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domingo, 7 de julho de 2013

o resto amargo - a solidão

"Mas tá fazendo frio..." ela imagina alguém dizer. Não importa. Pega as poucas moedas dentro da carteira e compra o picolé mais barato. É pequeno e cheio de corante. Melancia. Sei. É pra criança. E tudo bem. Tudo que ela mais queria era colo mesmo. Faz manha, que nem criança. E acha que vai curar a solidão com doce. - quem dera. Senta-se ao ardido sol do meio dia enquanto não embarca de novo busão gelado do ar inventado. Continua esperando alguma coisa ou alguém que lhe diga: "voce cresceu, baby!" Se levanta com firmeza nos passos. Não... foi só o ônibus ligando pra continuar a viagem. Leva agora consigo o amargo na boca que restou do doce picolé.
"Seu moço, o caminho é grande."

sábado, 6 de julho de 2013

rouca

Arte de APOLO TORRES
eu sei, seu moço
que ando moça de pouca prosa.
sabe que é seu moço?
tenho voz, mas ainda assim tô rouca.
sei não, seu moço
sendo vó, sendo mãe
sem saber dos meus nós
sei dos passos que não dei
dos que me esperam
e sinto assim, tão só.
mas vem vindo tanta gente
os amigos explod'em vida
e costurar o meu caminho
nessa colcha, co'esses fuxico
com a linha da dúvida
no compasso da incerteza
firme feito prego no angu.
eu sei, seu moço
mas se assossegue
que não é nada concê.
seu moço, o caminho é grande.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

trespontasdoida

sinto falta do seu céu
e da luz da lua que em lugar nenhum rebrilha como aí.
sinto falta do andar leve nas ruas
o pôr do sol mais lindo que já vi
seja na solidão das tardes adolescentes no cemitério, 
seja na companhia dos bons no altos dos seus morros. velhos.

Três Pontas doida: você não cabe no calendário.
Doida. Berço. Lar.
Contradição pura. 
Sair para poder voltar.
Voltar pra poder voar.
Estar e crescer

Teus passos tortos. mandos e desmandos e donos numa ladainha que já conta séculos.
o velho insistente café nas estradas.
meus parentes com cadeiras na calçada.
do roque aos pagodes que cantam no meu quintal alugado.
três pontas pretas:

do preto velho, santo católico, anjo e espírito de luz. que comove gente simples noutro dia que tres pontas vibra povo, gente, suor mais do que nas solenidades do inverno. Preto vitor que celebra a primavera dos povos cantado pelo outro preto Milton que aí cresceu e sabe subverter em canto de luta suas lembranças do catolicismo mineiro. Preto café nas xícaras dos que acordam antes do sol para a panha. Preta de tanta gente nas periferias. Preta na imagem do santo nas lojas do comércio.
Doida da praça que tem de um lado o eterno antro do rock e a igreja imponente da cidade. Ambos já testemunharam seus carnavais: corpos pelo chão, cortejos de alegria e fé.

Três
pontas doida.
Seus músicos, sua arte.
sua gente de salto e botique
sua gente invisível
sua arte de existir.

Salve, minha terra.
nossa terra. terra de todo mundo e quem se aprochegar.
Salve.



segunda-feira, 1 de julho de 2013

tomada

alguma coisa de fato está errada: andando feito barata tonta, procuro dois buraquinhos na parede. pudera ser só eu. na rodoviaria carioca, a tomada é artigo de luxo e cobiçado. As quatro da manhã os corpos oscilam entre os que se encolhem em sono proibido, curvos sobre malas e bolsas ou os que estiados no chão se ligam a outros mundo pelo fio que vai da tomada a um aparelho qualquer.
compro uma água, um desodorante e caminho sem perspectiva de achar uma tomadinha que seja. as bandeiras do Brasil inundam cada misero detalhe do lugar - nao.. é só impressao minha.
tomada encontrada. plug. ao meu lado uma mulher dorme. do outro lado daonde leva o fio,acordo meu irmao: "cheguei".
esqueço a enorme bola de futebol que decora o hall e o mundo vira uma pequena tela. os dedos velozes. mas ainda ouço a respiraçao dos sonolentos e a agonia dos insones.  - insisto em viajar sem fones de ouvido. talvez minha antropologia seja praticada na escuta da musica do cotidiano. ouvir?

