domingo, 23 de novembro de 2014
uma bala.
de resto, fixava o olhar em qualquer ponto que fosse. não duraria mesmo. a questão era apenas conseguir se concentrar na própria solidão. estava nervosa e não conseguia abstrair a existência das pessoas, que abstraíam seu choro copioso, as lágrimas inundando o olhar. na estação anterior elas ainda se restringiam ao canto do olho. uma puxada de ar mais forte, um tufão inventado, já era o suficiente pra secar-se - quantareia. mas foi um atropelo de gente. ela só queria sair dali, mas todos aqueles rostos, mortos de cansaço, desfigurados pela fumaça, pela rotina, pela indiferença, todos aqueles olhos esbugalhados, todos aqueles gritos anunciando a entrada no front, corpos de guerra, todos aqueles vieram pra cima dela, que não se movia. era tudo vermelho. ela então batia, todas as sacolas, coisas e trecos eram armas e gritou também. e gritou alto. e gritou que-se-foda e berrava, tropeçava, xingava, batia, ofegante, assustada. do lado de fora, baldeação, anda, rápido, atropela, espera outra porta e chora. pior que chorar por não ser gente o suficiente pra si, era ver as gentes virando manada pra poder andar. viu um monte de monstro. sentiu por dentro como era virar um monstro e nada era mais assustador que de autorreconhecimento nenhum, migrar pra total repugnância do não-ser. chorava. muito. soluçava. abriu a porta entrou. chacoalhava e chorava. e sentia que seu choro preenchia cada vão do vagão e seu transbordar de humanidade era incômodo. olhares iam ao limite de serem percebidos, viravam. como lidar? se sentiu menos gente, de novo. e chorava mas já nem pensava. só no engasgo e na estação por correr, mais um ônibus pra perder, outro funcionário pra convencer, outra madrugada por danar. um homem então foi de tal forma interpelado por aquele choro que já não negava. desconcertado, era quase como se fosse necessário desculpar-se por tamanho desaforo: não se lida com gente assim, a essa hora, no metrô. "sorrir na sala e chorar no quarto", lembrava do conselho da professora. ele respirava fundo, fez algum tipo de oração e avançou: "sua mochila está aberta", enquanto apertava a sua mão e lhe entregava uma bala. e todo aquele importa-se arrancou-lhe ainda mais lágrimas. apertava a bala feito amuleto e saiu. com uma bala e um gole de esperança.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
o amor pegou pesado.
dessa vez o amor pegou pesado. na saída do metrô, o amor me olhou de esgueio e já não me mirava mais. vai. me levava pela mão pelo caminho de sempre, mas já não estava ali. o amor, que até anteontem, construía belos castelos nos ares, horizontes, londres, luccas, que tais, agora me contava sem dizer que ia embora. e é claro, que o amor negaria, pois ele estava ali. ainda perguntava sobre o dia, sobretudo, desejava bom dia, quando não repetia o mantra ali criado "tododia" - fosse em francês, italiano, na língua que fosse. o amor pegou pesado. manteve o corpo perto e me explicou, sem dizer uma palavra, como é que é o amor quando o amor vai embora. é que ele, parece que, me espiava de outras vidas. o amor me viu indo embora sem olhar pra trás. o amor me viu duvidando da vida, do rumo, da entrega. o amor resolveu se vingar. agora era a vez de me fazer sentir de volta. o amor estava ali, mas não estava mais. e nesse limbo insuportável, o amor me devolvia a mim. e isso, foi golpe baixo. o amor fez de um jeito que quem fez as malas fui eu. atravessei a cidade atordoada e fui me encontrar comigo, ali, esquecida no meio de um monte de tranqueira que outrora tinha sido eu. remendo de passado, vontade de futuro e uma sujeita sem coragem de ter desejo de enlaçar a própria mão. 'o amor é uma merda' - pensava algumas vezes ao dia. no primeiro dia doía pra caralho. no segundo, já conseguia respirar. no terceiro, ainda contava até dez antes de tentar acessar o amor. depois, já estava mais próxima dessa coisa que chamam eu. o amor pegou pesado. ele ainda me ronda e não dá respostas. o amor me devolve todo dia. com lâmina afiada de justiça, me realinha com passado, com passos dados, me dissolve qualquer futuro que não tenha chão calcado no agora. o amor me devolveu o presente. e eita presente pesado. o amor pegou pesado.
