tem alguns meses que ouço um sussurrar estranho atrás das portas de vidro casa. poderia dizer que é o vento que farfalha alto as folhas desse imenso quintal, que são as coisas ele traz, numa poesia cantada ora por lô ora por elis. ou ainda o vento de quintana, cecília. poderia ser o vento de juliana, imensa dentro de mim e minha tradutora. mas não, não. eu ouço um sussurro de gente. há meses esse sussurro entra sorrateiro roçando minha pele, me atormentando as ideias, pouco antes do sono vir. e o sono tem sido grande companheiro. nesses dias onde há pouco o que se fazer - minto - em que há todo o mundo por estar, fazer e visitar, só não há ânimo, permissão interna e externa, senão o vagar zumbi entre acordar, comer e dormir - bom, nesses dias... dormir é uma grande aventura. a cada meia dúzia de palavras sussurradas, uma enxurrada de cenas nos sonhos e pesadelos, com encontros, desencontros, cores, lugares, texturas. dormindo eu ajo. existo. me movo. reencontro gentes. recrio passado. revivo o presente, passado. mas nunca tenho a sensação de viajar pro futuro. e são coisas corriqueiras, mas elas mesmas, quando faltam ao cotidiano, são mais que suficientes pra dar aquela tristeza ao se perceber desperto. e tento voltar ao sono. e vencer a sensação de inutilidade, de ser imprestável ao passar tanto tempo noutro reino que não o dos despertos. despertos? com os olhos abertos, eu vago entre telas, variando de tamanhos, narrativas e capacidades de toque. touch. touchê. de olhos abertos eu ouço o barulho das pombas que se reproduzem, se multiplicam no forro de casa. acordada fico com o olhar perdido. ouço vozes gravadas que me contam casos, dão gargalhadas, recitam poesias, arrancam minha pele. digito palavras. digito gargalhadas. digito te amo, saudade, carinha feliz. acordada dois toques dos meus dedos criam corações laranjas sobre fotos de gente que nunca me viu. desfilam diante dos meus olhos letras, frames, luzes. acordada o máximo que me toca são as cores da chegada e partida do sol. o prazer pequeno de saber o quão frio fará conforme as cores com as quais o azul se pinta quando o tal do astro rei se vai. dizem que eu sou feita do inverno. sou o auge dele. que faço frio em pleno verão. que guardo e partilho de tudo que é de todos. dizem tanto. eu sei é que pareço sentir o torpor do mundo em pílulas eficazes e homeopáticas a cada vez que o sol já apino me conta que não é no mundo de morpheu, mas no seu, que eu devo encarar a narrativa. qual a próxima atração?
domingo, 26 de abril de 2015
domingo, 12 de abril de 2015
ali logo ao lado
é bem clichê dizer que tempo e espaço são relativos. das canções que cantam a agonia longa da espera ou a preciosidade de "cinco minutos, cinco minutos na vida". ansiedade que alonga, alegria que encurta e intensifica. é bem clichê, mas talvez o seja justamente porque quando sentimos a coisa toma uma dimensão dentro da gente, que remexe com tudo por dentro. tomar consciência das discrepâncias de percepção do relativo.
sair da maior "cidade... da américa do sul... da américa do sul... você precisa"... sair de lá e estar numa cidade do interior onde sua mãe acha o cúmulo do absurdo existir um outro doutor fulano de tal, porque nunca ouviu falar dele... essa quase obrigação em saber de tudo, conhecer todo mundo. bom, gera-se o contraste: da vastidão para o pequeno e previsível. do intangível ao palpável.
