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quarta-feira, 23 de abril de 2014

caminhante noturno

pisa o silêncio
caminhante noturno
foge do amor
que a noite
lhe deu sem cobrar
sem falar, sem sonhar.
vai, caminhante.

transgressor, ele era desses que sentia desejo. a torto e a direito. tentado pela força da terra, pelo movimento imperativo do vento, as labaredas do fogo. explodia de dentro pra fora a queimança de amor, o vendaval de bem querer. bem quis tanto até cegar. bem quis tanto que do afeto, da gratidão, do carinho, da sutileza, deu querer trazer pro corpo também a alma daquela que o pariu. e lembrou do acolhimento do útero, do quente, do úmido. da textura da pele nos lábios. o abraço dos seios fartos. quis se aninhar de morrer de amar e a amou. a fúria encarnada em olhares, dizeres, em fluxos de pensamentos, em dedos apontados. em riste. uma água de poço parada, um ruminar de não entender: ele foi condenado a vagar pelas estradas. antes mesmo da fúria branca do pai criador, fora o caos de dentro e o antever do caos de fora que o fez andar, andar. andar a esmo. andar. a torto e a direito. galopar. e dessa fúria solitária de excesso e falta de amar ele cria e destrói por onde passa. volátil como metal. corta fundo onde passa. arranca. marca. dá passe e vez a quem caminha. atenta aos sinais das folhas. quase não fala. mas tem olhos que ardem toda a cor. vagueia e quando é lua cheia, uiva alto. mata de surdez o dragão.






sexta-feira, 28 de março de 2014

sutilezas

A mesa era grande, larga, alta, de madeira e laranja. Cabiam os livros todos, as bagunças todas, livros, fichamentos, chás, mandingas, computador. Cabia a confusão.
Na madrugada perdida, o moço era um encantamento com um mundo que eu queria em ato: uma boca que gritasse rebeldia, ouvisse boa música, não envergasse a espinha e de quebra tivesse riso largo.
O moço gostava de afro-samba, era curioso, bom de prosa e corrigia provas pela madrugada adentro. Por engano acertado do cosmos eu cantei o moço. E eu não mentia não: eu queria mesmo era amor e mais nada. 
Nessa madrugada o moço tinha gosto de melancia e enlace dos seus.
Eu na terra da laranja, da cana, dos amigos e no moinho da minha solidão, queria aquele braço de abraço que eu nem sabia direito se me caberia. Eu queria...
Queria tambem conseguir parir texto, compor, mestrar, amar e fazer alguma coisa com essa existencia presente de viver.

Esses dias tava pensando... O moço agora é quem se debruça sobre uma mesa grande e branca nonde cabem os livros, as angustias, os papéis, os computadores, celulares, fios, memórias, ideias, confusoes e desejos 
Hoje, e agorinha agorinha, quem corrige as provas sou eu.
Antes a janela que dava pro muro, agora dá pra cidade que não para. 
Ele, que tinha quintal que dava pro muro, que dava pras arvores e os cães dos vizinhos, agora vive num apartamento no mesmo que a dona repressão, na cidade onde dizem, fede à bolacha.

E nesse meio tempo, ainda que as janelas tenham mudado de lugar e de mira, nossos corpos se descansem sobre outras sinfonias urbanas, selamos a vontade da caminhada juntos. Encontramos os corpos,  os medos, os sonhos, os mapas dos afetos. Transformamos amigos em padrinhos.

O moço é tudo e tão mais que o dourado que reluz no meu dedinho de criança,  mas assim também o é e segura comigo as flores recolhidas do asfalto da selva, presentes de Iansa e do tempo, enquanto cometo a indelicadeza cruel de sorrir para estranhos no metrô. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

luminoso

é como num labirinto íntimo em que as conexões são feitas conforme se anda mais pra dentro de si. e cada um dos passos são pegadas. nos espelhos espalhados pelos corredores estão tantos rostos. (chovia). sabe, mulher? essas coisas não se contam não. mas tem vezes em que o tempo abre uma porta e as coisas se conectam com uma força, que é até perigoso palavrar. (chove). em algum lugar que não aqui. há um pouco eu vi passar de moicano, com uma saia longa. Trazia todo preto um violão. Sentou na esquina da avenida movimentada e ficou contando das coisas da vida. (vai chover). Do outro lado, vinha uma estrela, como todas elas, nua. abria sua caixa enquanto o preto cantava. era de uma alegria abençoada toda aquela bobeira. o labirinto era um porão. a praça, uma rua torta. ("aqui". - [longe] sentir é questão de pele, e bate no violão) sabe? a estrela fez um buquê com flores colhidas do chão. o preto tinha as unhas pintadas do sangue dos dedos cortantes as cordas de um violão feito do aço frio da cidade inteira. dentro daquele lugar que a porta do tempo leva, tudo submerge. não há chão que não seja rio. e não há rua que não seja um trecho de canção. até o sol às vezes tira férias. volta depois furioso por ter sido aparentemente dispensável. ai o sol é menino bobo. esquece que o calor não mora no instante. ele é tesouro que move o mundo. fogo de cortesia e coragem.o preto sussurra e sabe dizer não. a estrela menina nova se perde no labirinto, nos reflexos dos espelhos, nas cartas da caixa, na sombra da verdade, no clarão. tem coisas que não se dizem não. são retiros. são traços. me contaram que a porta se abre pra gente se acalentar nesses dias em que os fardados não tem nome, em que a dor ganha corpo e bota o bloco na rua. que é coisa de silenciar e num perder a fé. o preto sabe da dor das gente. e alumia. ele sabe, que viver de verdade é perigoso - divino e maravilhoso - assim como fazer amor como se deve.

