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terça-feira, 26 de novembro de 2013

naufrágio

me afogo com as palavras
vou tropeçando pelas ladeiras
os pés encharcados
a água que corre, escorre
pelos cabelos, os pés, o ventre
me inunda.
imunda, engasgo e soluço
me embriaguei de poema
de vírgulas tortas
parágrafos inexistentes
paráfrases, parábolas
metáforas
de repente a espada, um punhal
nas mãos de um cavaleiro
desastrado.
o café virado de gole de três dias atrás
o papel entalado na garganta
o ar não passa.
antes a garrafa toda do bourbon
ou o saquê da festinha cool de uma terça qualquer
me afoguei nas palavras.
nenhum dicionário há de me salvar a vida.

domingo, 24 de novembro de 2013

são passos.



Foto Clandestina
A primeira vez que assisti ao show do Passo Torto foi lá na Casa de Francisca. Eu ainda morava em Araraquara e vim, única e exclusivamente, para assistir ao show. Há algum tempo encantada com os barulhos paridos pelos quatro moços de múltiplos projetos nessa cidade cinza, eu aproveitei a deixa de novos amigos e vim. É de fato uma casa. Pequena. Aconchegante. Mas que presa pelo espetáculo. Não se serve nada quando começa a apresentação. Fotos proibidas (eu vi uma moça fotografando e fiz duas clandestinas! rá). Silêncio total e absurdo. Mas o quarteto ali está literalmente em casa. Entre uma música e outra, alguma história. As piadas com a ausência dos discos pra venda e a divulgação do site Umquetenha para baixá-los e a alfinetada certeira nos "grandes da mpb" por Kiko "O Chico não disponibiliza lá...". Mas eis que eu ouço uma reclamação de que ninguém cantava junto as letras das canções... Poxa!! Eu até queria. Com todas as letras de cor, fiquei sussurrando ali... mas me senti totalmente constrangida pelo local e não saiu um risquinho de voz.

Já habitante da pauliceia, eu fui caminhando da (já) saudosa rua Clélia até a Serralheria ali na Guaicurus.  A Serralheria é um terreiro. Um terreiro numa sexta-feira a noite. O palco pequeno, o público entre sentado e em pé. Mas estávamos próximos, público e artistas. Com alguns meses de lançamento apenas, o show do álbum "Passo Elétrico" ainda tinha gosto de estreia. O disco se confundiu com junho, com as ruas cheias, em choque, em transe. O show em ciclo abria e fechava em barulho, dissonância. "Passarinho esquisito" abriu para "Um homem só" e sua bonita solidão, compartilhada com as mulheres, "Isaurinha", na crônica recheada de malícia nos sussurros de Rodrigo, entre Belém, Natal, Portugal, com vergonha do amor e "Helena", nas confissões da cidade que é um rádio por dentro, de prédios que têm varizes, bronquite e que também morrem. Na retomada do álbum anterior a música que de fato é uma linha de continuidade entre um álbum e outro: "A música da mulher morta" - com direito a piadinhas de música de sucesso... o show fluiu entre a belíssima "Tempestade" de Fróes e Cabral que, dessa vez, além de ter um encarte só pra si, dava o gosto de sua voz. Do disco antigo "Da vila guilherme até o imirim" tentamos puxar um coro, Rômulo até deu a deixa..., "Sem Título, Sem Amor", assim como "A música da mulher morta", era canção que ligava um álbum noutro, a proposta da ironia, da frieza, do escárnio, da frieza, da estranheza da existência torta e cinza, que atinge seu ápice no sambão de cavaco e violão, Bis do espetáculo, "Rá rá rá":
Desculpe a dignidade
De lhe dizer atrocidades
Mas essa é a minha maior qualidade
Deixa eu gozar
Enquanto eu morro
De tanto rir

Rá rá rá

e "Cidadão" (uma das canções mais bonitas, na minha humilde opinião.)