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
o caderno
a primeira música que aprendi ao piano se chamava "Caderno", a primeira pecinha. Dava o sol com polegar, esticava pra pegar o charmoso mi-re#-mi-re#-mi- e com o dedo pequenino acertava o segundo Sol, mais alto. eu era criança. e a essa altura também já sabia cantar, mesmo trocando a letra - coisa que até hoje atrapalha e muito minha vida de 'cantora' - "Aquarela" - e confesso que achava gozado o autor se chamar Toquinho - pensava em toco de lápis, coisa pequena, menino. [mundo doido].
lembro da capa dos cadernos da primeira série. uma amiga da minha mãe arranjou de encapá-los com tecido xadrez, um branco e amarelo - viu? nem era rosa! <3 - com direito a bichinhos de papel de carta.
a caneta foi um tabu que durou até o ensino médio.colegial.científico, - sejalá o nome certo disso na minha época. Sei é que nos primeiros anos do fundamental a gente não podia nem pensava em brisar nessa coisa de escrever à caneta na escola. - e justamente por isso ela era tão desejada.
caderno. linhas. papelaria.
no caminho de volta pra casa da vó na quinta-série tinha a, então, segunda (hoje, maior e primeira) melhor papelaria da cidade. minha mãe caiu na besteira de ter ficha lá, e eu realizava em doses homeopáticas meu sonho de menina de ter uma só pra mim. vez ou outra ia pra casa lápis novo, caneta, lápis de cor, adesivo, cola, papel colorido e haja!
sempre gostei de me perder numa papelaria e ficar olhando aquele tanto de coisa, possibilidades de criação, cores por todo lado. queria uma só pra mim. - muito mais vontade que talento e disciplina.
e aí a gente cresce. fichário. caderno de 12 matérias. meiadúzia de canetas bic. especializa o talento. escolha um curso. vestibular. escrita científica, citação. word. teclas. digitar. imprimir, formatar. recortar e colar só com control Z.
aí você vira professora - a primeira coisa que faz é ir a uma papelaria e comprar pastas! <3 - e na sala de aula se depara com celulares que fotografam lousas e com a pergunta "vai usar caderno hoje, fessora?"[e se sente velha e nostálgica.]
hoje eu fui à papelaria de gente grande. é. marquês de itu, concorrente da casa do artista, são paulo, telas, tintas. poisé. ando andando com gente que, ao meu ver, não cresceu. é. não ficou chato. continuou rabiscando, pintando, recortando, juntando as coisas, fazendo forma, bricolando e haja matéria. descobri há pouco tempo na vida o caderno sem linha.
os rabiscos, que nunca abandonei, na capa, na borda das coisa, no canto, no meio, no risco, agora não ultrapassam limites. os criam.
essa gente que virou gente grande mas não parou de desenhar usa caneta. é umas canetas diferente.
papelaria de gente grande tem preço alto. é coisa chique. teve moça com laço e lapela, olhar meio baixo, voz meio pra dentro e patroa com cara feia. preço grande.
descobri hoje que aquarela pode custar 200 reais - e eu era tão feliz com aquelas bolinhas maisomenos na infância...
criança quando fica triste ganha presente. ganhei um e me dei outros hoje. choveu em são paulo. andei o centro de são paulo. tenho cadernos sem linhas que tentem ordenar. tenho canetas, faço traços em azul, rosa, cinza e preto.