http://grooveshark.com/#!/album/Gil+Luminoso/4492634

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

e no meio da noite lá no alto eu via a lua imensa, querendo se encher. eu via do improvável céu. no colo do meu ouvido, o regar a planta do amor-rebento sentada à beira da calçada da rua torta. hoje acordei com a cidade e vim dormir com ela. filmei os passos da multidão nas esteiras. ouvi o ecos dos passos na lataria dos nossos buracos de tatu. numa filma imensa à espera do batuque e do preto, brincar de amarelinha, procurando a maga nas entrelinhas da grande cidade, parafuso que se mostra e se esconde. as prosas escritas, descritas, revistas das gentes em trânsito. o silêncio e o segundo que antecede o parecer. ali, em volta da mesa, os amigos se reencontram. e ali, onde se firma os olhos, na mesma altura e se mira aquilo que importa: andar junto. caminhar. ver de perto a face feia e não desdar as mãos, mesmo que de longe, mesmo com dor. hoje a noite se fez clara. vi livros noutras línguas. vi mais que palavras, vi vida. enxergo o sol de outras paragens na pele dos meus, sinto as palavras de décadas atrás me levaram para passear. vejo na ordem do dia meninos ansiosos por transformações, feminismo na ordem do dia - na sala de troca. abdico dos planos imensos e agradeço pelo milagre desse dia de trabalho. de suor. de labuta. justamente porque quero mais e sempre pra tudo e pra sempre. mas é daquilo que importa que falo aqui. a morte, a culpa, o ódio derramado a esmo, a escuta amorosa como ato de rebelde militância. militância do instante. fortaleza do passo. ecos que reverberam no tempo e no espaço. cada grão de areia, gil. na alquimia do tempo, que faz, refaz. que é ilusório e ao mesmo tempo a encarnação de nós. hoje há na bolsa doces e prendas. hoje o quadro é mais que quadro, é um retrato. uma meta. um raio. pra onde eu vou?
venha também.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

os grilos são astros.

na boca da noite, madrugada longa, cidade quente de Igaraçu do Tietê. longe e pequena, que o rio fedido que deixei pra trás é beira de mar ali, na Barra. Bonita. Bunita, que nem o riso dele.
Andando na madrugada serena e silenciosa, de dia que não se entende, a luz amarela logo a frente. Rostos desconhecidamente reconocidos - tinham as feições do menino. Na dúvida certeira, de vida que se vai, de corpo que se vela, eu vi pelo quadradinho da casa de madeira o rosto. Moreno. Sofrido. as marcas no corpo de últimos dias encarnado, do mundo, dos meios e métodos. pescoço calado enfaixado. a bata branca. e a lembrança de que se é mais que tudo aquilo.
éramos poucos. éramos muitos. logo ali, no batente da porta, pra baixo, na soleira da porta, eis que chega ele. e pára. e fica. Grilo. silencioso grilo. ali parado.
fica um, dois, dez, quinze minutos. meia hora. ele vela Marcão. eu fiquei em sua vigília. um menino desembestadamente desentendido daquela morte súbita avança pela porta lateral, a porta do grilo, verifica o corpo e sai. O grilo toma pisada na pata. não se abala. não se afasta. vela.

lembro que insetos mudam vidas. penso num amigo dentre tantas coisas budista. na beira mar, teve companhia de um na sua coxa e no decorrer do caminhar, ele pisa no bichinho. chora e se lamenta como se tivesse pisado em si, se estraçalhado com os próprios pés. não encontra colo ao chegar em casa diante de tal dor incomum num mundo em que bichos se matam aos montes e insetos são só coisas que atrapalham e por exterminar. lembro dele. do grilo. da sua metamorfose em vida. penso na passagem do marcão. penso que não adianta pensar. aceito. respiro. desacredito. velo.

perco de vista o grilo. esperto, ele toma pra si as folhas falsas de verde exagerado que embalam as poucas flores que enfeitam a sala triste. camuflado. seguro. ainda mais próximo de Marcão. velando.

O ponto de luz em forma de gente, amigo de riso sincero, fala serena, companhia na solidão de estar se senta ao meu lado. Falo do grilo. Ele ri.

"Sabia que na infância o apelido do Marcão era grilo falante?"



na boca da noite, no meio do mato
grilo falante agora é astro
brilha imenso feito estrela
e nos alumia.

vá-te em paz, meu irmão.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

sobre estar só.

 - mas assim, moça?
 - é.
 - desse jeito, assim?
 - é como foi. do jeito que tinha.
 - sei não. doutro jeito podia ser.
 - .
 - mas é que o riso era grande...
 - e a dor também.
 - mas tinha tanta luz...
 - ...
 - tinha tanta vida...
 - tinha, moça. tem mais não.
 - mas vida não acaba. só transforma.


 - é. pode ser...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

mansidão

pesava. de dentro pra fora. na concha. encharcada, escorria pela narinas: asas quebradas, o aperto do peito no peito. azul-imensidão-do-fim. baforadas e torpor. chuva de verão. lua cheia. estúpida. câncer, leão. com descaso olha: meses. números. cotas - contas. todas elas, menos uma. mansa brisa arrebenta as janelas, desossa as sutilezas do por vir. tá entupida, com o leito e a gata mijada. 'esculpida culpa estúpida': pensou em sequencia. palavras são só jogos paralisantes. parali-zante. antes. nó. (mente. sabe que mente. palavras são ânsias e por isso mesmo lhe fogem. golpeiam. cercam). prestes a zoar. olha a janela, mas não pula.