o que causa o frio na barriga é quando você percebe que seu pedaço de chão, pequeno e monótono também guarda sutilezas. as pedaladas ao por do sol que testemunham uma imensidão de céu, cores, estrelas de toda sorte, toda a tarde - um espetáculo gratuito, banal e corriqueiro [espetáculo sim pra quem via torres de concretos e formigueiros verticais como realidade]. pedaladas pela mesma avenida, "a linha" onde passou tanto tempo... logo na esquina perto de onde mora um monte de parente, olha-se de relance e pensa "parece ela..." - uma mulher, de cabelos longos, magra, desengonçada e muito bonita - como a amiga de infância. mas então vem o estalo: ela nunca passaria por essa rua, às seis da tarde, a pé, carregando duas sacolas, como quem volta pra casa depois de um dia de trabalho. não ali. não assim. e essa convicção te contorna traços da cidade, das suas vivências e experiências. que cada em cada uma das linhas moram modos de vida. e que essas impossibilidades, aparentemente bestas, mostram de quantos lugares vocês também nunca sairia, passaria voltando pra casa, no meio da semana, a pé, com duas sacolas... ali, na sua cidadezinha, aparentemente sem mistérios.
mas ao mesmo tempo, agorinha, minha cidade saiu do sul de minas e era pelotas. uma carta em voz alta, gravada, contava da vida, da expectativa, da paixão, da agonia, da espera, da vontade e da melancolia de domingo. e ao fundo, o assovio que anuncia que o moço do picolé está passando. ou seria da pipoca... mas ele está descendo ou subindo a rua. ali fora, e podia ser aqui. aqui do lado, bem perto. bem dentro. tão longe. tão aqui. esses cantares, esses clichês... essa magia do banal, no encontro. e as memórias do som.
trilha sonora sugerida, valsinha. não aquela, mas outra. uma prece feito canção de ninar.
sair da maior "cidade... da américa do sul... da américa do sul... você precisa"... sair de lá e estar numa cidade do interior onde sua mãe acha o cúmulo do absurdo existir um outro doutor fulano de tal, porque nunca ouviu falar dele... essa quase obrigação em saber de tudo, conhecer todo mundo. bom, gera-se o contraste: da vastidão para o pequeno e previsível. do intangível ao palpável.
o que causa o frio na barriga é quando você percebe que seu pedaço de chão, pequeno e monótono também guarda sutilezas. as pedaladas ao por do sol que testemunham uma imensidão de céu, cores, estrelas de toda sorte, toda a tarde - um espetáculo gratuito, banal e corriqueiro [espetáculo sim pra quem via torres de concretos e formigueiros verticais como realidade]. pedaladas pela mesma avenida, "a linha" onde passou tanto tempo... logo na esquina perto de onde mora um monte de parente, olha-se de relance e pensa "parece ela..." - uma mulher, de cabelos longos, magra, desengonçada e muito bonita - como a amiga de infância. mas então vem o estalo: ela nunca passaria por essa rua, às seis da tarde, a pé, carregando duas sacolas, como quem volta pra casa depois de um dia de trabalho. não ali. não assim. e essa convicção te contorna traços da cidade, das suas vivências e experiências. que cada em cada uma das linhas moram modos de vida. e que essas impossibilidades, aparentemente bestas, mostram de quantos lugares vocês também nunca sairia, passaria voltando pra casa, no meio da semana, a pé, com duas sacolas... ali, na sua cidadezinha, aparentemente sem mistérios.
mas ao mesmo tempo, agorinha, minha cidade saiu do sul de minas e era pelotas. uma carta em voz alta, gravada, contava da vida, da expectativa, da paixão, da agonia, da espera, da vontade e da melancolia de domingo. e ao fundo, o assovio que anuncia que o moço do picolé está passando. ou seria da pipoca... mas ele está descendo ou subindo a rua. ali fora, e podia ser aqui. aqui do lado, bem perto. bem dentro. tão longe. tão aqui. esses cantares, esses clichês... essa magia do banal, no encontro. e as memórias do som.
trilha sonora sugerida, valsinha. não aquela, mas outra. uma prece feito canção de ninar.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
para Mariana Campos.