hoje, justo hoje, que vi gente grande ficar triste da partida de um menino velho de 97 anos. hoje, justo hoje cinza. hoje, manoel pai das desimportâncias e da martha, mulé grande que rabisca com a liberdade de uma criança. hoje, justo hoje treze, dia de voltar pra casa com mala cheia. dia de se olhar no espelho, se defrontar com o rabo do escorpião zanzando nos céus. hoje, justo hoje que a lua ruge com juba de leão, eu durmo suja de tinta buscando ouvir os desejos da menina que nunca deixou de rabiscar.
lembro da capa dos cadernos da primeira série. uma amiga da minha mãe arranjou de encapá-los com tecido xadrez, um branco e amarelo - viu? nem era rosa! <3 - com direito a bichinhos de papel de carta.
a caneta foi um tabu que durou até o ensino médio.colegial.científico, - sejalá o nome certo disso na minha época. Sei é que nos primeiros anos do fundamental a gente não podia nem pensava em brisar nessa coisa de escrever à caneta na escola. - e justamente por isso ela era tão desejada.
caderno. linhas. papelaria.
no caminho de volta pra casa da vó na quinta-série tinha a, então, segunda (hoje, maior e primeira) melhor papelaria da cidade. minha mãe caiu na besteira de ter ficha lá, e eu realizava em doses homeopáticas meu sonho de menina de ter uma só pra mim. vez ou outra ia pra casa lápis novo, caneta, lápis de cor, adesivo, cola, papel colorido e haja!
sempre gostei de me perder numa papelaria e ficar olhando aquele tanto de coisa, possibilidades de criação, cores por todo lado. queria uma só pra mim. - muito mais vontade que talento e disciplina.
e aí a gente cresce. fichário. caderno de 12 matérias. meiadúzia de canetas bic. especializa o talento. escolha um curso. vestibular. escrita científica, citação. word. teclas. digitar. imprimir, formatar. recortar e colar só com control Z.
aí você vira professora - a primeira coisa que faz é ir a uma papelaria e comprar pastas! <3 - e na sala de aula se depara com celulares que fotografam lousas e com a pergunta "vai usar caderno hoje, fessora?"[e se sente velha e nostálgica.]
hoje eu fui à papelaria de gente grande. é. marquês de itu, concorrente da casa do artista, são paulo, telas, tintas. poisé. ando andando com gente que, ao meu ver, não cresceu. é. não ficou chato. continuou rabiscando, pintando, recortando, juntando as coisas, fazendo forma, bricolando e haja matéria. descobri há pouco tempo na vida o caderno sem linha.
os rabiscos, que nunca abandonei, na capa, na borda das coisa, no canto, no meio, no risco, agora não ultrapassam limites. os criam.
essa gente que virou gente grande mas não parou de desenhar usa caneta. é umas canetas diferente.
papelaria de gente grande tem preço alto. é coisa chique. teve moça com laço e lapela, olhar meio baixo, voz meio pra dentro e patroa com cara feia. preço grande.
descobri hoje que aquarela pode custar 200 reais - e eu era tão feliz com aquelas bolinhas maisomenos na infância...
criança quando fica triste ganha presente. ganhei um e me dei outros hoje. choveu em são paulo. andei o centro de são paulo. tenho cadernos sem linhas que tentem ordenar. tenho canetas, faço traços em azul, rosa, cinza e preto.
hoje, justo hoje, que vi gente grande ficar triste da partida de um menino velho de 97 anos. hoje, justo hoje cinza. hoje, manoel pai das desimportâncias e da martha, mulé grande que rabisca com a liberdade de uma criança. hoje, justo hoje treze, dia de voltar pra casa com mala cheia. dia de se olhar no espelho, se defrontar com o rabo do escorpião zanzando nos céus. hoje, justo hoje que a lua ruge com juba de leão, eu durmo suja de tinta buscando ouvir os desejos da menina que nunca deixou de rabiscar.