Foto de Alessandra Cabral
Ontem foi a terceira. E nada de casa, terreiro. Era palco. desses com cortina vermelha, paredes brancas com detalhes dourados. Mas com vontade de ser descolado, com as cadeiras de plástico brancas e uma luminária de led, em pleno contraste com a pompa do lugar. E no Centro. Um prédio construído dentro da ideologia - reacionária - do "Revitalizar o Centro de São Paulo". Prédio modernoso, pensado por diversos arquitetos e zás e zás e para ser um anexo ao Theatro Municipal  - para "fazer companhia" ao solitário centro de cultura do centro da cidade.
Escorrendo contradições, por suas paredes e vidros, o evento que ali acontecia era o Conexão SP (e acontece ainda enquanto escrevo), patrocinado por operadora de celular. O apresentador se gabava ao nos lembrar de que estávamos no Centro. E de fato, estávamos e tudo de graça. Mas os muros de Samuel são construídos dentro - é "Samuel" apareceu no teatro nas vozes de Kiko e Rodrigo. O evento divulgado na internet solicitava que imprimíssemos os ingressos - gratuitos. Seguranças imponentes  - simpáticos também, devo dizer que sorri muito pra linda negra que se chateava por ter que me revistar a cada entrada e saída - eram o aviso: aqui não entra qualquer um. "Diz Samuel, que que cê pensou?"

Atrasos. Eu pensei que não veria o quarteto, já que cheguei pralá do anunciado - mas, como sou besta! festival: atrasos. Mais de horas. Entramos no teatro e então a pergunta "Gente, já pode começar?"
A sala de concerto é invadida pelos barulhos de "Passarinho esquisito". E o show vai. Muita luz, pouca luz, luz que não dialogava. Diálogo em mímica com a mesa: festival, som nunca nos eixos de -cara "abaixa aumenta" dedo apontado pra Marcelo - de fato baixo, baixo. Ao longo do show, entre uma canção e outra, as falas diretas com a mesa.
- mas pro público, os dizeres das canções. apenas.

Há quem desqualifique por aí a chamada música barulhenta. Mas por mais que eu quisesse um show do Passo Torto em pé, dançante - eu não me aguentava nas cadeiras e liguei o foda-se cantando todas as letras que sabia! - faz sentido que aquele show aconteça ali, sentados, assistindo. São barulhos em texto e contexto, com sentido, com tempo e razão de ser, cada um dos detalhes. E quem conhece as canções - sim, CANÇÕES - espera por aquele riffie naquela hora e os cantarola junto. - Exige-se concentração. E estarem à vontade, com som, retorno e público.

Era o festival. Com shows acontecendo simultaneamente. A contradição do show e do lugar: as pessoas se movem. Levantam. Deixam o lugar, o show: "Não pode sair durante o show pessoal", Marcelo disse antes de começarem justamente "Samuel". Aplaudidos logo na introdução e ovacionados no fim. "Viu? Quem saiu perdeu", dizia Kiko.

Mas eu, euzinha aqui, senti falta do estarem em casa como no terreiro da francisca ou da serralheria. Pra gente não teve nenhum mísero "boa noite" - tudo bem, vai. o clima do show. mas um boa-noitezinho?

Foto de Alessandra Cabral
Foi longe de ser o melhor show deles e eles sabem disso: a falta do cavaquinho no retorno e a letra que se erra, o menino que não entra na estrofe certa pra fazer o dueto. Mas ainda assim, um arrebatamento, imenso. Gente que nunca os tinha visto ao vivo, saiu dali embasbacado. Feliz eu fiquei por ver uma menina de sei lá eu, 3 anos, sendo chacoalhada pelos pais enquanto a guitarra do Kiko abraçava em microfonia o retorno.

eta menina de sorte de ouvir essas coisa assim novinha.

passo torto ao deus dará dos Cidadão Esquizofrênico ali bem perto, no Centro. tão perto e tão longe da música enformada da dor encarnada de existir na contraditória são paulo. são palcos. são passos.

ps.: e é claro que eu sambei "Rarará", de pé e sem pudor em pleno teatro. que agora não regulo mais mixaria.

transa

primeiro o corpo comprimido
sabia do risco 
o tempo já anunciava água
e mesmo assim teimava
em sair desprotegida
mas do que nos protege um guarda-chuva?
então aceitou as lágrimas
que lhe caíam do céu
soltou os cabelos
e deixou que eles se enamorassem
abriu os braços
e rememorou a maré.




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

transita entre pessoas
desapercebida a mente
e tece contorno das palavras com gosto
tropeça nas peças
do quebra cabeça
dá por si e quando vai ver
é amiga de um poeta morto.




com Sônia Pinheiro, amiga das travessuras da afinidade
 - que desrespeita tempespaço
e Wilson Caritta, quem descubro viva palavra
depois de póstumo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

terça-feira, 19 de novembro de 2013

da maior importância

vá embora, vá.

sentamos então nas banquetas das memórias. enquanto falava dos rancores que nos perseguem, havia o interdito de estarmos ali - fantasmas de um mundo que não veio, numa festa de um futuro tosco, que nos amedronta.
me mostrava os prédios antigos como quem quisesse tocar um rosto, se ver novamente no papel, nos pequenos e certeiros traços que a academia aprisionou e condenou ao esquecimento.
Ressentidos: um vendendo os pecados, o outro comercializando sua descrença.
Depois das viagens astrais, aurais, resta o estar condensados, tateando sentidos.

na calada da noite fria, houve o momento do silêncio que grita. o álibi das mãos eram o olhos que encantados distribuíam levezas.


