Nus e meninos Do mar da vontade Correm soltos Atiçam fogueiras Ardem Meninos Do desejo Não perguntam Não esperam: Dizem em letras graúdas. Corpos são extensões Do mundo Que é todo brincadeira Picadeiro Brinquedo Formam as palavras Soltas Que cultivam por ai Posso brincar em você? Encadear trava línguas Meia noite, meia luz, meia lua Lua inteira Virar maré cheia? Ser teu trampolim? Promete que não me conta, Não me desconta, Não me censura a fissura? Promete que não responde todas as perguntas E nem deixa de fazê-las? Promete que não me promete nada? Que eu juro que não esqueço. - até cruzo os dedos. (em parceria com gabriel kieling)
A onda celeste era já uma ressaca. No centro de Buenos Aires, coisa de uma da manhã, rostos cansados enchiam pontos de ônibus, papéis picados cobrindo o chão, se perdendo entre as folhas secas de inverno. A lanchonete 24h abrigava os famintos, estampava caricatutas dos ícones pop do país. No balcão um homem de mochila aberta, barba na cara tentava vender uma máquina registradora de décadas atrás - era uma coisa, com botões, bem enformada... lia-se em seus olhos. Valor de uso, valor de troca, misturas de apreço, necessidade, utilidades e desejos.
Finalmente chega o lanche do companheiro de madrugada. Entre uma mordida e outra e falas descompassadas em portulhano, eis que uma voz sobressaia.
Ele tinha pintadas na cara bandeiras nacionais, a espinha reta e uma voz que não cansa de chamar. De uma lucidez inebriante ele pedia, olhando nos olhos de todos: "despertem".
Se dirigia ao homem vestido sei-lá-eu se de segurança-policial e pedia "você que é uma autoridade me explique, porque eu não entendo."
Aos poucos liguei sua fala ao que vi na TV do hostel horas antes: repressão policial no centro de Buenos Aires. Cenas fortíssimas. A mesma TV que não tem problemas em exibir no momento de maior audiência, intervalo da final, a feitura de mais de mil casamentos homoafetivos, não tem pudor em mostrar a truculência da sua própria polícia.
"Era uma momento de festa. Eu beijava minha menina, um beijo longo de cinco minutos. Havia uma mulher com uma criança de colo e eles simplesmente chegaram e nos baterem. Vi uma criança com sangue na cara."
A Argentina há muito não ia pra uma final. Uma multidão caminhava pelas ruas ontem, quando o sol da bandeira iluminava o centro. Portas cerradas protegiam os cafés da multidão sedenta que não encontrava telão pelas ruas pra ver os dribles do Messi. Não se passava incólume pelo telão imenso digital de frente pro Obelisco, ali, na Corrientes y 9 de Julho, que projetava a Coca Cola grande grande patrocinadora de uma alegria que ali, ela era incapaz de proporcionar.
Correndo contra a multidão pelas ruas, de volta ao abrigo do hostel, para gritar escandalosamente como bons brasileiros, já sabíamos de cor a parodia da canção de Creedence: é. O grito de guerra deles é uma boa zoação com a nossa cara. - e que confesso que me irritava menos, bem menos, do que o "eeeeeeeeu sou brasileeeeeeeeiro".
Na fala daquele homem, indignado por apanhar durante uma festa popular nas ruas, eu encontrei mais uma vez mais proximidades do que as richas tão bem alimentadas pelo hábito e pela estupidez: a truculência da repressão policial, um verme que passa por todas as veias abertas da latino América, arregaçadas. Uma latino América que pouco sabe de si, criada para saber mais de Hollywood do que seu próprio cinema.
Aliás, perdão. Aqui eu me lembro de uma conversa com um colombiano, que tem uma expulsão por militância estudantil da universidade pública - contra o desmonte da educação - , num hostel em Montevideo, sobre o nosso desconhecer mútuo.
"O que você vai levar dessa viagem?" Me perguntou meu novo amigo, que com a voz embargada me mostrava a rua onde morreram 20 pessoas em 2001, falando das lutas, das multidões...
Eu levo meu sangue latino. E a lembrança do pedido daquele homem "despertem".
fui pra Argentina escondida da minha mãe. é. ela jurou que estava em Barra do Una. Com alguns putos no bolso, bem acompanhada, com violão e muita reza, encaramos estradas, dormimos em postos de gasolina, recebemos ajuda, cruzamos fronteira.