| Esse é Manoel chegando no Céu. verdade. senão, é só uma belezura da filha dele, martha barros. |
sábado, 8 de novembro de 2014
after leaving alone for so many years
ainda tremendo, com lábios vermelhos, sentou-se do meu lado, e me contou:
"ontem o amor estava alterado. ontem o amor se encheu de álcool. o amor me agarrava com força. me chamava de sua. me chamava de absoluta. o amor se embrenhou nos meus cachos. rolou pelo asfalto. o amor me disse que eu não entendo. que eu não sei o que é amar. o amor listou meus tropeços sarcasticamente, como quem ama. despiu minhas memórias como uma linha de produção: um e outro passando. não, você não sabe o que é amar, me contou o amor. o amor me pariu. ergueu alto e firme seu falo e se debruçou.o amor me abraçava com força, apertava meu braço, meu ventre. o amor chutava o mundo e dizia que tudo aquilo era por mim. o amor me chamou de canto. se perdeu. me beijou a boca. silenciou o mundo. o amor me odiava por tudo aquilo que eu era. o amor me cristalizou numa cápsula, me enfiou lá dentro. o amor me bulinou. o amor não faz a menor ideia do que se passa na minha cabeça. mentira. o amor sabe do meu asco. da minha vontade de fugir. do meu ódio. o amor sabe que eu não sei disfarçar - que eu tento. o amor me prendia ali, entre as lentes, entre as grades. o amor era vermelho como sangue. o amor é um rock. o amor sorri como num pagode. o amor arrotou. vomitou. o amor morreu atropelado na contramão. o amor me deixou. o amor me armou e eu nunca mais voltei de lá."
fechou os olhos, abanou o rabo, e levou suas manchas pretas felpudas pralém de onde se vê.
"ontem o amor estava alterado. ontem o amor se encheu de álcool. o amor me agarrava com força. me chamava de sua. me chamava de absoluta. o amor se embrenhou nos meus cachos. rolou pelo asfalto. o amor me disse que eu não entendo. que eu não sei o que é amar. o amor listou meus tropeços sarcasticamente, como quem ama. despiu minhas memórias como uma linha de produção: um e outro passando. não, você não sabe o que é amar, me contou o amor. o amor me pariu. ergueu alto e firme seu falo e se debruçou.o amor me abraçava com força, apertava meu braço, meu ventre. o amor chutava o mundo e dizia que tudo aquilo era por mim. o amor me chamou de canto. se perdeu. me beijou a boca. silenciou o mundo. o amor me odiava por tudo aquilo que eu era. o amor me cristalizou numa cápsula, me enfiou lá dentro. o amor me bulinou. o amor não faz a menor ideia do que se passa na minha cabeça. mentira. o amor sabe do meu asco. da minha vontade de fugir. do meu ódio. o amor sabe que eu não sei disfarçar - que eu tento. o amor me prendia ali, entre as lentes, entre as grades. o amor era vermelho como sangue. o amor é um rock. o amor sorri como num pagode. o amor arrotou. vomitou. o amor morreu atropelado na contramão. o amor me deixou. o amor me armou e eu nunca mais voltei de lá."
fechou os olhos, abanou o rabo, e levou suas manchas pretas felpudas pralém de onde se vê.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
três vidas em três dias.
cruzava a rua. o vento contra o rosto. os olhos fechados. o salto, em aquarela. os prédios desavisados no meio do caminho. voávamos entre eles. você pintava de preto a pele dela. de dentro de uma oca surgiam as falas articuladas de quem fala com classe da falta de classe dos dois senhores ali, sentados, do outro lado do balcão.
cruzava o calçadão. as duas rodas da bicicleta. um par de coxas. decote. unhas mordidas em vemelho. sutiã não seguram os peitos - em vermelho - e girando, cigana, no meio da rotatória.