do outro lado da tela vejo um pouco do que ignorei nesses dias de caos sentimental: tetra no maraca: treta fora dele. greve de patrao anunciada em rede social..  "os fiscais da revolução estão bravos com a seleção" . ai se fosse assim tão simples.

cinco da manha e o barulho ao redor aumenta. os passos acelerados. rodinhas. conversas. o guiche abre. uma mulher de unhas confeitadas se alegra por encontrar uma tomada ao lado da minha desocupada.

que que eu sei?
escrevo linhas inuteis de uma paisagem qualquer enquanto espero a dor passar. o encontro acontecer.  lerão essas linhas com a mesma fome que devoraram as outras? uma confissao confusa. um desabafo sem sentido.
ao meu redor está deserto e o barulho sufoca. falta/sobra cheiro nessa rodoviaria. e eu que ate outra madrugada julgava a hipocrisia das pessoas por nao gostarem de dar às coisas seu devido nome, ainda estou desconcertada e sem rumo com a franqueza de meu companheiro. vinte prasseis.
a rodoviaria do rio acordou.
meus demonios vao devagar terminando a despedida. acordaram numa sexta e foram exorcizados numa gira infinita regada de alibis.
a fila do guiche ao lado ja me atropela. amanheceu?

espero que do outro lado dessa tela o negro tenha encontrado no sono paz.

me levanto. desplugo-me da tomada. publico novas linhas inúteis e vou.

sábado, 29 de junho de 2013

não sei se foi número certo...

riffies era pouco. queria mais. na noite passada, era um piano de cauda/calda todo seu. notas infinitas teciam. o desconfortável era que junto delas vinha todo um passado inesperado. de repente, a vida eram lances de escadas e andares de shopping center qualquer e a saída dali não custava menos do que ouvir as lamúrias de um amor do passado. se não pode aparecer em carne osso, ok. que se desfaçam as lamúrias ali no reino de morpheu.
do meu lado uma deusa negra, bruxa, intensa. ela que sabe dos cavaleiros que a cerca. eu só ouço, vigio. mal sei de mim.
ainda vivo no descompasso do sonho. justo eu, que queria tanto acordar.
acordar pra quê? arrumar a casa, tirar as coisas do lugar, botá-las em plásticos, endereçar.

o sonho fica latente.
hoje é sexta? às 16:30 sai o ônibus pra ribeirão.... pra onde?
já tem meses que os ônibus levam é pra lapa, santo amaro, socorro. bom retiro.

hoje faltou carona. uma ova.
hoje, foi na medida.
o que vim fazer nessa cidade afinal de contas?

ouvir as canções prediletas. são poucos quarteirões, oras.
engula a comida de anteontem com novos condimentos. hoje a noite é de entornar: e morpheu só reafirmar.

mas imagens dele... há teclas, abraços, o colo e não há fim.

fora dali, há/a poucos quarteirões.
"quem são eles afinal?"


Para além do mundo dos cliques, as ressonâncias nos corpos: familiaridade antiga. sorriso e hospitalidade: viemos.

ao fundo, cantam-se o canto de xangô! salve, oras! hoje foi dia de comer quiabo.
pôsteres, cartazes. jardins suspensos. livros na vitrina ao lado do balcão do goró: um Jaques Danieis: hoje os daniéis foram tantos... Cowboy, por favor. - que gelo faz mal pra garganta. e a água atrapalha o rolê do goró.


ah, helena! isaurinha... tempestade. cabral capa de disco.
rárárá.
grandes sucessos: a música da mulher morta.  - de fato, ela podia ser qualquer maria, maria.


bis. dj não tem bis?
dançamos toda a verdade de existir. e respirar é mais quando se canta e dança... e há verdade em ali estar.
rodando, rodando, rodando, rodando, rodando...