E mítico... como o primeiro lugar em que passamos uma noite em território argentino após cruzar o caos da babilônia paraguaia e toda a sua tranqueira pelas ruas, se chamava nada menos que Eldorado. é. Eldorado como o paraíso do Cândido, de Voltaire. é. ganhamos frutas bonitas de uma brasileira no primeiro lugar que paramos pra pedir informação, fomos parar num parque público, recebidos por um velho cuidador de um museu, que nos deu mate e teto.
Argentina nos abraçou. e me lembro bem de que foi um janeiro em que ela abraçou vários de nós: lazinho, chester, mery, dj, angelinda e tadeus. muitos desses se encantaram foi lá pros lados de Mendoza. - que dizem daquelas frutas e daqueles campos...
Nós não. Fomos até BuenosAires e voltamos. Como atingir o pico da montanha e descê-la em seguida. A melhor lembrança da capital foi como adentramos suas fronteiras num domingo-fim-de-tarde: congestionados os postos de pedágios se renderam às buzinas insuportáveis e ininterruptas de todos aqueles veículos e abriram suas cancelas... ah! o poder do coletivo...
mas não. a melhor lembrança foi sacar que garota de ipanema até atrai gringo na rodoviária, mas na praça da cidade o que se quer saber é de lembrar dos mortos, celebrar a vida e não deixar de lutar.
a memória arde na pele e no canto. E foi num Trem Azul - olha que ironia - à caminho de casa, em algum momento das mais de 24horas que passamos na parte mais barata dos vagões, se deliciando com as
maravilhas caseiras, vendidas por famílias a cada vilarejo de parada, foi ali, num Trem Azul que conhecemos um casal, que como nós, tinha a música como algo em comum. Cantamos a eles nossas canções e ouvimos as deles. Canções belíssimas sobre memória e luta, como quem faz uma balada-de-amor-qualquer-mela-cueca. assim. simples.
Eles se mostraram de uma felicidade incrível em saber-nos brasileiros e disseram que gostavam da música "mas não do sertanejo" - como pudemos percebê-lo popular entre os motoristas de caminhão...
mas os olhos brilhavam ao falar de Caetano Veloso, Marisa Monte...
Lembro como se fosse hoje que cantar Velha Infância e Sozinho - na versão Caê - nunca tinha sido tão cheio de sentido e com tanta beleza. Aqueles olhos brilhantes ouvindo aquilo deixam a gente cheio de inspiração. Assim, entre um vagão e outro, com sol e vento na cara.
E ai... não me venham então dizer pra não torcer pela Argentina. Faz favor, vai? Não digo nem por conta do futebol, mas sabe? não tenho motivo algum pra implicar com aquela gente. aliás, eu só aprendi com cada uma das pessoas que cruzei por lá, mesmo nos momentos mais angustiantes - Santo Thomé que o diga.
Sabe? Simpatizo com essa gente que tá tão perto - e ao mesmo tempo, de tantas formas diferentes - tão longe da gente.
as brisas tiram do papel de fundo a cara da Martha de Barros. e já passava da hora de mudar. sabe, quando precisa mudar alguma coisa na cara? não dá mais? mas não é que martha não seja a cara, é que eu tropecei domingo na Vânia. e a Vânia me tomou, assim, por inteira. o traço, a colagem, a insistência. os números. os pedaços. a incompletude, a ausência.
nessa sessão aí eu quase não aguentei. Vânia exposta no MAC apresentou um SÉU tão foda que não consegui nem fotografar.
mas eis o vento. porque as brisas da isa não se querem mais rascunho, mas sim sementes. o vento. eu aprendi com minha irmã, de tudo é feito. foi feito pra semear.
meu espírito falou pela boca de outro que minha presença é leve (ausente e marcante) feito cheiro de terra molhada.
o preto não é tristeza. nem luto.
mas noite essa sim, me persegue.
vânia veio. e sabe o que é? é inverno. e eu emberno. inverso.