- metá metá é bom pra meter. (pensava num trocadilho infame, enquanto seu sexo rompia com as dimensões do tempo-espaço - que nada! o trânsito-contorna-a-nossa-cama é coisa clichê)
na sombra da parede madrugueira, os desenhos de sombras em pleno gozo. a porta entreaberta, a janela escancarada... era tara ou pura e simples liberdade?
- era a brisa. querendo passagem.
na curva do viaduto, garupa e um canto que ecoa entre os concretos "dormiiiiiirrrr no teu cooooolo é tornar a nascer."
me desenhava. rabiscou inteira e me reescreveu. ali, entre os passantes, na entrada do metrô. sol de domingo. chuva de consolação. justifiquei. "nunca acreditou em acasos", mas ainda briga com a intuição.
gozava com a intensidade de um novo nascer. e todaquela porra ali em volta era semente de vida. engolia.
quenada. vermelho o sangue. quente nas veias, nos olhos. e desde quando se ver no outro é se saber?
queria contar pro preto que agora sentia latejando a ciumeira. que se pintava. se importava. que não sabia, e daí? como confiar? - bem que disseram. e quando for a tua vez?
respira. acena. sorri. faz o mesmo. oscila. se desenha. se desdenha. adesiva.
era um buraco sem fim e sabia que era o desafio que sempre pedira.
dar de si - fora tão avisada...
não há ismo nenhum que valha o bom senso e a entrega. e não há vergonha que impeça de envergar a espinha. tá bom. ainda é difícil,
mas teve mato, teve papo, teve amigo. teve plano, teve suor, teve domingo. teve prosa, teve chuva, teve segunda. teve não, teve sim, teve carão. teve banho, teve bike, teve flerte, (não) teve seta, teve seda. teve pele, teve verdade, teve sentir.
cruzava o calçadão. as duas rodas da bicicleta. um par de coxas. decote. unhas mordidas em vemelho. sutiã não seguram os peitos - em vermelho - e girando, cigana, no meio da rotatória.
- metá metá é bom pra meter. (pensava num trocadilho infame, enquanto seu sexo rompia com as dimensões do tempo-espaço - que nada! o trânsito-contorna-a-nossa-cama é coisa clichê)
na sombra da parede madrugueira, os desenhos de sombras em pleno gozo. a porta entreaberta, a janela escancarada... era tara ou pura e simples liberdade?
- era a brisa. querendo passagem.
na curva do viaduto, garupa e um canto que ecoa entre os concretos "dormiiiiiirrrr no teu cooooolo é tornar a nascer."
me desenhava. rabiscou inteira e me reescreveu. ali, entre os passantes, na entrada do metrô. sol de domingo. chuva de consolação. justifiquei. "nunca acreditou em acasos", mas ainda briga com a intuição.
gozava com a intensidade de um novo nascer. e todaquela porra ali em volta era semente de vida. engolia.
quenada. vermelho o sangue. quente nas veias, nos olhos. e desde quando se ver no outro é se saber?
queria contar pro preto que agora sentia latejando a ciumeira. que se pintava. se importava. que não sabia, e daí? como confiar? - bem que disseram. e quando for a tua vez?
respira. acena. sorri. faz o mesmo. oscila. se desenha. se desdenha. adesiva.
era um buraco sem fim e sabia que era o desafio que sempre pedira.
dar de si - fora tão avisada...
não há ismo nenhum que valha o bom senso e a entrega. e não há vergonha que impeça de envergar a espinha. tá bom. ainda é difícil,
mas teve mato, teve papo, teve amigo. teve plano, teve suor, teve domingo. teve prosa, teve chuva, teve segunda. teve não, teve sim, teve carão. teve banho, teve bike, teve flerte, (não) teve seta, teve seda. teve pele, teve verdade, teve sentir.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
duas rodas para a liberdade.