uma passarinha feito milagre de deus
pousou na minha varanda
assoviou serena cantos trazidos dos céus
veio, alimentada de si, alimentar os seus.
a passarinha que fez ninho próprio na ninhada
avoa agora quando quer
e feito um trem
pega a estrada
semeamos no estar e permitir-se, agora
cantos pensados outrora
bondes sonhados outrora
tudo prestes a ser a aurora
u'a passarinha, que tanto ouviu fica
agora vai
avoa
silenciosa
precisa.
o cheiro vinha da varanda. insuportável. não tinha ninguém lá. estava há algum tempo na frente do espelho do banheiro tossindo, arrotando, excretando por todas as vias um fétido arrependimento de ter acendido um. há semanas não queria pensar. quem dera fosse. demorou pra atinar que o cheiro vinha de casa e vinha da varanda. ainda atônita, fechou a torneira e saiu ainda meio cega e zonza. na varanda a lixeira, toda incendiada havia tombado nas caixas de papelão esvaziadas da recém-mudança. aquilo já era uma fogueira e por milésimos de segundos era a coisa mais abençoada daquela quarta-feira cinza. rezou. fechou os olhos e meditava enquanto o fogo aquecia aquele gelado verão maldito. abriu os olhos e ignorava que as labaredas ganhavam força e rumavam à porta de madeira antiga. chegou perto do fogo, estendia as mãos. lembrou do cigarro, que jogou displicente, quase pela metade, na lixeira. era ele. acendeu um cigarro como quem abre uma porta que não se deve. uma vez entreaberta, espiava e já não queria mais ali estar. sai correndo, mas a deixa assim. aberta. era fogo na certa. deu meia dúzia de tapas na cara quando pensou que o apartamento não era seu e saiu em busca de água. a chama era grande. encheu o balde, mais 15minutos não haveria água. era bom que desse. pesado demais, a água vinha tombando pelo corredor até a sala e na varanda o balde já estava pela metade. mirou e jogou. a labareda se conteve um pouco, mas no mínimo uns 5 baldes daquele seriam necessário pra contar o incêndio da casa.
enquanto ardia pensava que sempre teve mesmo dificuldades em terminar histórias. era sempre assim. elas acabavam com ela.
enquanto ardia pensava que sempre teve mesmo dificuldades em terminar histórias. era sempre assim. elas acabavam com ela.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
'foi-se o amor da vida' dizia a manchete do jornal
todo mundo carrega um frio dentro. desculpe me dizer isso assim. sei que você sempre detestou o frio e já disse repetidas vezes que se pudesse o extinguiria da existência. mas todo mundo tem um frio dentro. você tem um frio dentro. eu tive que pensar pra não escrever "tu tem" porque sou ladra de sotaques, de cantos e estou aqui no sul como você (não) deve saber e aqui tem tu, que nem aí, no litoral. é. tu. tu tem frio dentro. pensei nisso numa madrugada aqui, de frente pra lareira, entre vinis, com penteadeira de madeira de verdade - lembra que eu sempre gostei de madeira de verdade né? nossa casa teria móveis de madeira de verdade. meia luz. uma morena com clarinete. um coração em forma de homem que dedilha cordas. um príncipe de conto de fadas. a bela. - aquela ali, estranha, que ganhou uma biblioteca de presente de uma fera. um fogo que se apanha, se saca. uma ideia genial de brilhar os olhos. mesmo que sejamos de um sol fervente, na frente das telas, diante dos livros, construímos memórias arquetípicas de frio europeu, frio medieval, de frio de língua enrolada, lareira e lar. todos carregamos um aquietar-se e aquecer-se. mesmo em silêncio. com cores poucas. mas aqui, onde faz frio, os dias de calor são longos. a tarde cai preguiçosa, cê previsava ver. você viu. tantas. em tantas línguas. ia dizer que me esqueço, mas o prazer em ouvir "carina" valia qualquer outro deslize em insegurança desse coração de cigana vagabundo. você sabe. sabe também, ou deveria saber, que soube da morte da filha do homem. é. a grisalha esbelta. como você gosta. sim. suzana morreu e de novo meu aperto do lado esquerdo do peito não é por ela que faz a passagem, ou pela cantora de sagitário e olhos cor de água que agora chora um mar de amar. o aperto é que eu sei que você sofre. ou ao menos, sente. sente. e eu sinto. sinto tanto. sinto muito. sinto no meu gesto o teu gesto. e cada sotaque, cada encontro dessa arte do encontro aqui nessa terra fria onde, hoje, faz calor... nessa viagem que começa com uma canção, com um filme uma pergunta.