Linha verde. Ana Rosa. Sentido Vila Madalena. Entraram no Paraíso. Ela com aqueles cabelos cacheados, imensos, a pela negra, o sorriso largo e branco. No rosto a bandeira pintada da França, assim como ele, loiro, de olhos claros, pele braaaaaaaaaaaaanca branca, todo enrolado na bandeira. Juntos e risonhos. Contrastavam no metrô não muito cheio de gente pós-dia-de-trabalho, se não era do estádio - como o itinerário parecia me contar que não - eles ao menos vinham de um clima de Copa, ver jogo e curtir: juntos. Eles se beijavam. Aquilo me incomodava. é. eu sei. me senti a repressora de uma repressão que eu senti tantas vezes por no auge da paixão beijar em lugares públicos. Mas ao mesmo tempo, o beijo deles me excitava. E preenchia todo o espaço. A impressão que eu tinha é que todo mundo estava vendo os dois, materializando ali, por exemplo, a razão de ouvirmos o metrô falando inglês, as placas de sinalização, as festas, os jogos, o turismo... tudo ali. nos dois. sutis. E era a negra - pra ele, ou pro esteriótipo, a mulata - e o loiro do olho claro, gringo... "será que ela entende o que ele fala?" (oi? é sério que você pensou isso isabela?) me vinha aquele asco subindo pelo sangue da cena tão vezes dita e divulgada e ampliada e quista, mas ao mesmo tempo vinha a minha paranoia: e por que eu tô pensando que ela tá com ele por interesse? por que ela é preta? por que ela é preta e por isso deve ser pobre e precisar de um pinto-bem-de-vida? ela pode ser simplesmente negra, mulher dona do seu corpo querendo conhecer gente nova. E ele? precisa ser um filho da puta que só veio comer as brazuca? Rememorei minha adolescência quando nossa cidade foi invadida por jovens italianos que ficaram com várias meninas da minha turma, inclusive eu - e ali, nenhuma de nós queria um casamento, um visto internacional ou a grana deles. Mas era super divertido trocar com alguém de outro país, que fala outra língua, que sente outros gostos. Por que, meudeusdocéu? "Só" porque ontem eu amanheci com a PrintScreen da página do Luciano Huck atrás de loiras solteiras a fim de achar o gringo dos sonhos? "Só" por que o turismo sexual é uma prática abominável e recorrente desde que esse continente é chamado de Pau Brasil? Por que somos vendidas como mercadoria? Nossa imagem? Dizem que somos as mais gostosas do mundo, as mais belas, mais sexys... e nos enchem as revistas "femininas" e de "adolescentes" com caras como ele, loiro, do olho claro e dizem "isso sim é homem bonito"? Ao mesmo tempo, eu fecho a cara e lembro do Céu de Suely, que rifou uma noite de amor pra poder ir embora sem depender do sustento do afeto de homem algum. Xica da Silva. E tantas quantas mais mulheres nessa história de séculos de opressão de classe e gênero não viram no próprio corpo um meio de negociação?
Hermila Guedes em O Céu de Suely de Karim Aïnouz
E aí eu piro e penso noutra ainda: e daí se ela só quer sair com esse cara? Alguém enche o saco dos marmanjos que só querem "beijar, beijar, beijar?" E daí? Porque eu mesma já ouvi alto e em bom tom que eu não deveria ter ido pra cama com um cara que conhecia há pouco mais de uma semana... será que algum homem já ouviu isso? E eu estou aqui dando voltas e voltas mentais enquanto vejo os dois ali, porque de repente, eu sorrio ao ouvir as gargalhadas de outras mulheres... e gargalhada de mulher pode ser perigoso né? Na real, eu estou é tentando entender por que, mesmo escroto ao nível da cafetinajem explícita feita por um cara que tem uma projeção nacional, por que essa merda teve 22mil likes, só até o momento em que fizeram o print? 22mil pessoas acharam a ideia o máximo. muitas mulheres devem ter entupido a caixa de entrada com respostas de que por que querem o gringo dos sonhos... Não sei se aquela negra linda que vi ontem no metrô mandaria um email daqueles. E nem se esse cara seria um dos gringos escrotos que vão topar essa besteira televisiva. Sei que eles estavam ali, rindo, se tocando discretamente. "Next station: Consolação. Acess to line 4, Yellow" E saíram de mãos dadas. E eu enquanto subia as escadas rolantes da estação Faria Lima, pensando na "Suely", do Céu de Suely, na Joe de Ninfomaníaca, no vai-tomar-no-cu da Dilma, no texto foda do Duvivier, no texto foda da Eliane Brum, dizia: "a gente dá conta sim, porra! frágil o caralho." Ps.: esse post foi escrito ao som do álbum "Micróbio do Samba" de Adriana Calcanhoto. mais do que recomendado.
