seu quarto, seu galho, seu espaço, enquanto dança, se solta, se sente, flutua. Pra temperar a mistura desse roteiro, a canção é de um sambista de 92 anos, vivinho da Silva, Riachão, mesmo compositor de "Vá Morar com o Diabo" - imortalizada na voz de Cássia Eller.

As cordas do violão azul de Erica ressoam as dores da mãe. A fúria d'A Rita deixa mudo seu violão. É a Gota D'Água. Ah... Lovely Rita. Dor. Choro. Berro. Gente pequena que fica grande. Comprar o vinho. Roubar o vinho, chorar. Aguentar as pontas. Segurar o rochão. Explodir a verdade. Viver.

recomeçar. 

É a voz de Erica quem dá a trilha da deliciosa tomada dela, subindo a Teodoro com violão nas costas, entre as cores dos muros, das pessoas e dos ônibus, bem são-paulo.

"eu queria aprender pra tocar pra minha mãe."

"é. qual que é?"

A versão d'Os Mulheres d'A Rita do Chico é o filme em canção.  O vazio, o estouro, o samba, os Beatles, a sutileza, a singularidade d'Os Mulheres, anjos guardiães dessa história, com música por toda parte, porque assim ela está. Mais que compositores da trilha, Os Mulheres Negras partilham da proposta do roteiro, do tema explicitado, tratando de algo que lhes é tão caro. a presença da música na banalidade, no corriqueiro, como também nos ditos grandes momentos. Os Mulheres Negras contemplando essa presença cantada ou sugerida de canção por toda parte, como parte da vida. Transpira. Na vida e/da cidade.




[em resumo:
assistam ao filme. é delicioso.
e se você não conhece Os Mulheres Negras, não sabe o que tá perdendo.]

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

sobre 'contíguo' de Danilo Gusmão



de como e ainda com tanto amor,
ainda dou de barato
com esses companheiros de vida.






no avançar das páginas, cada uma das vozes se faz clara - mesmo que entrecortadas de preto e branco - negro suor.

Aline contou do cão, do cimento, do andarilho, espasmo.
Galvão percebe o cronista - atento-olhos-ouvinte e o duvidoso poeta, certo da batalha que trava.

muitas vezes não entendo, Danilo. - o que é bom.

Os espaços entre as palavras. . .

às vezes ele olha tão de perto (de tão perto) que cega a minha rapidez. que sorte ele cravado aqui.

ontem ele estava feliz de ouvir que seu livro-parto-palavra-rabisco deu tesão em alguém.

Eu me rendo: eu me detive: eu me assustei.

A poesia de Danilo me pegou desprevenida, lendo-a aqui, nessa poltrona em movimento, nesse verde-azul das montanhas.





- encontrar o sentido de título amarrado perspicaz à despedida sem ponto final. costurado(s) na alma de cada estrofe a dedicatória - e quanta sorte eu saber ver gente por detrás dos nomes próprios.

As citações precisas. Dan presente no Danilo. do verso em canção e também o caminho in-verso.

sem a melodia que embala, por pouco não se percebe a letra da canção, ali. mas o papel canta.








"grito na medula": o encontro do cão e do poema, nos esbarros e cacos da cidade grande. Nuno Ramos e Rômulo berram nas páginas pretas. E Dona Inah ecoa por onde o olhar para. olhar o cão. o detalhe. olhar a nós mesmos: sobreviventes da cidade cinza. mas,
 "sobre
                                                                              viver
                                                                              mata"

de como dou de barato. o geminiano besta de coração grande que não sabe como se apresentar na orelha de seu primeiro livro, é um homem imenso nas linhas (d)escritas. pariu um livro prenhe, bem pensado.
e revela, desvela, desnuda a cada um que se aproximar pra ver. ler. transpirar.
(este livro guarda versos que ainda cantarei)
até a minha declaração de amor ele me antecipou nos seus versos.

café







- então,
(pr’onde que o barco vai quando deixa o cais é de não saber pra gente que fica, que é cais. o cais da gente deixa margem pacata se pegar mais perto sem poder molhar. seca. a saudade que forra o nós um se arrebata e é feio falar. mas se fosse de fica-calada, quieta, guardava. é peito forte que escora esses corações, desses, assim. agüentam. o ocaso é cedo, o acaso é certo. se espalha pelos estreitos. é de muito as estradas na ponta da proa do se ser, num mar. e é carecido de fazer caminho um só que cante, estreito.  só que é de duas mãos, dadas, que o caminho prossegue. faz que não vem, mas vem. deixa. bota esse café na mesa. capricha num não dizer bonito de o dizer o quanto é de nem contar. recolhe meu ombro do olho e acolhe o meu pranto. nem santo que sara. padroeiro que guarde, nenhum. já é hora, meu bem. levanta dessa cadeira e clareia esse sol que é de nuvem. cala o agouro que o tempo se cansa em fazer de minuto. é canoa. teima de ir pra sem voltar. podendo voltar. se cansa. já é tempo de remo. deixo de fé. quarar num esmo assim de qualquer é dó. é céu, é mar que invade a gente e leva. passarinho que assenta na dobra da beira e fica. mora lá, castanho. vê se apruma do fundo. rodeia o ao redor. radia. aquenta o calor que as colchas lhe prestam. de volta: que é porto.)
sinto saudade.

- também,


(roberto me disse, mais cedo, enquanto fitava a janela, em busca de pássaros, que seu pai um dia lhe falou pra nunca mentir. roberto, depois, disse que seu-pai tinha se esquecido de lhe dizer a verdade. depois. a roberto eu dou ouvidos miúdos, atentos. tímpanos íntimos. verdade é calada, de aptidão inata ao sigilo. não é costume o seu dizer. é prélio de dentro, peleja de sem-findar. assombra o cerne do interno, o imo: de dentro. sofrimento não. esse é brado, clamor de fundo. meus sofrimentos são de fazer peito, qualquer que for, menor. guardados se atamanham, graúdos. abundam pra querer sair. quanto do não dito se asila num só silêncio sem talhar, lavrar. indizível. quanto passarinho numa beirada de estação, primavera. entremeio de dois tempos. difícil é sentir e ser ao mesmo tempo. pra sarar agonia que for: é verdade. pra estio, invernia. andorinha voa de primavera à primavera, maior que qualquer que verão-inverno. pra se não ter pesar, dizer: primavera. aflição desaflige quando sai. pelo menos apazigua. serena é agonia que deixa crisálida. borboleta: passarinho. primavera. menina, me nina no teu cinjo de volta. me abrange. perdoa. bobeira minha, sem ter de-. é tento agora. é tempo de aprumo. verão você, invernia de mim: maio-flor. horizonte amaina pra retina pouca. majora quando dois, companhia. quando somos. sejamos.)

amor.


híbrida síntese indissolúvel.

p. 113-115
GUSMÃO, Danilo. contíguo.

ou tudo de velho de fora e de novo aqui, ó,