e ainda assim
eu creio que
nem tudo está perdido.
há uma luz
e que grande rio.
e ainda assim
eu creio que
nem tudo está perdido.
há uma luz
e que grande rio.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
it happens all the time
hoje é realmente um dia em que dói não "poder" falar contigo. sei que poder a gente pode tudo nessa vida, mas ontem mesmo nós reestabelecemos essa linha do não dizer, respeitar o tempo do outro e as frestas de esquecimento, memória, laços, afetos e prosseguir.
não que seja agradável saber do interdito, mas vida que segue, canção que se canta. memórias de silêncios, gestos teus já incorporados ao meu - que é, pra mim, talvez, das formas mais sinceras de amar.
hoje dói porque o Joe Cocker morreu, preto.
desde muito cedo desse relacionar-se que criamos, de passos entrecruzados, você falava, com os olhos brilhando, dos "Anos incríveis", do seu sentir-se traduzido e mais, da força da versão do Joe Cocker pra música "dos besouros", como também gosta de dizer, nesse seu jogo intricado, passional, racional e inevitável com a palavra, a língua e as coisas. E é tanta paixão travestida de imparcialidade que você mal percebe - ou percebe? - o desdém quase herege com que fala dos Beatles.
mas sim, você e todo um mundo inteiro se rasga com o Joe Cocker interpretando a canção dos Beatles, ali, em êxtase, sem nenhum pudor de sentir amor, sentir saudade, sentir-se rasgar. assim, como eu o vi diante dos amigos, na festinha na casa da ariana querida, eu ainda tímida e você e aninha ali, dançando como se a vida fosse um simples permitir-se.
desses novos sentidos que se desvelam na vida, no encontro da palavra do outro, Joe Cocker disse através dos Beatles, alto em bom som. Ali, no mítico vídeo em pleno Woodstock... quer mais motivos pra ser um clássico que hoje nos torna órfãos?
vídeo mítico e que tem paródias, como todo bom clássico. Rio aqui de lembrar da sua insistência em mostrar pras pessoas a versão com a legenda que tira sarro da pronúncia do Joe Cocker...
hoje dói não falar contigo. queria te abraçar e dizer, é, ele morreu. mas fez passagem. não se preocupe. ele continua ecoando no tempo e no espaço. ressoando e reverberando.
queria te abraçar, porque sei que tá doendo. ou só imaginando. mas sei lá... fiquei pensando no meu desorientamento quando soube do Gabriel García Marquez e da minha impotência no saber das coisas da vida, que a morte é parte dela, que todos passamos, e blablabla, que ele tava tão longe de mim fisicamente, mas que ainda assim, doía, egoistamente, doía.
eu sei que dói. e me dói não poder ser cúmplice de um afeto fraterno assim mais.
mas o tempo é o que fazemos dele.
há de passar, mundo andar.
e eu acredito no tempo, sempre disse isso - não que você gostasse dessa frase, mas é verdade. e num tempo grande. e na força que o afeto tem, pralém da nossa vontade imediatista.
então, daqui, dessa saopaulo que chora e vela pela voz que hoje se cala, eu fecho os olhos e te abraço. e te desejo amor.