Pra quem precisa de 'argumento de autoridade', segue um vídeo didático da TVFolha guiado pelos comentários do Kfouri que esteve presente no largo da batata quinta-feira, quando da manifestação "Copa sem povo, tô na rua de novo", com a presença massiva do MTST.
Toda vez que em alguma manifestação eu ouço o pedido de "mais segurança" eu acho a coisa mais abstrata e perigosa de todas: estar seguro contra o quê? Giorgio Agambem nesse texto aqui ó <http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1568> pontua muito bem essa questão. De quem, do que estamos querendo nos defender?
Muita gente já viu (http://www.cartacapital.com.br/blogs/midiatico/mtst-responde-ticiane-pinheiro-201cpra-que-discutir-com-madame-201d-2181.html) a montagem feita que ironiza a fala de Ticiane Pinheiro no seu tweet parada no congestionamento ocasionado pela manifestação. Ela usa palavras como "insegurança, impotência, medo, vergonha"... Ao lado uma foto dela em seu closet e abaixo a foto de uma ocupação do MTST. - tá literalmente desenhada à diferença social e a perspectiva ideológica, de classe. Ela sente medo de trabalhadores que não têm onde dormir numa cidade que possui um número de imóveis abandonados e/ou vazios duas vezes maior que a quantidade de pessoas que ocupavam aquelas ruas. A montagem, como infelizmente eu li nos comentários, não traduz 'inveja' pelo guarda-roupa da madame. Mas os lugares de fala/ato das pessoas.
No momento em que "tudo causa revolta", estar indignado, pedir a cabeça da presidente, descer o nível e xingar, bradar em memes da TV Revolta, nada disso diz muita coisa. A fúria cega lincha inocentes, enche a gente de amargura e um ódio, esse sim, impotente. Nos afasta da nossa humanidade. No momento de indignação no estado atual das coisas, parar, ouvir, meditar sobre as mediações, processos que fazem com a situação seja essa... a compreensão e a disposição à mudança estrutural, em atos, mais do que um brado mimado e terceirizado de quem não se sabe perdendo a humanidade pouco a pouco.
E em tempo, nessa brisa imensa, ironicamente nessa segunda-feira assistindo ao CQC, eu senti uma empatia pela Ticiane, incontida: ela foi vítima do quadro TOP Five, ao ser totalmente ironizada, achincalhada por ter explicitado em rede nacional que seu afeto por seu bebê é tanto, que por vezes sentia falta do cheiro do seu cocô, que para ela era como perfume. Ela foi terrivelmente agredida simbolicamente por ter expressado seu afeto. Eu, daqui do meu canto, estudiosa do realismo grotesco, da ligação orgânica com o nosso corpo, achei de uma sutileza plena e uma fresta de negação - que ela nem cogita ter feito - com o céptico e fechado corpo burguês. O humor do CQC que só rebaixa, acusa, aponta o dedo e mal sabe rir de si mesmo, semeou essa chacota agressiva.
Dez anos depois, eu participei pela primeira de um dos maiores eventos culturais da América Latina: a virada cultural na capital paulista. E com vários plus: depois de morar aqui por pouco mais de um ano e um tanto quanto menos perdida na hora de fazer os itinerários e enfrentar metrôs e caminhadas; em pleno ano de Copa do Mundo, com a cidade preparada pra receber a gringaiada; e um tanto quanto mais ciente dos processos de produção cultural da cidade e tudo aquilo que a gente sabe por intuição, porque afinal de contas a cultura é de todos.
E começo assim porque pra essa brisa, eu chamo pra prosa o tão do Raimundão Guilhermino (raymond williams) que certa vez brisou sobre cultura a partir do seu repertório cultural inglês: bem, nesse final de semana, a mineira do Sul de Minas, lá das Três Pontas, quase uma Araraquarense (araraquariana) passeou numa boa pela chuva de granizo paulistana que nem os novos baianos.