"nos dias de hoje
o príncipe encantado
chega de bicicleta"
Ele ficou todo ofendido porque eu disse que parecia que tinha 15 ou 16 anos. O mocinho, quase meu vizinho, que veio trazer a pé, do outro lado da rua, o galão d'água estufou o peito e disse que tinha quase dezoito!!! Antes dessa prosa a gente conversou um cado, enquanto ele me ajudava com o galão imenso. E qual não foi o assunto que não a ciclovia nova aqui do bairro? Ele é entregador, uai. E anda de bicicleta o dia todo. Era segunda e ele tava me contando como passou o domingo agoniado porque "como lá fica fechado no domingo, eu não faço nada...".
E mais uma vez, como a ciclovia adiantou o rolê: "já vi muito entregador ser atropelado".
Sim, pessoas. É isso. Os escritórios chiquetosos de Higienópolis, ou mesmo os cults e arrumadinhos de Santa Cecília, ou mesmo nóis simprão, que dependemos de meninos como esse, pra entrega "rápida e ágil" daquilo que não podemos fazer porque o nosso tecido de vida está cada vez mais escasso... pois é! Essa demanda vem de Bike, meus caros.
Para quem até agora só viu o rolê da ciclovia como mais uma molecagem do Haddad ou coisa de classe média cult-eco-chata pare pra pensar nas pessoas que TRABALHAM de bicicleta.
E aí me vem à mente imediatamente a cena que vejo cotidianamente do alto da janela do Brás: trabalhadores bolivianos e todas as etnias que a gente finge que não vê, que não sabe que existe, mas veste o que eles, praticamente feito escravos, produzem... esses mesmo! andando de bicicleta aos montes. Os trabalhadores do Brás. Ou, pra ser internacionalista, rs, lembro das imagens do clipe de Us and Them, nós e eles. Gente que zanza de um lado pro outro, em bando, atomizados em multidão. Seja passos, seja as rodas da bicicletas.
Ontem ia ter uma manifestação com uma monte de bicicleta solta por aí. Aliás, Minhocão, esse monstro bonito que a gente teve que aprender a amar, em domingos de sol com gente andando e invadindo a cidade noutro ritmo que não o dos motores... uma pena que as pessoas o queiram abaixo pra ver se quando você cair, você não cai em cima da gente que dorme debaixo de você e já leva isso tudo embora...
devaneios a parte, fico aqui com a lembrança gostosa do menino, de camiseta amarela, pequeno pequeno, se divertindo de Skate na ciclovia aqui do ladim de casa, bem na hora do rush, com aquele mundaréu de gente sozinha enfileirada dentro de carros.
Pra rua, molecada!
![]() |
| "Criança na ciclovia, indo para a/vindo da escola sozinha em pleno Viaduto do Chá. Não, vc não está delirando... " Retirada foto e legenda da página do Facebook Movimento Ciclofaixa na Santa Cecília Foto de ALINE OS |
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
Passo Torto vai à escola.
"Gostei da música, mas aquela letra é do inferno.
É que eles só cantam São Paulo
e São Paulo é o inferno."
Eu faltei quarta passada. É. Eu me mudei na segunda, cheguei de viagem domingo, brotou uma gig na terça, sem repertório e arranjei dessas febres no corpo que deixam a gente de cama. E eu dou várias aulas na quarta. Quarta [e sexta] é dia de ir pra ETEC e vejo por exemplo os 3 primeiros anos. Mas sou professora em tempos de Facebook e matutando sobre que fazer pra compensar a ausência, numa instituição escolar que não tem estrutura de professor substituto, eu acabei tendo a incrível ideia de passar uma atividade pra aula seguinte, pra não se desconectarem tanto da gente e ouvir um som. É. A ideia era ouvir SAMUEL, do Passo Torto e brisar. Escrever algumas linhas, com começo meio e fim, sobre o que entendeu da Canção, sensações, impressões, opiniões e relacionar - na medida do possível e da lembrança, com os assuntos da aula passada, quais sejam: estratificação, desigualdade e mobilidade social.
depois de aulas bem densas com segundos e terceiros - e o "pior" ainda estava por vir - entrei no Primeiro Ano A e eles cantavam quase em coro "Diiiiiiz Samuel?"