não que seja agradável saber do interdito, mas vida que segue, canção que se canta. memórias de silêncios, gestos teus já incorporados ao meu - que é, pra mim, talvez, das formas mais sinceras de amar.
hoje dói porque o Joe Cocker morreu, preto.
desde muito cedo desse relacionar-se que criamos, de passos entrecruzados, você falava, com os olhos brilhando, dos "Anos incríveis", do seu sentir-se traduzido e mais, da força da versão do Joe Cocker pra música "dos besouros", como também gosta de dizer, nesse seu jogo intricado, passional, racional e inevitável com a palavra, a língua e as coisas. E é tanta paixão travestida de imparcialidade que você mal percebe - ou percebe? - o desdém quase herege com que fala dos Beatles.
mas sim, você e todo um mundo inteiro se rasga com o Joe Cocker interpretando a canção dos Beatles, ali, em êxtase, sem nenhum pudor de sentir amor, sentir saudade, sentir-se rasgar. assim, como eu o vi diante dos amigos, na festinha na casa da ariana querida, eu ainda tímida e você e aninha ali, dançando como se a vida fosse um simples permitir-se.
desses novos sentidos que se desvelam na vida, no encontro da palavra do outro, Joe Cocker disse através dos Beatles, alto em bom som. Ali, no mítico vídeo em pleno Woodstock... quer mais motivos pra ser um clássico que hoje nos torna órfãos?
vídeo mítico e que tem paródias, como todo bom clássico. Rio aqui de lembrar da sua insistência em mostrar pras pessoas a versão com a legenda que tira sarro da pronúncia do Joe Cocker...
hoje dói não falar contigo. queria te abraçar e dizer, é, ele morreu. mas fez passagem. não se preocupe. ele continua ecoando no tempo e no espaço. ressoando e reverberando.
queria te abraçar, porque sei que tá doendo. ou só imaginando. mas sei lá... fiquei pensando no meu desorientamento quando soube do Gabriel García Marquez e da minha impotência no saber das coisas da vida, que a morte é parte dela, que todos passamos, e blablabla, que ele tava tão longe de mim fisicamente, mas que ainda assim, doía, egoistamente, doía.
eu sei que dói. e me dói não poder ser cúmplice de um afeto fraterno assim mais.
mas o tempo é o que fazemos dele.
há de passar, mundo andar.
e eu acredito no tempo, sempre disse isso - não que você gostasse dessa frase, mas é verdade. e num tempo grande. e na força que o afeto tem, pralém da nossa vontade imediatista.
então, daqui, dessa saopaulo que chora e vela pela voz que hoje se cala, eu fecho os olhos e te abraço. e te desejo amor.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
uma vez até morrer
A morte em cidade do interior é acontecimento. tudo bem. nem toda morte, mas tem ainda um poder de alterar rotina, de se espalhar pela cidade. não é indiferença pura e acontecimento banal de uma megalópole onde tudo se faz e se anda todo o tempo. não.
Na cadeira do dentista ouvia falar nA rádio da cidade não apenas o nome completo, mas também o apelido carinhoso, que o identificava pela cidade toda. poisé. o Toco morreu.
e a morte na cidade no interior tem um lugar. é. O velório municipal que fica junto AO cemitério da cidade. ali, onde se passa e se sabe se "alguém morreu de novo!?".
ali. na pracinha do cemitério, hoje cheia. e cheia. de todo um borburinho. a morte é local de reencontro, de alvoroço na tarde da cidade. é um murmuro, uma falação. um reencontro na urgência dos dias. A morte é um caderno com listas de nomes, óculos escuros, flores mortas. a morte são letras douradas. ali no salão que pede "silêncio-por favor-obrigado" em letras vermelhas e tortas na parede. a morte é um riso indeciso e um choro in-contido.
nessa tarde, a morte era vestir-se da última e grande paixão da vida. a camisa alvinegra, a cara que descansa depois de tanto sofrer. e não havia ali herói. havia um homem com seus tropeços, amigos, vícios, qualidades e contradições. e sua paixão: o atlético mineiro.