Se já foram passados 10 anos, é claro que há todo o pessimismo quanto à virada: 'a cidade tá lotada', 'a galera fica muito bêbada', 'rola arrastão', 'você se cansa e não consegue ver tudo', 'os palcos ficam muito lotados', numa argumentação que leva a um 'não vale a pena'. Mas eu resolvi abstrair e munida de boa companhia, fui à saga:
a pré-para-ação era dar uma olhadinha no GoogleMaps pra traduzir em caminhadas reais os nomes dos palcos onde ecoavam as promessas de bom show, mas nada que o bom Mapa da Virada não proporcionasse em cores, com o nome de todas as atrações de todos os palcos, Centros Culturais, CEUs e Sescs.
Afinal de contas a gente volta ao tópico um: pralém de localizar bem os próprios paulistanos, eventuais brazucas que se aventuram na paulicéia, esse guia lindo e colorido bota no mapa lugares que estão prontos para receber turista: essa foi a minha sensação plena e nítida ao adentrar, por exemplo, o Mercado Municipal de São Paulo - todas aquelas cores, atendentes sorridentes, frutas, cadeiras, artesanato, tudo limpo, claro, aquela arquitetura imponente que me levou num passe-de-mágica as grandes construções da velha Inglaterra. Lembrei do pedaço de um programa da Globo, desses que as pessoas cozinham, mostrando uma compra feita no Mercado. De fato ali um monte de coisa boa: meus amigos e eu fomos ao delírio em cores ao comer uma salada de frutas por uma bagatela de 4reais que tinha desde goiaba, morango, manga à exótica pitaya, sentados nos carrinhos do lado de fora do Mercado: a vista era de uma São Paulo cinza, carros, viadutos 'se tivesse água, aqui seria um porto, pensei' - ao longe, ali à frente, casas coloridas 'é a zona cerealista', contou o Puncha.
Caminhar do Theatro Municipal até ali em busca de um forró foi andar por uma São Paulo que me lembrava Belo Horizonte e os lugares por onde me acostumei andar desde pequena em segurança e guiada pela mão de minha mãe: o que mais me assustava não eram as muitas pessoas nas ruas, mas a quantidade de PMs na rua me agoniava. Eles transitando numa normalidade hipócrita: os lugares de sociabilidade daquilo que eles dizem censurar estavam ali, intactos dependendo de quem fazia o quê: dizendo em bom português, os palcos e agrupamentos culturais estavam - como sempre - 'legalaize'. MUITA Polícia.
Eu fui pra virada sem muita noção do que fazer porque sou PÉSSIMA pra fazer escolhas, mas com algumas intuições e eis que as andanças - o que deu certo e o que não deu, como por exemplo, esquecer e/ou abstrair que o SESC distribuiria todas os ingressos às 17h e não uma hora antes como no Theatro Municipal, me fez não assistir ao Siba e a Fuloresta, mas dar um rolê pelo Largo da Batata :) Ahhh como eu gosto daquele canto ali, deusdocéu!
Uma coisa que me seduz é a maneira como as pessoas viram na virada, as pessoas mesmo, da cidade, ali, sua rotina... é. gente gente de verdade. Não havia um Palco da Virada no Largo da Batata, no máaaximo a vibe Maracatu Manguebeat rolando solta no Sesc Pinheiros - e quanta gente de axé e maravilinda eu vi nos 5 minutos que fiquei por lá... Mas ainda assim, quanta gente, quanta cor e quanto som ali!!!
Muita muita muita música ao vivo. Bares cheios de gente com suas histórias: aquele pedacim no meu imaginário romântico é meu pedacim de "vou rifar meu coração"
Enfim, voltando, das andanças todas, a virada me proporcionou ouvir 4 álbuns tocados ao vivo:
na dúvida imensa do que fazer pra começar e saindo de um lançamento de livro e tal e coisa fui parar - pra ser bem previsível pra grande parte dos meus amigos - no palco da Barão de Limeira pra ouvir dona Juçara Marçal, com o show do álbum ENCARNADO - sem dúvida um dos álbuns que bota 2014 na história.