Fiquei feliz. Dei o corre de buscar o amplicador e eles se assustaram de me ver entrando com aquela coisa enorme dentro da sala de aula: "Já que é pra ouvir música vamo ouvir direito!" - porque as caixinhas de abelha do computador, ninguém aguenta.
Botei o play em Samuel enquanto recolhia os trabalhos. "Professora... eles são amadores?" "Nãa..." " Quer dizer, eles não são muito famosos...?"
Dificilmente eles vão aparecer no Faustão ou a música deles vá tocar na próxima novela das 9, mas eles são uma referência importante pra música que é feita aqui em São Paulo hoje e tem uma certa visibilidade num circuito que frequentam. - eu disse.
E apresentei didaticamente: na lousa: e dizendo: Passo Torto é: Kiko Dinucci - setinha Metá Metá - setinha Juçara Marçal e Thiago França (inclusive tem uma versão de Samuel deles).
Rodrigo Campos (São Mateus e Bahia), Romulo Fróes (que tá lançando disco novo esse mês. é? esse mês. ontem saiu a primeira canção <3) "Nossa, professora, você conhece eles?" [sim, a professora boba sorria.]
Marcelo Cabral - que dentre outros muitos trabalhos é produtor do disco do Criolo, aquele último, foda e desse disco que ele tá fazendo agora - ele era do Skate, gatinho - olhos se arregalam! Criolo. Essa gente, parte dela, cresceu pertinho do Kléber: dou aula na zona Sul, fiii.
e eles ganharam duas vezes o prêmio TIM de música brasileira... (porque argumento de autoridade em alguma medida, sempre, ou não, funciona)
Tem poucas críticas sobre eles...: "é claro. fiz de propósito, que se não vocês iam copiar". Eles ouviram. Passo Torto. e foi uma experiência incrível ver aquela molecada de 14, 15 anos me contando como foi aquela sensação de fruição estética inédita:
o violão! - como o violão chama atenção. os arranjos. "um jogo dos instrumentos" a tentativa de encaixar em algum gênero conhecido que explique, o que era "aquele samba.... mas uma MPB"... "dá mais destaque pra letra", salientava outro.
a cozinha fez falta pro outro primeiro ano.
E aí passamos pros depoimentos deles sobre a sensação de pensar e escrever sobre aquela letra. Conheci vários Samuéis: o menino rico deslocado, vários meninos da Fundação Casa, meninos da Zona Leste, Migrantes nordestinos, adultos, crianças, jovens de aventura pelo Centro.
E eles? quantas vezes o muro não foram eles mesmo que sentiram?
"Sabe o que é, terceiro ano, eu estou com - desculpem a expressão - tesão por São Paulo"
Poder conversar com esses meninos sobre essa cidade, sobre toda a imensidão que ela é, depois de estar aqui e vivê-la, fazer isso através da canção do Passo Torto, foi qualquer coisa.
"ó, e eles estão pertinho de vocês. Estão fazendo essa semana e na outra uma vivência no Sesc Santo Amaro com a Ná Ozzetti. tá lindo. queria eu ir..." - pertinho? é. considerando que eu estou em Santa Cecília, pra vocês é pertinho.
E, que ironia do destino, não é que hoje eu fui buscar minha máquina fotográfica na Vila Guilherme? E vê bem se eu não andei da Luz até lá, lendo os meus meninos brisarem no Passo Torto, no "Vila-Sabrina-onze-cinco-seis"?
Mas foi sentada na Vila dos Ingleses, já com a máquina resgatada, à espera de um sorriso largo que me saísse pela porta, que eu li essa análise que reproduzo aqui procês, meninos que estão fazendo lição de casa em público e hoje, foram comigo pra escola:
"PASSO TORTO - SAMUEL
Impressões
Antes de começar a contar minhas impressões sobra a música "Samuel" já vou avisar que estou fazendo isso às 19horas e meio que eu acordei com o pé esquerdo e parece que o dia meio que tirou pra me sacanear, então minhas impressões podem ser meio distorcidas, errôneas e depressivas. Vamos começar.