o tocante só toca não dança?
tá bom. o aconchego. morpheu tinha razão.

caranguejos são diagnosticáveis. paciência.

papéis. cartazes. tanto faz.

literalmente, passo torto nas calçadas em direção à clélia. ora pois. - a viagem é daqui a poucas horas.

o sol negro dorme ao meu lado.
mandei um postal relembrando dos passos do samba parceiro - será que chega? senão, paciência.

posso dizer ao fim: "era só whisky, cão engarrafado".


meu gato, leon, não entende patavinas. sou só uma Felícia.

entendi o que vim fazer aqui.

o louco. o zero.
são paulo.


sexta-feira, 28 de junho de 2013

antes era só um trem

(dê play e leia)

o trem vai pela terra
vai pela serra, pelo ar
pelo concreto, asfalto e gente
entorna pelas ladeiras e entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão: a gente é gente
gente, gente.
Vida de boi, de gado, junto suado
exprimido: "Cê mora em São Paulo?
Já sabe empurrar no metrô?"

Seis da tarde: a mais triste das horas cristãs:
melancolia da morte do filho de deus:
"Pai por que me abandonaste?"

Somos tantos ombos, braços, pernas, bolsas
fones de ouvido. zumbido, silêncio.
testa franzida

o que são 20 centavos?
não é qualquer desatenção: é a gota d'água.

Salta do trem, do metrô, dos vagões, das escadas rolantes e esteiras que aceleram
o passo torto.

Vem pra rua! - e isso nem é propaganda da TV.

É gente. É povo. É canto.

"Se a tarifa não baixar olê, olê, olá
a cidade vai parar!"

"pula sai do chão contra o aumento do busão"

os pés no asfalto marcham
mar de gente: navegação

Bandeiras tremulam esperanças e ordem

o trem. trem. trem. busão. vagão.
locomoção.

Queremos espaço.
queremos andar, respeito, passar,
livremente.

Fazer valer o adjetivo do nome: PÚBLICO.

Febre interna se alastra: outros pés querem marchar.

Brasil agora é um ponto vermelho no mapa dos povos em chamas.

Podia ser 63, mas não é.

O passado vem à baila como canção e
memória que arde e movimenta o
andar do presente. Pra onde ir?

Bonde da trilhos urbanos saiu dos trilhos.
o trem de doido tá lotado
(e sempre cabe mais gente)

Choque. Bomba. Boom!
Coração, ato, amor.
Fúria, ação, pavor.

"Moço você paga tarifa: abaixa o cacetete
e vem pro lado de cá"

Podia ser 63, mas não é.

Violão fraco e rouco não cansou de chamar:

o samba tão imenso transborda as calçadas e praças do país e toma as ruas.

Antes era só um trem.

Agora é o próprio movimento.



17 de junho de 2013, antes das 17hs.


Texto lido durante o  II Ciclo de Estudos Discursivos
realizado pelo GED coordenado  por Luciane de Paula
na FCL da Unesp de Assis
enquanto Trenzinho Caipira era executada por Patrick e Jéssica (piano e violino)
Camila e Nicole na voz.


o sol de dez paus.

hoje o sol veio visitar.

há dias a melancolia sufoca, paralisa
e a chuva só faz preguiçar.

na verdade,
o sol chegou ontem à noite.
em realejo.

o sol trouxe papeis.
todo inquieto,
sugeri que escrevesse
escrevesse, freneticamente.

o sol é negro
tem cachos e inquietações.

dormiu na minha cama
comeu da minha comida.
me ouviu cantar
e benzeu a noite
encanto de gente
em canto de mar.

hoje ele invadiu a janela.
o quarto iluminado pedia por vida

hoje o sol era fogueira com dez paus
eu era um pajem.
com minhas espadas
fiz ventar a casa
embora vai a poeira
(que haja espaço para o novo)

hoje o sol quarou as roupas no varal.
hoje o sol se resolveu com os papeis.

hoje deixamos o mais pra depois.

eu e o sol.
e como ele ainda resiste na boca da noite
hoje sambaremos noite a dentro.
eu
e o sol.