Arte de Kiko Dinucci pra capa do álbum - ouça aqui ó https://www.youtube.com/watch?v=18p5_PiPk8E
Lá estavam no palco do reagge contrariando a lógica da coisa sem nem um baixo ou um instrumento percussivo: foi ao som de Velho Amarelo - uma das melhores músicas do Século XXI fácil, rs - que as atividades se iniciaram pontualmente no palco da Barão de Limeira. E lá no palco contrariando uma outra lógica - como por exemplo a do show do Otto que eu veria depois: a cantora fica do lado esquerdo de quem olha do palco, num canto e na mesma linha, NA MESMA LINHA, de igual pra igual, os seus três parceiros de barulho: Thomas Rohrer, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci.
No show do Otto no palco da Rio Branco - que se chamava VINIL por sinal, já que ali todos os shows seriam tributos a álbuns clássicos, fazendo eco a um projeto da Radiola Urbana -, no show do moço que é o sex appeal em pessoa eu sabia que o Rodrigo Campos estava lá porque ele havia participado do show dele no Sesc pra esse projeto e porque vez ou outra Otto falava o nome dele, porque ele ficou escondido num nivel abaixo exatamente atrás do Otto. - não digo que isso tenha sido feito de propósito - jamais! só digo, que isso tem a ver com um cuidado que não foi desprezado na formação anterior e que diz MUITO sobre o modo como essa galera que é amiga, truta mesmo, um bando, como eles se cuidam e fazem música juntos.
Não à toa foi na plateia do show da Juçara que dei um abraço apertado na Anna Zepa, Marcelo Cabral e Romulo e foi no show dele que eu vi a cantora linda maravilhosa linda na plateia curtindo... enfim.
Mas Otto porra... é o OTTO com toda aquela simpatia, swing... falando as vezes demais, mas cantando nada mais nada menos do que esse álbum maravilindo que é o CANTA CANTA MINHA GENTE, do Martinho da Vila, que completa quarenta anos - e que continua absurdamente lindo, ousado e subversivo:
E subversivo mesmo! Se a gente pensa que foi nessa semana que o juiz do Tribunal Federal que nos contou que as "crenças de matriz afro não são religião", o seu Otto fazer a gente dançar um bom e velho batuque evocando a obra do Martinho é qualquer coisa. E Otto lembrou o episódio, assim como nas suas palavras apaixonadas ao fim do show: DELISGUEM A TELEVISÃO! DESLIGUEM A TV! NÃO TENHAM MEDO!!!!
E aí eu penso que justamente por podermos dançar pros nossos santos ali num show, numa madrugada regada à fumaça e gorós - e a fins - em plena rua, com som alto falante, no meio de desconhecidos que uma "crença" como essa assusta tanto essa galera... como isso pode ser parte de uma RELIGIÃO? Ai gente... vários poderiam ser os argumentos lógicos, antropológicos e científicos, mas vamos no clichê de que religião vem de RELIGAR? Ligar-se ao seu santo com dança e canto já é por si argumento, certo?
E pra quem tava super querendo varar a madrugada, o encontro maravilindo com velhos e bons amigos me leva de volta pra casa logo após o Otto, pro descanso que no outro dia era levantar cedo pra ver a dona ELZA SOARES!
Um dos álbuns mais lindos que descobri ano passado se chama "A BOSSA NEGRA de Elza Soares" e vejam bem se ela não iria cantar justamente esse?!
O show foi no pomposo Theatro Municipal que muitas vezes a gente sabe que é lindo por fora, mas nunca entrou e se sentou naquele estofado vermelho. Valeu a pena fica mais de uma hora na fila. Aquela senhora com 8 parafusos na coluna que não para na cadeira e que canta canta canta conta cousa e nos diverte... aquela senhora toda brilhante, cabeleira farta, que brinca com a voz e com todos os instrumentistas que a acompanham... que deixa o seu maestro louco assim como o técnico de PA... aquela mulher que contou sem falsa modéstia que foi considerada a Cantora do Milênio... aquela... é... ela estava ali, plena em seu ofício e nos fez absurdamente feliz.
Ouçam esse disco: com essa capa pensada por Ronaldo Bôscoli, como ela mesma conta, nessa pose de Sarah Vaughan, nessa tentativa de enquadrar a mulher no rótulo BOSSA-JAZZ do qual ela comunga mas sempre ultrapassou - sem demérito pra nenhuma das duas 'classificações'. Ouçam esse repertório delicioso... mas pensem que ao vivo foi qualquer coisa de lindo. Sem falsa nostalgia, releituras, brincadeiras. Ali, um álbum encarnado num canto que rasga fundo. Que benção poder ouvir essa mulher!