A canção Samuel feita pelo grupo Passo Torto, (que na qual eu não conhecia, obrigado Isabela, agora conheço uma outra banda com um som legal) tem um ritmo meio samba com MPB, algo que eu acho fantástico e de ótimo bom gosto.
Quando a música começou eu tava de cara fechada e quando começou o violão eu arregalei os olhos e pensei: "cara, que daora" e quando o vocalista começou a cantar eu achei interessante. Vou explicar o porquê.
A letra é simples, quando a música termina você consegue entender seu propósito. Ela fala de um cara chamado Samuel que nunca tinha ido a um lugar, talvez o centro, se bem que ele cita a Augusta e a única que eu conheço é uma rua com uns bares e clubes, então eles foram à um clube! Certo? Por enquanto fica assim. Provavelmente, eles nunca foram lá, pois são pobres e a música dá a entender isso, ou eles são uns playboys, mas acho pouco provável.
A letra é simples, quando a música termina você consegue entender seu propósito. Ela fala de um cara chamado Samuel que nunca tinha ido a um lugar, talvez o centro, se bem que ele cita a Augusta e a única que eu conheço é uma rua com uns bares e clubes, então eles foram à um clube! Certo? Por enquanto fica assim. Provavelmente, eles nunca foram lá, pois são pobres e a música dá a entender isso, ou eles são uns playboys, mas acho pouco provável.
A música cita alguns amigos do cantor como o Deto, que é um cara doido pra... que pelo visto gosta de zoar e causar, tipo tirar sarro dos guardinhas e roubar coxinhas, pera, esse é o Nikimba.
Até aí, Samuel ainda não deu sua opinião sobre o local, e nem se quer vai dar. Nesse ponto eu já tava curtindo muito a música e somos apresentados ao Nikimba, o cara do apartamento 23, que é cabuloso que monta atrás de busões e ele sim rouba coxinhas, o Deto rouba moedas de homens de lata.
Depois disso a música fala "Por que cê nunca veio aqui/Quem te prendeu, quem te impediu/ qual foi o muro que subiu/ Por que não atravessou [...]" Nessa parte dá a entender que Samuel nunca tinha ido ao local não porque ele não quis, e sim porquê ele não podia, talvez por ser pobre.
Nessa a música acaba e eu fiquei surpreso, pensei que eu ia ouvir, fazer esse trabalho e esquecê-la, mas não, eu gostei muito. Agora se esse meu texto ficou bom ou não, eu ainda não sei, provavelmente eu não entendi o que a música queria passar, mas beleza, a música é boa e agora eu acabei de ouvi-la pela 5ªvez seguida, sério, tava ouvindo agora.
Ps.: De qualquer forma, perdoe minha linguagem informal, eu só consigo fazer textos não tão ruins assim."
***
AH! Em tempo, Rodrigo, Kiko, Cabral e Romulinho: a Katarina (ou foi a Duda?) veio toda convicta dizer que ia tentar ir vê-los no Sesc Santo Amaro. Eu postei no nosso grupo no face... Se por acaso, aparecer uns pedacinhos de luz, que me fazem ter vontade de viver ainda mais, por lá, sorriam pra eles.
Ah! a epígrafe é de uma aluna, pra cuja sala não consegui dar aula hoje. Ela disse aquilo ali, na lata, na rua. no acerto de um passo torto.
Um beijo grande,
Isabela.
![]() |
| "Hj ganhei de presente uma letra genial do Rodrigo Campos para uma música nova minha, ja pré levantada em nossa Residência Passo Torto Sesc Sto.Amaro !!" postou hoje Marcelo Cabral feliz da vida. |
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