de repente, o silêncio se coloca e a morte desfila. o caixão vem carregado pelos amigos e filhos e rostos sérios, lágrimas e decorado com a bandeira do time do do coração, o único possível e cogitável em toda a passagem por aqui. de repente, a morte é a (in)(con)ciência dos passos lentos de cada um dos presentes de que essa caminhada todos farão. a morte é um belo pôr-do-sol entre as lápides da cidade, um vôo mais urgente que qualquer riso vivo de alegria e a vida um velório cheio na praça e na esquina.
e então, a paixão torna-se canto e alegria. todos os amigos cantam o hino do atlético mineiro. alto e forte e convictos. ali, mais que qualquer oração, discurso, o ritual de passagem, de brindar a vida, a cumplicidade, a riqueza da amizade, suas alegrias e dores, seu valer a pena, ali era aquele hino, palavras de ordem sobre vencer e lutar, sobretudo. síntese. e transbordamento.
"Clube Atlético Mineiro uma vez até morrer", sim. ali, até morrer.
e sim. choramos todos. atleticanos ou não. porque a morte por de ser um aperto no peito de quem escreve, mas a passagem... ah! a passagem é entrega. é re-saber-se. é só contínua-ação.
nossos mortos não nos devem nada. deixem que vão.
(bom descanso, Toco e boa caminhada.)
Na cadeira do dentista ouvia falar nA rádio da cidade não apenas o nome completo, mas também o apelido carinhoso, que o identificava pela cidade toda. poisé. o Toco morreu.
e a morte na cidade no interior tem um lugar. é. O velório municipal que fica junto AO cemitério da cidade. ali, onde se passa e se sabe se "alguém morreu de novo!?".
ali. na pracinha do cemitério, hoje cheia. e cheia. de todo um borburinho. a morte é local de reencontro, de alvoroço na tarde da cidade. é um murmuro, uma falação. um reencontro na urgência dos dias. A morte é um caderno com listas de nomes, óculos escuros, flores mortas. a morte são letras douradas. ali no salão que pede "silêncio-por favor-obrigado" em letras vermelhas e tortas na parede. a morte é um riso indeciso e um choro in-contido.
nessa tarde, a morte era vestir-se da última e grande paixão da vida. a camisa alvinegra, a cara que descansa depois de tanto sofrer. e não havia ali herói. havia um homem com seus tropeços, amigos, vícios, qualidades e contradições. e sua paixão: o atlético mineiro.
de repente, o silêncio se coloca e a morte desfila. o caixão vem carregado pelos amigos e filhos e rostos sérios, lágrimas e decorado com a bandeira do time do do coração, o único possível e cogitável em toda a passagem por aqui. de repente, a morte é a (in)(con)ciência dos passos lentos de cada um dos presentes de que essa caminhada todos farão. a morte é um belo pôr-do-sol entre as lápides da cidade, um vôo mais urgente que qualquer riso vivo de alegria e a vida um velório cheio na praça e na esquina.
e então, a paixão torna-se canto e alegria. todos os amigos cantam o hino do atlético mineiro. alto e forte e convictos. ali, mais que qualquer oração, discurso, o ritual de passagem, de brindar a vida, a cumplicidade, a riqueza da amizade, suas alegrias e dores, seu valer a pena, ali era aquele hino, palavras de ordem sobre vencer e lutar, sobretudo. síntese. e transbordamento.
"Clube Atlético Mineiro uma vez até morrer", sim. ali, até morrer.
e sim. choramos todos. atleticanos ou não. porque a morte por de ser um aperto no peito de quem escreve, mas a passagem... ah! a passagem é entrega. é re-saber-se. é só contínua-ação.
nossos mortos não nos devem nada. deixem que vão.
(bom descanso, Toco e boa caminhada.)
Assinar:
Postagens (Atom)