A travessura de pular as cadeiras do Municipal - e levar uma bronca por isso - pra correr para o show que acabara de começar de Rômulo Fróes cantando o TRANSA (Caetano Veloso, 1972), com toda a trupe, na real estava me levando para o último show que assisti da virada.
E era óbvio que eu estaria ali, como duvidei?
Esse show aconteceu pela primeira vez se não me falha a memória em junho de 2012. Eu estava em Araraquara ainda e já estava super interessada no som que esses meninos PASSO TORTO estavam fazendo aqui na paulicéia, e o TRANSA foi disparado o álbum que mais ouvi em 2010 e que me marcou para caramba! Logo, eu fiquei alucinada pra ver esse show e não vi. - e não é mistério pra ninguém que minha mudança pra SP tem dentre várias variáveis seguir os rastros sonoros dessa galera aí.
Com o sol na cara, pinga boa na cabeça, eu delirei com a progressividade que o álbum ganhou nas cordas dos meninos e no som melancólico do canto de Rômulo. Eu já sabia que encontraria uma recriação - assim como seria e foi quando parte dessa galera releu os afro-sambas. Eles sabem que se você tá falando uma mesma coisa já tá dizendo outra - então dizem mesmo do jeito deles, com as cores deles, outras.
E como falam.
Mas foi ali também, durante o show deles que vivi uma das cenas mais bizarras de toda a virada: um homem baixinho, com uma fisionomia meio indígena sulatinamericana - sei lá seu se boliviano, venezuelano - com um capacete de trabalhador de construção civil, com uma água lhe saindo pela boca que molharam sua camiseta, parou diante de nós 3 e ao sentir meu corpo se retrair, porque ele responde com nossas sombras, feiuras e preconceitos bem antes da gente cogitar usar o intelecto - ele disse simplesmente: "eu sou um trabalhador e quero conhecer vocês" e mostrou suas mãos... - e aí me lembro de Antonio Candido contando sobre Vinicius de Moraes que lhe escreveu que 'estendo os braços para a amizade'
E aí eu o olhava de frente como um igual, mas com aquele nó na garganta da situação de humanidade que ali se colocava 'cidadão nunca vai ser igual...' sorrir? conversar? como lidar? simplesmente? os meninos respoderam e eu só conseguia olhar pra nossa pequeneza, pra nossa contradição explícita... lembrar do predio ocupado do MTST do lado do paço das artes, dos corpos que dormiam no chão, nas pessoas pedindo, nos turistas, nos shows, em tud junto e misturado. no nosso ódio, no nosso medo, na distância invisível que criamos entre nós mesmos... e ouvia ele dizer agora "i'm a brazilian worker" e depois ir embora.
Ele que vai saber onde estava quando Iansã trouxe o temporal e chuva de granizo pra São Paulo me impedindo de ver a dona Céu cantar o seu Bob Marley. Muita muita água. Água tão pedida... tão esperada que caía e maltratava junto com vento frio... a água que bota às vistas a sujeira do centro que alaga e inunda todos os dias gente que a gente quer invisível pra não fazer doer as nossas dores.
Dali, corremos pro metrô, como todo mundo, alagados. E o metrô lotado, gente pra todo lado e ao chegar perto da catraca da cidade que facilmente vira o caos do caos, o colete preto do funcionário do metrô anunciava:
TRANSPORTE PADRÃO FIFA - Campanha de ajuste salarial
a mensagem não podia ser mais clara.
EM TEMPO, ao procurar fotos pra ilustrar a chuva de granizo em SP, eu encontrei UM MONTE DE FOTOS DA VALESCA POPOZUDA! :)
Isso sim me arrancou agora um riso grande à beça e faz juz ao nome super pomposo desse post: a cultura é de todos. CULTURA mesmo, modo de vida, tudo que a gente objetiva e subjetiva... pralém e também dos palcos das oficialidades. Essa cultura que impera no não-palco da vida. pra todo mundo. sempre.
- não baixa a guarda, moçada, que a luta não acabou.