Foram atropelados no meio da rua deserta. cada qual com uma versão diferente:
 - foi a pressa do teu passo
 - foi o balanço das tuas mãos, das tuas ancas
 - foram as luzes do caminhão.

Acordados, de olhos fechados. hipnotizados de olhos abertos. nada do que se dissesse poria fim à agonia. nem remediaria os hematomas dos tombos.

num só golpe, foi feita então a oferenda: borramos o mapa com percalço, procuras, com guache, com suor. ríamos. e entre nós a distância incontida do retorno. a lógica eram os borrões de tinta num quadro de cores primárias meio pollock, meio jazz.

me cansei do abstrato concreto e engoli você, então. sua confusão, mastiguei sua falta de sentido pras coisas. engolia a sua letra maiúscula de Moça, seu adeus-até logo, sua ironia, acidez - sua carência inconfessável e infame.

Afinal de conta éramos os mesmos ali. enfeitiçados e enlaçados por pontos distantes das mãos. um, morto de certeza. outro, doente de dúvida.

- engulo eu. vomita você.
zonzo, enauseado, você se aproxima. vomita minha desconfiança, minha insatisfação, meu ciúme, meu ego. vomita minha cara de tacho, minha farsa, meus trocados.

Fagocitados pelo vazio, nos despedimos em silêncio. Num encruzilhada, como havia de ser. 
misturados. atônitos. comovidos de indiferença.

baixada a poeira escondida/arrastada pelo vento, debaixo do tapete do tempo
reafirmo meus passos e minha fé
ao responder as perguntas
que você não me fez.


Quem ouve sua voz
Diante dessa voz
Parada entre nós
Reconhece
O som
Permanece
Som
Afogado
Antes de virar
Felicidade
Prende todo o ar
Quem pega sua mão
Nos dedos dessa mão
Mergulha o coração
Condenado
Ao céu
Mais nublado
Põe
Assombrado
Frente ao azul
O mais azul
Azul de um céu imenso
Cadê você
Pra me levar
Cadê você
Pra mergulhar
Na areia, na manhã
Os pés e as mãos
No lado escuro
Do meu coração
E quando meu cansaço
Cair de cansaço
Daí vou saber
Se era mesmo
Você
Se era tarde
Ou
Tempestade
Que passou sem ver
Sem nem dizer
Se ainda vai voltar
(Tempestade, Passo Torto)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

.arquivo.

[porque quando a prosa trava
ela imbirra, emburra
se destaca
improvisa.
quando a prosa trava
ela brisa.]

***
de quando em quando
o corpo congela
a mente em cólicas
as articulações teimando
o som é a maior de todas as drogas
postas ao redor da roda
fogaréu picadeiro
o ar é uma enchente.
o riso-artigo cult
xadrez, estampa
arrogância alternativa
microcosmo e sua canção
passárgada distópica
siglas em combustão
canil, prainha
carro de patrão.
lampiões de laterna
caixotes modernosos
lustres e imposições coletivas.
nodulos. e o corpo entorpecido
das filas, das iscas., dos riscos.
alternância térmica
cores com poder.
a lama sob sol
posta em dia de feriado.
se exibem os sorrisos em black
riem da independencia.
debocham da fé alheia.
paripasso-suscinto
em foco-síntese
lUcidDream
sente-se o corp'acordar.




***



os amigos virando livros
ela com batom vermelho
espera o passado
ouve harpa no jardim
espirra em diminutos




***



olha a risca, arisca
- arrisca.




***



deletes
metros de metrôs
aperto, acento.
sol com brisa
frente fria.
e vinha mesmo. uma fria. enorme.
no poisé do pai
cafundózona-sul
clarence-dias-joão
bongôs de iemanjá
jangada.
volta arisca.
= a culpa é da lua.
nem é da sua conta.
vinte quatro - nem um segundo a mais.
sem busão
sem noção
cu-na-mão
anj'andré
consolação-raposo
rodovia
fria
companhia

são paulo é fria
é fria, maluco
é fria.